Pep Guardiola na Seleção Brasileira é uma piada de mau gosto

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A demissão de Pep Guardiola do comando do Barcelona, onde atuou por quatro temporadas, conquistou 13 títulos e formou aquele que é considerado um dos melhores times de todos os tempos, gerou dezenas de projeções sobre o futuro do técnico. Clubes ingleses, italianos, do Oriente Médio e, como não podia ser diferente, outras seleções nacionais foram citados como possíveis destinos de Guardiola.

Até aí tudo bem. O problema é que falaram de Seleção Brasileira.

E isso não pode ser levado a sério.

Pep Guardiola: mais que um treinador de futebol

Josep Guardiola i Sala é natural de Santpedor, modesto município da província de Barcelona que possui pouco mais de 60 habitantes. Barcelona é a capital da Cataluña, uma comunidade autônoma da Espanha, situada a nordeste da península Ibérica. A derrota na Guerra Civil de 1936 ainda influencia o cotidiano na região. E a hegemonia do esporte na Espanha, especialmente mediante o futebol e o basquete, tornou-se o grito da independência jamais conquistada.

Filho da terra, símbolo de um nativo que orgulha o povo e a imagem bairrista fazem de Guardiola mais do que um maestro de vitórias. Ele representa uma escola de patriotismo implantada dentro do conceito e do formato Barcelona de jogar futebol. Não se trata apenas de ser bom. Mas sim, de um planejamento inspirado em toda uma bagagem cultural e histórica que a cada ano se fortalece.

A impressão que temos quando assistimos a um jogo do Barcelona é de uma entrega fora do normal. A formação de jogadores ainda nas categorias de base, mais do que física, tática e técnica, preza pela identificação com a camisa. O jogador do Barcelona parece que nasce para correr incansavelmente. O futebol ofensivo e vistoso do clube catalão é a essência do futebol colaborativo.

Futebol não é momento. É contexto.

O jovem Guardiola com a camisa do Barcelona e a bandeira da Cataluña em 94

É indiscutível a capacidade técnica de Guardiola ao comando de um time. Mas a mudança de treinador agora, faltando pouco mais de dois anos para a Copa do Mundo, seria uma admissão de erro. Seria apenas mais um exemplo de imediatismo de nossos dirigentes pressionados pela imprensa esportiva. O problema não está em Mano Menezes e suas convocações confusas. O problema é que nosso futebol perdeu a sua identidade.

A Confederação Brasileira de Futebol está mais jogada do que nunca. O Clube dos 13, entidade que reunia os maiores clubes do Brasil e batia de frente com a CBF, praticamente extinguiu-se. Ricardo Teixeira sumiu – mas não antes de vender a Seleção Brasileira até 2018 com a antecipação pela cessão de direitos comerciais e outras avenças.

A Seleção Brasileira, aquela que sempre jogava pelo povo e para o povo, não atua mais no país. Quando joga, são vendidos ingressos a preços astronômicos e centenas de cortesias previamente distribuídas a políticos, empresários e artistas. Nossos jogadores, ainda tão bons quanto os outros, não conseguem responder nas competições e amistosos o mesmo desempenho que em seus clubes.

Por quê?

É simples.

Eles não conhecem um único bom motivo para jogar na Seleção.

A culpa não é só do Mano Menezes

A Seleção Brasileira perdeu o seu valor. As atuações dentro de campo e os títulos perdidos recentemente refletem essa falta de identificação do torcedor/jogador com a camisa. A alternativa mais correta não é a mudança de treinadores e comandantes de base. Devemos focar no processo de planejamento que recupere a essência do futebol brasileiro.

O melhor exemplo a ser seguido – sim, precisamos baixar a cabeça e reaprender a fazer futebol nesse país – é o Uruguai. Depois de uma longa seca, o nosso vizinho abocanhou um quarto lugar na Copa do Mundo, teve o melhor jogador daquele mundial, garantiu vaga nos Jogos Olímpicos de 2012 com o segundo lugar do Sul-Americano Sub 20 e foi finalista da Taça Libertadores de 2011. Algo bastante considerável para um país de 3,3 milhões de habitantes e que, convenhamos, não tem o futebol como a sua maior preocupação.

A base desse trabalho está nas categorias amadoras da própria seleção. Existem trabalhos paralelos ao de preparação do atleta que focam na formação acadêmica do jogador. A nova seleção olímpica é um exemplo recente. Entre os 22 jogadores que participaram do Sul-Americano, dez fizeram o ensino médio e todos finalizaram o ensino fundamental. Além disso, quatro cursam alguma faculdade.

Um dos responsáveis por esse projeto é o psicólogo Gabriel Gutierrez. Homem forte na Associação Uruguaia de Futebol, Gutierrez defendeu um trabalho sólido e focado na formação de cidadãos. Seu trabalho no inicio do século foi silencioso, mas aos poucos ele implantou um modo diferenciado de revelar jogadores: trabalhando o caráter do atleta.

A nova geração do futebol uruguaio está sendo trabalhada. Mas já é possível ver a influência desse trabalho nos dias atuais.

O Uruguai voltou a respirar futebol. E serve de exemplo para o Brasil

Pep Guardiola talvez faça a Seleção Brasileira jogar bonito. Mas não adianta ganhar uma Copa do Mundo e perder as próximas 10.

O nosso futebol não precisa de Pep Guardiola. Nem de Mourinho ou Carlos Bianchi. Precisamos retomar a estrada. Mas antes, definir o melhor caminho.

Seja ele qual for. Mas que seja brasileiro.


publicado em 06 de Maio de 2012, 15:11
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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