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Empresas que Você Deveria Conhecer #1: Mooca, a loja que acelera criativos em BH

Conheçam a Mooca, 1º loja colaborativa do Brasil que, para além de vender produtos, também foca na aceleração de produtores criativos locais

Chivas Regal acredita que vencer do jeito certo é ter uma atitude empreendedora que pensa no coletivo e compartilha suas conquistas.

Por isso Chivas e o Papo de Homem desenvolveram uma série de artigos de empresas com uma propostas diferentes dos modelos de negócio tradicional e que acreditamos que estão fazendo a diferença no mundo de forma positiva - fique de olho no nosso canal nas próximas semanas, esse é apenas o primeiro artigo.

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Para quem não nasceu no eixo Rio-São Paulo, uma ladainha se repete sempre que o assunto é desenvolver uma carreira: "você tem que ir embora daqui pras coisas darem certo". Ex-publicitária formada em Comunicação Social, Fabi Soares ouvia isso mesmo em uma cidade grande como Belo Horizonte.

Ouviu, só que não obedeceu.

Enquanto alguns colegas foram para São Paulo atrás de empregos nas maiores agências de publicidade do Brasil, ela optou pelos dois caminhos diametralmente opostos: permanecer na cidade e, ao invés de procurar um emprego e subir degrau por degrau, empreender e criar o próprio caminho.

“Eu já tinha namorado muitos modelos de negócios de lojas colaborativas, que eu achava legais. Só que eu sabia que não queria ser dona de loja. Eu não queria fazer gestão de loja. Eu via muitas feirinhas acontecendo, makers tendo ideias de produtos e não sabendo para onde levar, como fazer. Tudo muito informal. Eu vi que tinha muito potencial de pegar aquilo ali e transformar em um negócio, fazer ser rentável. Surgiu a oportunidade de alugar um imóvel num ponto legal de Beagá, que é a Savassi, e aí veio a ideia”.

A ideia a qual ela se refere hoje atende pelo nome de Mooca — a 1º loja colaborativa do Brasil que, para além de vender produtos, também foca na aceleração de produtores criativos locais.

Um dos workshops entre criativos promovidos pela Mooca

Inaugurada como um protótipo em novembro do ano passado, a Mooca (o nome vem do tupi guarani: “Mo” de construir e “Oca”, de casa) é, de certa forma, filha do Carnaval. Foi na bateria da Unidos do Samba Queixinho, um dos blocos da renovada e engajada folia belorizontina, que Fabi conheceu a sócia Marina Montenegro — formada em design de interiores e consultora de inovação com especialização em coolhunting.

Depois de dois ou três anos tocando juntas, a parceria se consolidou como sociedade em 25 de setembro de 2015, quando fizeram um post no Facebook recrutando amigos para um desafio: ocupar uma loja inteira com produtos criativos, todos locais, de olho no período do Natal. As sócias pensavam em captar 37 pessoas pra ajudar a colocar a loja de pé, mas tiveram 150 inscritos. “Foi a primeira validação”, explica Marina. “A gente viu que, nó, tinha gente interessada. Tivemos muito buzz nas redes sociais, tanto que nossa inauguração foi uma loucura e o quarteirão encheu”.

Com o tempo contado para a abertura, em 10 de novembro, o trabalho foi intenso. Fabi, Marina e os selecionados começaram um mês de desenvolvimento, planejamento e atividades em 1 de outubro. “A gente não tinha contrato com ninguém e pôs essa galera pra sofrer, dando um banho de água fria atrás do outro”, diz Fabi. Logo no primeiro final de semana, os empreendedores se identificaram com as práticas ruins elencadas no workshop batizado 15 maneiras para fazer uma empresa dar errado. “Achava que no meio do caminho alguém ia falar você é louca, deixa eu ir embora. Mas a galera ficou até o final, não teve nenhuma desistência. Eu acho que eles tavam precisando disso. São pessoas inteligentes, que sabem o que querem fazer. Às vezes é preciso dar uma chacoalhada para acordar e reagir”.

O dinheiro inicial para o negócio veio de um frila publicitário realizado pela Fabi, mas a conta, a mobília e até as paredes lixadas foram divididas entre todo mundo. “O processo colaborativo não só fez parte da essência da coisa, mas também tornou tudo viável. Quando você começa uma coisa assim as pessoas se sentem parte de verdade, e se cria uma atmosfera de afinidade. Se não tivesse isso no cerne, talvez tivesse aquela mentalidade da competição”, explica Fabi. “A gente teve um exercício em que, numa parede, os produtores escreviam e colavam em post-its as abundâncias que tinham. Eu tenho um computador, eu tenho uma loja, eu tenho papel de aquarela sobrando. Do outro lado, colaram post-its com o que faltava. Aí as pessoas começaram a ver que tinham coisas que se complementavam. Perceberam que se ajudando, tendo essa troca, construindo essa rede, ficaria mais viável pra eles também. Eles trocam contatos de fornecedores, podem barganhar junto para comprar embalagens e pagar mais barato. Eles viram que têm poder”.

Os papéis também serviram para as sócias alinharem o processo de aceleração dos empreendimentos de acordo com a demanda. No começo da empreitada, alguns criativos não tinham produto, marca, nada definido. Direcionados, os empreendedores aprenderam fazendo, enquanto pontos como gestão financeira e precificação foram enfatizados nos cursos. “À princípio, são as questões que eles mais percebem”, diz Marina, responsável pela mentoria individual dos acelerados. “Em geral foca-se muito em criar produtos novos, mas mal eles vendem um produto que criaram e já querem criar novos. Isso gera custo, e à longo prazo não é sustentável. Assim, a gente foi criando também essa visão de que é preciso ter planejamento”.

Com as coisas nos trilhos, a loja protótipo ficou aberta por 45 dias — até 24 de dezembro. “O resultado foi muito legal. A gente encheu a loja de produtos que conseguiram competir muito bem com grandes redes ou shoppings em um mercado de Natal”, diz Fabi. Fechada a lojinha, as sócias tiraram alguns meses para remodelar e elaborar um modelo 2.0.

A loja da Mooca, que fica na Rua Antonio de Albuquerque, 458 - Praça da Savassi, em Belo Horizonte

Parar, Repensar, Ouvir e Acelerar

Testar projetos no mercado de forma enxuta oferece a chance aos empreendedores de reagrupar para avaliar o que deu errado e o que deu certo em uma empreitada. Nos 45 dias de loja pop-up mais 30 e poucos dias de aceleração, Marina e Fabi tiveram a chance de testar na prática a importância de algo que estimulam seus acelerados a fazer.

“Você criou? Põe para teste. Começamos a fazer a loja e fomos dormir só depois do dia 24. A gente parou, deu pause e reviu várias coisas. Muitas coisas dos processos internos eram manuais — as vendas eram anotadas em um caderno — e já sabíamos que precisavam mudar. No protótipo, fizemos um mês de aceleração e depois a loja aberta. Revimos os processos e agora as duas coisas não acontecem em separado”, explica Fabi. “Nós aceleramos ao mesmo tempo em que a loja funciona. Ao invés de promover apenas workshops pontuais, que acontecem pelo menos uma ou duas vezes por mês, agora temos também mentorias individuais — cada criativo tem direito a uma por mês, e todo dia a gente recebe pelo menos um produtor para acompanharmos o desenvolvimento”.  

A premissa que norteia o trabalho de acompanhamento da dupla passa pela constatação de que, ainda que exista um grande potencial potencial criativo aliado ao talento, se os produtores não forem capazes de estruturar uma empresa de um jeito certo, com a parte gerencial e administrativa que é importante para fazer um negócio girar, a iniciativa tende a fraquejar. A pessoa faz e continua fazendo, mas à medida que não consegue tirar uma remuneração que a sustente e percebe que as contas não fecham, eventualmente desiste. Como muitos têm pouca afinidade com temas de viés administrativo, cabe a elas traduzir o que o SEBRAE ensinaria para a língua dos criativos. “É muito comum uma pessoa chegar aqui, já com um negócio, e quando recebe a pergunta “e aí, quanto você faturou?”, ela não sabe responder, porque não divide as contas pessoais daquelas daquilo que produz”, diz Fabi.

Números de pontos de venda, redes sociais e outros dados passam a ser acompanhados de perto. As perguntas são sistemáticas. Aumentou o faturamento? E a visibilidade? Como está a entrega do produto? Como foram as vendas? O que as pessoas falaram do seu produto? Como o negócio pode melhorar? O Natal está quase aí. Como você vai se planejar para os próximos meses?

Para organizar melhor o desenvolvimento, administrar o interesse e manter o fluxo de empreendimentos, a Mooca divide seu tempo em ciclos de três a quatro meses. A cada temporada as sócias fazem uma seleção entre as marcas que desejam participar. Atualmente, no período que vai até janeiro, 45 marcas estão sendo desenvolvidas — 30 das quais já estavam no ciclo anterior e quiseram continuar para um trabalho de médio e longo prazo.

Essa continuidade no desenvolvimento, inclusive, foi conquistada aos poucos (do protótipo para a Mooca 2.0, 12 marcas renovaram). Um passo essencial para tanto foi a conquista de um prêmio especial do Baanko Chalenge, que acelera negócios com impacto social. Fabi e Marina se conectaram a uma equipe de consultores que adicionaram novas visões aos processos da Mooca e, com uma pesquisa de satisfação e grupos focais, elas conseguiram avaliar as entregas e o sucesso da loja de modo muito mais palpável. O questionário aplicado aos produtores também permitiu entender o que os produtores queriam que fosse alterado.

“Nós estávamos trabalhando muito, diariamente, e só enxergávamos aqui na frente. Listamos o que eles pediram e falamos isso dá pra fazer, isso não dá. E passamos para eles: ‘gente, vocês pediram isso no questionário. Isso aqui já estamos fazendo, isso não dá por conta disso, disso e disso’. Transparência resolve todos os problemas do mundo. É só contar porque aquilo que a pessoa pediu não funciona que ela entende”, explica Fabi. “Entre as coisas que a gente conseguiu atender, passamos a organizar os workshops com um pouco mais de antecedência. Os produtores também opinaram sobre os temas dos cursos, e a gente tem conseguido achar profissionais no mercado para isso”, explica Marina. “A gente consegue orientar as marcas porque elas têm um porte muito menor. Muitas das orientações que dou nas monitorias são de coisas que fomos aprendendo com a própria Mooca”.

Um processo que causou bastante desgaste foi a papelada — a Economia pode ser Criativa, mas a burocracia e boa parte dos fornecedores não são.

Fabi e Marina eram inicialmente Microempreendedoras Individuais (MEI), mas com o crescimento da loja precisaram passar a pedir notas fiscais para tudo o que entrava saía da loja. “Tivemos uma orientação que não foi legal, de uma contabilidade que foi quadrada. Não tentaram entender o nosso modelo colaborativo, para facilitar o nosso processo. A nossa relação com os produtores quase foi colocada em xeque”, diz Marina. “Mas aí a gente conseguiu mudar de contador para um que tem uma cabeça bem melhor e atende outras empresas criativas. Ele mostrou outros caminhos que nos fariam estar dentro da lei, dentro da burocracia, mas de uma forma mais coerente com a nossa realidade e dos produtores”.

As sócias Fabi e Marina

Modelo de Negócios

A Mooca trabalha com dois pilares: produzir e vender. O lado da produção é o desenvolvimento dos pequenos empreendedores criativos locais. O outro, do comércio em si, fecha a cadeia: ajuda aceleradoras e acelerados a ter uma validação real das coisas que planejam. Afinal, não adianta só desenvolver e não fazer o faturamento do produtor aumentar ou conseguir fazer com que ele construa um público.

Para que a conta feche e o aspecto colaborativo e de rede se mantenha, o modelo de negócio se baseia em um cálculo de projeção e divisão de gastos: 80% do custo fixo mensal é dividido entre as 45 marcas por igual. Esse valor engloba aluguel, luz, IPTU, internet, locais para workshops (os palestrantes são voluntários que vêm sentido em se conectar com a dezenas de produtores e clientes potenciais), as duas sócias, uma vendedora, uma secretária virtual e coisas da loja como sacola ou a porta de aço que caiu recentemente. Ao mesmo tempo em que assumem os outros 20% de custos, Fabi e Marina têm, como contrapartida, direito a 25% do valor das vendas feitas na loja.

“Nos meses em que ficamos repensando o modelo para entender o valor que a gente entregava para essas pessoas, teve quem falasse que a gente podia cobrar até mil reais que era ok. Mas aí também utilizamos o bom senso. Para uma marca que está começando, além de fazer investimento na Mooca, ela tem que fazer investimento em produção, ateliê etc. Esse modelo de divisão de contas é, até agora, a forma mais justa que a gente enxerga”, explica Marina.

A responsabilidade coletiva também ajuda os empreendedores novatos a perceberem que para tornar um negócio viável é preciso ter um certo fluxo de caixa. “Muitas vezes há essa culpa cristã de ai, não posso cobrar. Não é para você ser milionário. É para vc continuar fazendo o que você quer, o que a gente ama”, diz Fabi.

Resolvida essa etapa, o desafio passa a ser ganhar escala. Como crescer sem perder a essência?

“A parte de aceleração é um dos pilares mais importantes do negócio, e sem ela nada funciona. É incrível, mas não é muito escalável, porque a gente zela muito pela coisa presencial, pelo acompanhamento de perto. Crescer aumentando o número de marcas, para atender mais pessoas, requer uma reestruturação interna, capaz de suportar isso”, diz Fabi. Assim, aumentar o volume de vendas é primordial para o lucro.

Um dos projetos em andamento é uma coleção colaborativa de 8 produtos pensados exclusivamente para a loja e o final deste ano. Outro é a criação de uma plataforma de e-commerce. “A gente ainda atinge um público muito específico, que está preocupado em consumir melhor, saber de quem compra. Arquitetos, designers. Aqui em Beagá a gente consegue alcançar esse público, mas e no Brasil? Recebemos demandas por rede social de pessoas de outros lugares querendo comprar e temos de explorar isso”, explica a ex-publicitária. Parcerias para brindes de clientes corporativos também estão em vista.

Outra frente diferente é a criação de receitas com os workshops. Ao notar que pessoas e empresas com muito tempo de mercado se interessaram pelos cursos frequentes e voltados para inovação que a Mooca oferece, as sócias se preparam para testar um modelo que permite que mesmo quem não é um acelerado participe dos cursos mediante pagamento pela vaga.

“Ontem eu fui conversar com dois fornecedores que estão há bastante tempo no mercado e que, ao ouvirem falar da Mooca, disseram que queriam conversar para entender como a gente funciona e fechar uma parceria”, diz Marina. A gente tem um contato de no mínimo 100 marcas locais, e isso também é um valor potencial.

“É um bolo, e funciona assim: os produtores crescem e a gente cresce junto. E vice-versa também, senão a rede não funciona”, resume Fabi. Se levarmos em conta que a Mooca conseguiu impactar a vida de dezenas de criadores em um período de crise, não deve faltar pedaço para ninguém no futuro.  

Mecenas: Chivas

A Série “Empresas que você deveria conhecer” foi criada pela parceria de Chivas com o PapodeHomem. Nas próximas semanas você vai conhecer a história de empresas com propósitos diferentes do tradicional.

Queremos trazer à tona empresas que querem fazer a diferença, vencer do jeito certo e fazer mudanças positivas no mundo.

Saúde.


publicado em 16 de Novembro de 2016, 15:54
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Ismael dos Anjos

Ismael dos Anjos é mineiro, jornalista e fotógrafo. Acredita que uma boa história, não importa o formato escolhido, tem o poder de fomentar diálogos, humanizar, provocar empatia, educar, inspirar e fazer das pessoas protagonistas de suas próprias narrativas. Siga-o no Instagram.


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