"En garde, mano!": da rivalidade entre todos nós (com promoção)

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Imagine, leitor, que estamos frente à frente. Pelo pouco tempo que nos conhecemos (tão pouco, apenas algumas frases), você desconhece os limites de minha honra e, infelizmente, os ultrapassa. Enquanto pergunto "Are you talking to me?", minha luva de pelica desliza impiedosa e precisa pelo ar até encostar em seu incrédulo rosto.

Você foi desafiado para um duelo.

Antes de pensar em chamar a polícia – ou mesmo me direcionar ao Hospital Psiquiátrico mais próximo –, você deveria sentir orgulho. Afinal, não se desafia qualquer um desta forma. Na verdade, já no século XVII, apenas os cavalheiros eram dignos de duelos. Se você fosse um lacaio aos meus olhos, eu mandaria um de meus asseclas golpeá-lo com um chicote ou vara de marmelo mais próxima.

O que nos traz a uma lembrança curiosa: tempos atrás, um amigo de meu pai tinha um sonho. Seu desejo maior era ser trancado em uma sala com um político conhecido de Pernambuco (sejamos cavalheiros, sem nomes aqui). Regras: ambos pelados – assim, evitam-se trapaças e vantagens competitivas – e, cada um, apenas com um chicote na mão. Simples assim. Imaginou a cena? Acredite, fica pior quando você sabe de quem se trata.

Voltando a nossa história, a próxima medida a ser tomada é encontrar nossos padrinhos. Eles são as figuras que farão os acertos para que tudo dê certo durante nosso duelo e possamos tentar nos machucar sem grandes problemas. Enquanto eu ligo para o meu, você ainda se questiona sobre o motivo de não ter ligado para a polícia ainda.

Pronto, somos rivais. Nesse momento, a plateia já se aglomera em torno de nós. O povo adora um conflito, você sabe. Na verdade, você e eu adoramos um conflito também. Toda rivalidade pressupõe uma história. E vice-versa. Nós somos movidos por histórias – uma bem diferente da outra.

Pelé versus Maradona

Link YouTube | 8 minutos com o melhor de ambos

O maior jogador do mundo e o melhor argentino. Não jogaram na mesma época, mas são comparados até hoje. Dieguito, malandro que é, não deixa de alimentar o conflito. E o pessoal adora.

Quem foi melhor? O Rei ou El Pibe de Oro? Quem é melhor, Brasil ou Argentina? Grandes rivalidades costumam tomar grandes proporções. E muita filosofia entra no meio também. Bem x mal, bom moço x drogado, vendido x original. Não dá pra ser rival em apenas uma instância.

A discussão não acaba. E nem acabará. Esse tipo de conflito sem fim dá muito pano pra manga. Sustenta-se praticamente sozinho, sem fazer esforço. Nós seguimos no debate em mais uma vitória da rivalidade.

Real Madrid versus Barcelona

Link YouTube | O histórico da rivalidade em várias jogadas

Rivais dentro e fora do gramado. Essa história aqui é mais complicada. As grandes potências do futebol espanhol têm uma rivalidade que antecede o próprio esporte, mas que encontra no esporte bastante terreno para crescer.

E acaba que o próprio futebol ajuda a elevar os ânimos do conflito. Por outro lado, em muitos momentos, também ajuda até a torná-lo mais leve; afinal, tem-se falado mais em gols e faltas duras do que em atentados.

Política tem muito a ver com futebol. Duas brincadeiras com as quais o homem insiste em passar o tempo – terrenos férteis para a rivalidade.

Sport versus Náutico versus Santa Cruz

Em Pernambuco, assim como em outros estados brasileiros, a paixão pelo futebol é tão visceral que dói. Isso causa um fato interessante: Sport, Náutico e Santa Cruz não possuem rivalidades exclusiva (os vídeos linkados não refletem diretamente a rivalidade entre os 3 times, mas sim a paixão insana e perturbada do torcedor pernambucano). Então, acabam por alternar rivalidades de acordo com a época.

Quando dois estão por cima, assumem o posto de rivais. Por mais que ninguém vá admitir nessa vida, chegam até a torcer um pelo outro caso uma hegemonia muito longa se configure. É algo que o Rodolfo, meu irmão, bem definiu como um "triângulo rivaloso".

Botafogo contra... bem, contra ele mesmo

Link YouTube | Saudade da TV Pirata...

É, sobre isso não há muito o que comentar. Conflito interior não é o tema deste texto.

Mas, como você pode imaginar, exemplos não faltam para ilustrar as rivalidades no futebol. E, mesmo que façamos listas, sempre vai ficar alguém de fora. O futebol, universal que é, talvez seja o instrumento mais completo para refletir rivalidades.

Afinal de contas, porque rivalidades chamam tanto a nossa atenção?

Rivalidade como parceria

Toda história se constrói na dicotomia entre equilíbrio e desequilíbrio. Robert McKee não me deixa mentir. Sem mudança não há história. E nós mudamos na medida em que somos desafiados, seja pelo destino, por nós mesmos ou por outro. Ou seja, temos que ter um rival.

São dois rivais e não dois aliados que formam uma verdadeira dupla. Sem um o outro não existe. O que seria do Papa-Léguas sem o pobre Coiote? Um pássaro doido correndo pelo deserto. Sem graça.

Na Grécia antiga (mais precisamente, nas Ilhas Jônicas), rivais resolviam seus embates com insultos verbais de cunho sexual em lugares públicos seguidos de lutas em que não se buscava a morte, apenas agressões mútuas. Mais ou menos como o casamento moderno: na alegria e na tristeza.

No mundo da bola, não faltam exemplos. Tivemos Romário contra Renato Gaúcho contra Edmundo no Rio. Palmeiras contra Corinthians (ainda que o primeiro esteja bem desprestigiado). País de Gales (coitado) contra Inglaterra. Celtic x Rangers, o MMA do futebol. Este talvez mais intenso apenas que o atual Barça e Real. Que o digam Pepe, Mascherano e Adebayor.

Entretanto, nervos à flor da pele não são privilégio de nossos tempos. Sempre foi difícil equacionar a intensidade de uma rivalidade. É que, quando o sangue sobe à cabeça, companheiro, fica complicado segurar a onda. Não é à toa que, normalmente, duas figuras opostas são escolhidas em grandes partidas de futebol. É o reflexo do caráter humano do duelo. Mourinho x Guardiola – a irritação, Messi x C. Ronaldo – a habilidade, Ronaldo Fenômeno x Oliver Kahn – quem é realmente o maior?

O equilíbrio inicial estabelecido é energia potencial acumulada. Então, o começo de partida tem uma grande tensão, que explode ao longo do jogo, deixando-a ainda mais interessante.

Rivalidade como convite ao espírito cavalheiro

Nessas horas, como equacionar o empenho, a vontade e, muitas vezes, a raiva? Bem, companheiro, esse é um trabalho para o cavalheirismo.

Você não precisa se vestir assim para ser um cavalheiro

Cavalheirismo é um conceito que nasceu na época medieval com origem militar. Virtudes básicas de um cavaleiro: honra e amor cortês. Há vários capítulos dedicados ao tema em um livro chamado The Waning of the Middle Ages. Citando um trecho: "[cavalheirismo] é orgulho que aspira à beleza, e este orgulho formal dá vida a uma concepção de honra, que é o pilar para uma vida nobre".

Os cavaleiros medievais eram ensinados a respeitar, mostrar misericórdia, repudiar a covardia e a baixeza. Cá entre nós, esses ensinamentos ainda valem bastante.

Por isso, não podemos nos deixar levar pela emoção assim na hora de um bom duelo. Em uma boa partida, sempre prevalecerá o cavalheirismo. Estamos aqui pelo espetáculo. Inclusive, lembra daquele nosso duelo? Sabe de uma coisa? Deixa pra lá. Saber perdoar é indispensável a todo cavalheiro. Ao invés de duelar entre nós, que tal assistir a uma partidinha de futebol? Diz que tem um belo duelo por aí nesse fim de semana. E outra: o que seria de mim e deste pobre texto sem você, leitor?

Quer ser um cavalheiro? Ainda que não haja uma definição exata de todas as virtudes de um cavalheiro, segue uma lista básica para você se inspirar: coragem, justiça, generosidade, liberdade, nobreza, diligência, força, integridade, verdade, humildade, prudência, vontade, propósito. E duas referências do que se chama Code Duello, códigos que estabelecem regras para duelos: Code Duello Islandês (1777) e Code Duello da Carolina do Sul (1838).

Oferecimento: Chivas (com promoção)

Clique para beber whisky com esses caras

Nota do editor: Na final do Paulistão, domingo, dia 15/5, vai rolar um encontro entre o Ronaldo, ex-goleiro do Corinthians, e o grande Serginho Chulapa, ex-jogador do Santos, para assistir ao jogo juntos, tomando Chivas no estiloso bar Blá, ao lado de 3 torcedores corintianos e 3 santistas.

Se quiser ser um desses torcedores, basta curtir a página do Chivas no Facebook, escolher seu time e dizer por que você quer tomar Chivas nesse encontro pacífico entre rivais.

O concurso acaba quarta (11/5) e o resultado sai quinta. Vamos divulgar aqui, no Facebook e no Twitter PdH.


publicado em 07 de Maio de 2011, 08:11
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Rodrigo Borges

Rodrigo Borges não costuma falar na terceira pessoa quando se refere a ele mesmo. Tenho um Twitter meio paradão, mas estou sempre pela internet. Inclusive, sou editor do OsGeraldinos, um portal bacana sobre esportes (passa lá). Entendo o futebol como uma forma de linguagem e acabo misturando outros assuntos com ele. E acaba dando nessas coisas aí.


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