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Isaac Asimov, pai dos nerds | WTF #73

Por algum motivo cheguei aos 10 anos de idade agnóstico e com muito ranço cientificista. Só me interessava programação, Bach e física. Escola, amigos, família – nada mais importava. Em 1985, quando ganhei alguns trocados de minha vó, fui até a hoje extinta labiríntica, enorme e respeitável Livraria do Globo, na Rua da Praia, num prédio onde também ficava a Editora Globo, fundada por Érico Veríssimo, disposto a comprar um livro.

Não achando nada decente sobre Assembly de Z-80, embrenhei-me por corredores desertos até me deparar com uma brochura vermelha com o título O Colapso do Universo, sobre buracos negros, que estava com o preço dentro do orçamento.

O problema era o autor. Embora eu não tivesse referência alguma, o nome “Isaac Asimov” literalmente saltava aos olhos, e eu já o havia visto em várias visitas a livrarias. Pilhas de best-sellers e novidades com esse nome incomum em letras enormes eram comumente expostas na vitrine. A questão é que normalmente havia robôs e espaçonaves na capa, e eu nessa altura era um purista: ficção científica podia até ser divertida no cinema ou nos corujões, etc. e tal – porém eu vestido de um jaleco de delírio não via espaço para ela em meu laboratório imaginário. Essa baboseira toda não se conformava com minha imagem de mim mesmo.

Não queria saber de especulação ou mesmo da diversão frívola da ficção, muito menos expor na estante. O que eu queria era um bom livro de Assembly; na falta servia um de física hardcore. Porém os livros-texto eram caros demais – até os examinava curioso na biblioteca da escola... o problema é que na quinta-série estavam só começando a ensinar álgebra, e seguir daí para cálculo não é bem assim (a não ser para alguém como Richard Feynman, talvez).

Aquele livro sobre o Colapso do Universo, no entanto, não era ficção. Tratava-se de, como dizia a orelha, “divulgação científica”, uma forma de apresentar ideias científicas para que meros leigos, ou meninos de 10 anos, as entendessem. Com a curiosidade sobre o assunto, isso acabou sendo aceitável. E eu não tinha a menor ideia de que aquela leitura acabaria sendo uma de minhas primeiras experiências com um tipo de êxtase argumentativo ou racional no texto que muitas vezes até hoje persigo.

Isaac Asimov como escritor é elogiado mais ou menos pelas mesmas duas qualidades básicas do texto de que sou normalmente criticado por não possuir: escrevia de forma concisa e clara. Críticos até o acusam de ter uma prosa sem ornamento – mas no mau sentido, isto é, não para o lado de um Hemingway. Asimov contava uma história, incluía descrição quando necessário, e montava algum twist qualquer para dar aquele baque. Tudo relativamente formulaico, sem linguagem indireta, sem desenvolvimento profundo de personagem.

O fato é que bom doutor mastigava entendimentos científicos bastante complexos e os regurgitava em nosso bico ansioso por ciência tal um ganso benévolo de óculos de aro grosso (que a ironia hipster e George McFly viria a transformar em referência para millennials). Ainda que eu pessoalmente não diga que clareza e concisão fossem seus maiores atributos: o que ele conseguia era passar um grande entusiasmo pela ciência, e deliberadamente, como um engenheiro de argumentos, construir um fluxo de ideias entremeadas com bom humor, num crescendo até uma espécie de orgasmo nerd na epifania científica. Asimov não era um mestre da prosódia ou da frase lapidar: ele usava a estrutura viciante e empolgante da história de detetive para qualquer tema, e isso era particularmente efetivo em divulgação científica.

Além disso, era carismático e bonachão.

Após a leitura transformativa de O Colapso do Universo – que de algum jeito convenci o Irmão Joaquim, que dava aula de português na escola, a me deixar usar como literatura(!) para fazer o resumo e fichamento requerido em sua aula – comecei a frequentar sebos e comprar dezenas de livros de divulgação científica de Asimov, Carl Sagan e outros. E foi em algum desses estabelecimentos que sucumbi, verdadeiramente envergonhado – não havia mais divulgação disponível para comprar! – aos primeiros livros de ficção, começando por Poeira de Estrelas (The Stars Like Dust), e logo me encontrei binge-reading uma tonelada dela, a maior parte, a princípio, de Isaac Asimov.

Não fazia sentido eu apreciar tanto o cinema de ficção e ficar tentando botar banca de purista. Quem eu estaria impressionando? Meus dois ou três amigos nerds na escola, interessados em Super Trunfo e revistinhas da Disney?

Ocorre que a maioria das grandes histórias de Asimov haviam sido escritas nos anos 1950, e as traduções publicadas no Brasil eram de coletâneas posteriores, que muitas vezes vinham entremeadas com comentários do já célebre autor. Estas notas até explicavam quanto ganhara por palavra, para que revista vendera, em que condições, com que recomendações do editor, assim por diante – algo que em retrospecto percebo que me fascinava: e hoje me descubro eu mesmo vivendo com esses detalhes enquanto tradutor e escritor freelance! Com essas pequenas notas, muitas bem humoradas e em tom pessoal, Asimov rapidamente se tornou um ídolo e substituto de figura paterna para este órfão de pai desde tenra idade.

Em rápida sequência li todos os volumes da série Fundação, e todos os livros das séries sobre robôs. Meus favoritos eram 827 Era Galática, Caça aos Robôs, Nós Robôs, o Cair da Noite (coletânea que contém o conto), Fundação II e Nove Amanhãs. Não tenho bem ideia como seria reler esses livros em 2015, ou como seria para um menino de 10 anos hoje ler ficção científica que já era bem datada nos anos 1980... mas pelo que lembro pelo menos Nove Amanhãs e o Cair da Noite são razoavelmente atemporais. Os outros deve ser possível ler com os mesmos poréns já necessários trinta anos atrás.

Meu encanto com Asimov acabou depois de alguns anos, depois de ler mais de uma centena de livros dele, no início dos anos 1990.  Como já descrevi nos textos sobre Kurt Vonnegut Jr. e Philip K. Dick, a puberdade inexoravelmente me conduziu para um lado mais artístico e místico – coisas que também interessavam mais as garotas. Hoje pode ser popular copiar maneirismos de personagens de The Big Bang Theory, ou algo assim, mas no início dos 90 não colava seguir um poindexter. Em 2001 eu vendi, entre muitos outros livros, apenas para liberar espaço, minha grande coleção de Isaac Asimov.

Mas, verdade seja dita, logo que comecei a ler outros autores reconheci que Asimov representava o lado mais careta e deslumbrado com o futuro e o poder da ciência em toda a FC – o retrofuturismo era divertido a princípio, mas aquela perspectiva positiva, ultra-estadunidense (ainda que disfarçada em algum tipo de “federação universal”, ou algo assim), não resistiu aos anos 70 e a óbvia degradação ecológica e aos momentos incipientes da era da informação. Quando li A Fundação e a Terra, já estava de saco cheio da ideologia subjacente – e também fiquei muito incomodado com Asimov misturar o universo dos Robôs com o universo da fundação.

É claro que isso estava ligado principalmente a eu apenas ter amadurecido, mas Asimov era de fato superficial enquanto pensador. E isso é algo absolutamente surpreendente, ao considerarmos a quantidade e qualidade de sua exposição. Digo, qualidade sobre certo aspecto: Asimov conhecia muita coisa e não falava besteira – nisso ele era absolutamente confiável. Os fãs de Asimov, e talvez ele mesmo, nunca entenderam porque seu reconhecimento ficou restrito ao universo da FC... o ponto é que Asimov não tinha sofisticação. Ele no fundo era a epítome da ficção científica como chiclete – algo que se mastigava e jogava fora.

Mesmo quando surgiam reflexões em seus livros – e não há ficção científica, ou qualquer texto, que não tenha uma ideologia subjacente – tratava-se de extrapolações convencionais: nada que realmente explodia sua mente, como em K. Dick. Asimov era o mainstream. A diretriz principal que regia seus textos, principalmente no início, reconhecida por ele mesmo, era fazer o oposto dos autores mais populares dos anos 30, 40 e 50: isto é, nada de robô-como-pathos, nada de problematizar a ciência. Nesse sentido, ele era subversivo. Afinal, a ficção científica nasceu como modo de crítica aos desenvolvimentos da ciência, e também aos desenvolvimentos sociais que a ciência inadvertidamente produziu, e que muitas vezes foram terríveis. Asimov encontrou um nicho escrevendo FC no sentido oposto: colocando a ciência como infinita solucionadora dos problemas que a própria ciência e outros fatores porventura causavam.

Era uma subversão da subversão, e, portanto, a epítome do mainstream.

E no fundo era um simplificador, como em sua divulgação científica, tudo em sua ficção acabava uma mera questão de engenharia. E estou criticando com dó no coração, porque seus personagens unidimensionais e seus mundos assépticos foram realmente muito importantes para mim na juventude, e eu me diverti muito.

Claro, Asimov volta e meia ouvia seus críticos e tentava incluir temas como sexualidade, alteridade profunda (alienígenas, raramente utilizados por ele em sua ficção), e problemas como poluição – mas ele o fazia, ora, como Marty McFly (que na realidade futura melhorada era, pasmem, escritor de ficção científica!) o faria. Isto é, daquele jeito meio desajeitado tentando reagir aos “modernos”, essa gente que escrevia ficção científica com pretensão de arte, e que entrava em questões filosóficas e de consciência, como a nova onda e K. Dick.

A era de ouro em que Asimov começou, e em que escreveu suas melhores histórias, eram os anos 1940 e 1950, e essas histórias transpunham o paraíso conservador, em que a ciência e o livre-mercado, e a imposição da “liberdade” americana, resolveriam tudo, para o futuro inconcebível. Não é de surpreender que quando Star Trek e Star Wars atingem a TV e o Cinema, nos 1960 e nos 1970, respectivamente, fossem exatamente altamente influenciadas e um tanto renovações progressistas dessa própria Era de Ouro. E, a bem da verdade, para os anos 1950, Asimov era mesmo altamente progressista: não era racista, não era bélico, acreditava na ciência como fator positivo de transformação social.

Só que aí no meio, até os dias de hoje, temos a contracultura, a reação conservadora, os irônicos anos 1990, e a distopia viva do pós 9/11. É difícil dizer o que sobra para um autor tão prolífico, e tão cativante, que perdeu completamente a relação com o futuro que se instaurou, particularmente em previsões sociais. Claro, o leitor mais antenado pode até reclamar, como artigos recentes olham para Asimov como um visionário em termos de big data e psicohistória, ou na antevisão dramática da internet. Só que “até um relógio parado acerta as horas duas vezes por dia” – compare C. Clarke em coisas pontuais ou K. Dick em “ambiente”, e se “prever o futuro” fosse o papel principal do autor de ficção científica, aí Asimov não teria relevância nenhuma mesmo... mas, sorte dele, não é.

E aí está a graça do retrofuturismo, a nostalgia dos futuros que nunca aconteceram. Revisitar Asimov hoje é ver o futuro limpo da visão mais progressista dos anos 1950, em que a ciência vai resolver todos nossos problemas, e até vai nos colocar em contato com a espiritualidade, ou substituir Deus – vide o conto A Última Pergunta. Nesse sentido, da juventude do orgulho nerd, racionalistinha, Asimov ainda é bem vivo. E tanto revisitar quanto criticar Asimov fazem sentido.

Para mim, pessoalmente, Asimov hoje apenas remete ao pensamento altamente sublimado do pré-púbere. E, como já disse, não que eu não mantenha um olhar afetuoso pelo futuro do pretérito “mais-que-perfeito” do bom doutor.


publicado em 29 de Outubro de 2015, 00:00
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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