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Fala na cara! Cinco histórias em que foi necessário dizer umas verdades

Porque a gente precisa, de fato, falar a real e sem rodeios, para o bem e para o mal

Na vida, em nosso dia a dia, estamos jogando o tempo todo. Em inglês, as palavras "atuar" e "jogar" são a mesma: "To play". Enquanto estamos vivendo, nas coisas mais cotidianas, estamos atuando, mesmo quando somos verdadeiros. Uma pose, o jeito de falar, é tudo parte da brincadeira (brincar, em inglês, também é "to play") de falar a coisa certa na hora certa para a pessoa certa.

Mas e se tirássemos essa máscara falássemos mais de igual pra igual e sem travas? Daí o jogo pode ficar ainda mais interessante, a vida pode ganhar mais graça, afinal, não saberemos como tudo pode acabar.

Falar a verdade de uma vez, sem maiores polimentos, pode dar muito certo e, bem, em outras situações, pode ser engraçado e intrigante.

Vamos contar, para o bem e para o mal, histórias demasiadas humanas de quando testamos esse limite e falamos sem rodeios.

"Bater de frente com o técnico", por Bruno Pinho

Bater de frente com uma autoridade próxima é bem difícil. Quando é um mentor e alguém que você respeita, ainda mais. Mas tem momentos que você precisa falar, porque sabe que as coisas deveriam ser mudadas.

E, bicho, como é complicado de soltar a boca e o coração nessas horas.

Minha maior lembrança sobre esse tipo de sinuca de bico aconteceu quando ainda era moleque, no auge dos meus quinze anos. Era capitão da equipe de rugby, e tinha uma missão non grata clara: falar para meu treinador que os treinos estavam sendo uma merda, e o time queria treinar e jogar diferente.

Menino de poucas palavras, minha postura à frente sempre foi de guiar pelo exemplo. Poucos dizeres, muitas ações em campo. Jogava rugby, e aprendi cedo que um tackle bem dado na costela do adversário durante o jogo vale mais do que qualquer berro dado antes dele.

Mas, pela primeira vez, percebia que minha postura como capitão deveria ir além de como jogava eu e meus companheiros, mas também passava por zelar o ambiente do grupo e a qualidade dele, ainda que precisasse enfrentar nosso treinador para isso. 

O desejo do time era claro por mudanças, e em muito compartilhava do sentimento. E só mudaríamos com a mudança de mentalidade de nosso treinador. Mas alguém precisava mostrá-lo isso.

Esse alguém era eu, o capitão da equipe.

Com a voz oscilante, o receio pelo que viria e a clareza nas ideias, tomei a coragem que ainda não tinha naquela tenra idade e falei como víamos aquele momento para ele. O que encontrei não foi as pedras que esperava, ou a indiferença de alguém que está em lugar superior. Foi uma abertura de entender o que queríamos dizer, de admitir que estava confuso e de pedir ajuda. Três meses depois estávamos jogando como gostaríamos, alegres com a evolução e vencendo a primeira partida do ano. E, cacete, como foi difícil chegar até ali e ganhar alguma coisa.

Esse episódio ensinou uma lição que carrego até hoje: se abrir e falar na cara é difícil, se for com pessoas que você considera em um lugar acima ao seu, ainda mais. Mas pode dar certo. E aí, colega, quando isso acontece, muitas coisas boas vem junto.

Só isso já vale a tentativa.

"Eu amo a sua ex, cara", por Jader Pires

Das coisas que a gente faz por amor. Teve uma vez que eu, por algum encanto de sereia, fiquei apaixonado pela ex-namorada de um amigo. Eles não ficaram muito tempo juntos e eu nem a conhecia, só ouvia relatos da menina que ele gostou muito um dia e que doeu bastante largar dela. 

Daí que, num final de semana ele me convidou pra festa de aniversário justamente dessa ex-namorada. Queria mostrar pra ele mesmo que tava tudo bem. E de fato estava. Chegando lá, deu um abraço forte nela, um parabém daqueles demorados. Sussurrou uma palavra ou duas no ouvido dela e me apresentou.

Fogo, caldo de onda grande, atropelado por um trem. Fui pego contigo e meus olhos brilharam. Que mulher, que sorriso. 

Meu amigo cotando de como estava bem, do quão feliz ele estava por saber que não havia mais mágoas ou dores. E eu com o coração acelerado. Dias depois, sofrendo da febre do amor e com muita coisa entalada na garganta, me confessei com ele. "Cara, eu tô amando a tua ex".

Pronto. A pedra de trezentas toneladas saiu das minhas costas e foi parar na mesa do bar onde estávamos, ele e eu. Depois de uns minutos de reflexão e dois goles que mataram toda a cerveja do copo, ele me deu sua benção. "Cara, meu lado emocional pode ficar abalado com sua afirmação, mas meu lado racional não pode te impedir de tentar algo com ela. Boa sorte".

E lá fui eu, todo pimpão. Mandei uma mensagem pra ela dizendo que tava afim.

Ela respondeu que não.Assim. De uma vez.

Rapaz... esse negócio de cortar o morde e assopra é complicado. Mas bola pra frente. Nos abraçamos, meu amigo e eu, e damos risadas até hoje com o caso enrolado.

"E se rolar um aumento?", por Breno França

Não sei se todos vocês já ficaram sabendo, mas, se não ficaram sabendo ainda, fiquem agora: fui efetivado no PapodeHomem.

Depois de alguns pedidos até nos comentários, a vontade de ambas as partes de fazer isso acontecer só crescia, mas a verdade é que nem sempre só vontade basta.

Graças aos nosso Mecenas (obrigado Mecenas!) e ao esforço de muita gente aqui de dentro, as coisas vão melhorando. Mas não é como se o PapodeHomem estivesse pronto para acolher todos que quisesse, de uma hora pra outra. Por isso, nosso processo de negociação foi demorado. Foram alguns meses de ansiedade e expectativa entre a primeira reunião e a primeira proposta.

Já ciente de que nutrimos uma ótima relação, não tive dúvidas no momento de fazer uma contraproposta (mentira, tive!): mandei o direto.

Foram algumas horas de madrugada gastas para elaborar um bom e-mail de resposta, preparar os argumentos certos, decorar as desculpas exatas, a narrativa mais brilhante que eu poderia ter criado. E devo confessar que algumas lágrimas correram no processo. Ao mesmo tempo que estávamos falando sobre algo tão sensível (pra não falar tabu) quanto dinheiro, era preciso mediar as emoções que eu sentia naquele momento: angústia, vergonha, medo, e acabar falando das reais necessidades e anseios que eu tinha, sem rodeio, sem ficar medindo.

Eu era o filho que se tornava independente dos pais, o estagiário que pleiteava seu primeiro emprego e o jovem que finalmente está assumindo responsabilidade total sobre sua vida. Pesos difíceis de equilibrar ao mesmo tempo. Mas devo dizer que ter sido sincero me fez muito bem.

Depois de solucionarem uma equação ainda mais complexa do que a minha, os chefes encontraram uma solução possível e chegamos ao acordo que é o que me permite estar aqui hoje contando uma história com final feliz.

"Como escapar do sincericídio", por Guilherme Valadares

Durante muito tempo achei que falar na lata era ponderar o suficiente pra ter uma fala assertiva e poderosa, em especial no ambiente de trabalho. Eu via líderes sendo duros e achava que ser sincero era isso.

O resultado foram longos anos no qual eu tocava o PapodeHomem sendo bruto com todos à minha volta, e pior, comigo mesmo. 

Um dia meu sócio fez um tremendo erro, que nos custou um projeto importantíssimo. Berrei com ele, o ofendi e quase quebrei a porta ao sair, expressando minha raiva. Senti vergonha, logo depois, e isso criou uma rachadura na relação, que levou tempos até curar.

Às vezes achar que está sendo sincero é só ser ingênuo, infantil e machucar quem está à sua volta. Demorei anos até encontrar caminhos pela comunicação não-violenta, empatia e meditação. Vi que, pra falar o que penso, preciso primeiro entender o que realmente sinto e penso, assim como ser capaz de me colocar no lugar do outro.

Hoje me sinto mais direto do que nunca ao me comunicar. Aprendi que por baixo das minhas aflições emocionais está o que tenho de útil a dizer.

Na dúvida, um lance prático é se lembrar dos 4 portões da fala:

  • O que você tem a dizer é verdadeiro?
  • É necessário?
  • É gentil?
  • É o momento de dizer isso?

Perguntas bem pé no chão que nos ajudam a amadurecer e entender que melhor do que falar a primeira coisa que nos vem à cabeça, é falar com sabedoria.

E o sócio lá do começo da história é hoje um ex-sócio, atual parceiro de negócios e um dos maiores amigos do peito com quem posso contar.

"Acho que você tá confundindo as coisas", por Rodrigo Cambiaghi

A gente se conheceu esbarrando no café da empresa e, em poucos minutos de conversa, a gente já tava dando gargalhadas um pouco acima do volume permitido para o ambiente corporativo. 

A conversa simplesmente fluia. Era gostoso trocar ideias com ela, contávamos dos nossos encontros e desencontros amorosos da vida de solteiro, ela dizia que ia me apresentar para uma amiga dela que tinha tudo a ver comigo, eu retribuia dizendo que ia apresentar um amigo que ela ia gostar, sem nem saber quem seria esse amigo.

Até que o famigerado dia do "precisamos marcar uma cerveja" chegou.

Ela disse que ia levar umas amigas e eu agilizei de ir com dois colegas, mas no fundo eu tinha certeza de que aquilo tudo era um circo armado pra gente finalmente consumir aquela química toda que rolava nas pausas para o café.

Marcamos numa balada que a gente tinha certeza que não iria encontrar de surpresa ninguém do trabalho. Ela estava com 2 amigas solteiras, eu com dois amigos solteiros, a gente se misturou, bebeu, brindou e cantou juntos.

Tudo como manda o figurino.

Eu conheci as amigas dela e ela meus amigos, até que, lá pra uma da manhã, eu tomei coragem e fui falar com a moça do trabalho:

— Gata...

Gheguei nela puxando pela cintura.

— Fala gato.

Ela sorriu pra mim. Sente o nível de intimidade que  gente tinha.

— Sua amiga é gente boa, mas acho que não vai rolar.

— Ah é? Que pena acho que vocês super combinam.

— Acho que não rolou aquela química, sabe?

— Sei...

— Aquela química que a gente tem, sabe?

Ela deu um riso sem graça e um passinho pra trás.

— Vai dizer que não é verdade?

— Acho que você tá confundindo as coisas, Rô. 

Silêncio. A música parou, todas as pessoas da casa ficaram quietas, a luz acendeu, meu carro tava parado em frente da saída com a porta aberta e p pisca-alerta ligado. Pelo menos foi como me senti quando ela disse a real.

E foi assim que a moça que eu jurava estava me dando mole ficou ultra mega esquisita comigo pelo resto dos dias. Ninguém beijou na boca nem trocou telefone naquele dia esquisito. Ela recebeu uma proposta para trabalhar em outra empresa algumas semanas depois, pro meu (nosso) alívio.

Por mais que eu ainda morra de vergonha de lembrar do fato, sempre gosto de contar para os amigos para que lembremos que nem sempre as coisas que parecem ruins são ruins. Tem situações hilárias que servem de lição.

Aprendizagem.

Mecenas: Kaiser

“Te amo, pô”;

“Não curto suas fotos a toa”;

“Suas piadas não tem graça”;

“Racha essa conta seu muquirana”;

Você vai encontrar essas e outras frases que você já sentiu vontade de dizer para alguém nas novas latas. Kaiser acredita que o homem que fala o que pensa, com sinceridade e respeito, vive uma vida mais divertida e leve. Por isso, diga o que você está sentindo sem medo. Fala na Lata.


publicado em 06 de Fevereiro de 2017, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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