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Matar a fome, comer direito, nutrição: como lidamos com a nossa alimentação

Pense no seu dia. Quase cinco da tarde e sua bunda não saiu da cadeira desde que voltou do almoço. De lá pra cá, foram alguns copos de café goela abaixo, nada que consiga suprir os famosos dois litros de água e, agora, a fome é urgente e incomoda, pede algo reconfortante com um quê de crocância e um toque de pimenta.

É a hora da coxinha, do pastel, do chocolate.

Nenhuma guloseima será castigada
Nenhuma guloseima será castigada

Afinal, é seu corpo que pede. Os níveis de glicose estão baixos, sua última refeição foi há algumas horas, uma possível desidratação intensifica a sensação de apetência, a cafeína em excesso estimulou suas papilas gustativas e elas estão desejosas de algo que possa apaziguar o cansaço e que dê um momento de prazer.

E precisa ser intenso. E precisa ser rápido.

Na falta de algum lanche previamente planejado e embalado na sua gaveta, qualquer oferta hipercalórica será bem recebida e, se continuar com a necessidade de comer até o fim do expediente, as tentações no caminho de volta para casa serão como pequenos e saborosos pedaços de tortura, quase abduções às padarias, confeitarias e botecos. Deliciosamente perigoso.

O que ocorre com você e a maioria das pessoas é simples: há uma entrega passiva à fome em detrimento à autonomia alimentar. Você não está mais escolhendo o que come, mas apenas cedendo às vontades malucas da falta de comida.

É triste, mas a fome e a culpa têm andado íntimas. Isso porque, hoje, temos informações em demasia sobre o que podemos e devemos fazer em prol de uma saúde minimamente invejável e estamos, por conseguinte, exauridos do debate sobre o alarmante aumento nos casos de sobrepeso e obesidade. Sabemos da necessidade de sermos fisicamente ativos e de termos uma alimentação saudável.

O que nos impede, então, de levarmos essa vida mais vigorosa? De alcançar o peso que consideramos satisfatório? De iniciarmos e mantermos um nível de atividade física adequado?

Por que é tão difícil resistir a essa suculenta costelinha?

Antes fôssemos apenas coração, emoções e vontades. Seria fácil demais, desejar assim e acabou. Mas somos fisiologia pura, com pitadas enfáticas de química e matemática. E essa combinação precisa de equilíbrio.

Nossa única fonte energética é a ingestão de alimentos (fora administrações clinicamente intravenosas de nutrientes, o que não vem ao caso) e a forma como comemos depende muito de fatores como aspectos culturais, hábitos adquiridos no meio familiar e distúrbios hormonais. São essas características que influenciam nossa subsistência, seja em quantidade e/ou qualidade.

Resumidamente, podemos classificar nossa comida em três componentes: carboidratos, proteínas e gorduras; cada grama desses macronutrientes têm calorias (quantidade de energia) diferentes e funções específicas e igualmente importantes.

Elas são muito necessárias (em suas devidas proporções e fontes) e é um crime hormonal suprimir ou reduzir um desses em uma rotina alimentar. Eles seriam o óleo, o combustível e a água do carro. Sem um deles, algo dará errado.

"Ah, então eu tomo uma vitamina equilibrada e tá tudo certo". A coisa vai muito além disso, amigo
"Ah, então eu tomo uma vitamina equilibrada e tá tudo certo". A coisa vai muito além disso, amigo

Apesar de uma superalimentação se categorizar como importante catalisador do ganho de gordura corporal, nem sempre indivíduos fofinhos consomem mais calorias comparadas às pessoas de corpo esguio. Isso implica que a composição das dietas pode ser tão importante quanto a quantidade calórica e que a proporção dos diferentes nutrientes energéticos na composição da dieta também deve ser levada em conta.

Ou seja, precisamos nos preocupar com o que comemos, quanto e como. Mais do que isso, precisamos entender o que comemos e como isso tudo vai ser efetivamente proveitoso em nosso organismo.

Então é fácil! Contaremos as calorias, planejaremos as proporções e faremos insossas marmitas de filé de frango, batata doce cozida e alguns ramos de brócolis, quentinhas essas que compartilharemos em inúmeras fotos orgulhosas, enaltecendo o fodástico controle sobre nossos corpos.

Por favor, não vamos nos enganar: nenhum organismo pode viver holisticamente saudável dessa forma. Fisicamente, talvez, mas psicologicamente, é impossível.

Assim como o crescente aumento de pessoas com sobrepeso, temos, em paralelo, pessoas infelizes, no tênue limiar dos distúrbios alimentares mascarados com a legenda de força de vontade, raça, superação.

Não podemos ignorar o fator desejo, o prazer de comer, de se alimentar, de confraternizar, de se sentir atuante na qualidade do que colocamos na boca. Perdemos a conexão, essa sensibilidade. Comemos freneticamente e não raciocinamos sobre o quê. Consolamos nossos desejos com qualquer bolinho industrializado e com qualquer batata frita em óleo velho e, em vinte segundos, queremos mais.

Nós não respeitamos o nosso corpo.

Alimentação e nutrição não são expressões equivalentes. Na alimentação, predomina o desejo de satisfação sobre o de necessidade, podendo -- inclusive -- ser considerada uma arte; ao passo que nutrição tem mais a ver com evidências científicas, ou seja, podemos nos alimentar e não nos nutrir.

Em condições equilibradas e naturais, os humanos comem quando sentem fome e param de comer quando se sentem saciados. É quando o organismo identifica que a quantidade e a natureza do que foi ingerido são suficientes.

Esse é o senhor, dez minutos antes de pedir a conta da churrascaria
Esse é o senhor, dez minutos antes de pedir a conta da churrascaria

O centro responsável por esse controle de alimentos, que gerencia as sensações de estar faminto e de saciado, encontra-se no hipotálamo, e ele é diretamente influenciado por níveis de glicose, triglicerídeos e pelo stress, por exemplo.

Estamos tão fora do nosso equilíbrio que perdemos esse feeling. Comemos sem termos apetite, pela facilidade, comemos com outras fomes psicológicas, perdemos a intimidade de comer de acordo com nossas exigências orgânicas. Nossos reflexos primários e fundamentais estão desajustados, devido à pouca atividade física, a privações de sono, a pouca quantidade de água, a utilização demasiada de remédios e, infelizmente, devido à utilização de anabolizantes e remédios com promessas de emagrecimento fácil.

Ainda, a intensidade com que nossas emoções interferem na sensação de fome e de saciedade é bastante particular em cada indivíduo, mas de forma geral, desde bebês crescemos e passamos a interpretar a comida como resposta e solução aos problemas, pois nossos responsáveis nos afagavam com comilança a cada lágrima ou desconforto.

Quando estamos tristes, procuramos os alimentos açucarados, um desejo químico, pois os açúcares são necessários para a produção de opióides que nos provocam a almejada percepção de bem estar, mas, devido à facilidade de obtermos uma barra de chocolate e à correria que colocamos em nossas vidas, esquecemos que o sol, os exercícios, os abraços e os orgasmos também liberam esses opióides, mais intensamente e com efeitos mais prolongados.

Essa retomada necessária do nutrir-se e não do alimentar-se é dificílima. Digo por mim, que penso em comida o dia inteiro e fico verdadeiramente emocionada com um belo pernil. Ao invés do simples contar calórico, precisamos fazer uma pequena reflexão do que o alimento que estamos prestes a ingerir fará por nós e pelas nossas reações químicas.

Às cinco da tarde, famintos e sem opções saudáveis a tiracolo, a facilidade de consumirmos qualquer delícia é enorme e, claro, por mais gordura saturada que aquilo possa ter, nos sentiremos satisfeitos, mas foi perdida uma bela chance de uma nutrição mais completa, um determinante influenciador daquele equilíbrio hormonal que regula nossas funções fisiológicas, que ajustam nossas sensações de fome, saciedade, disposição, produtividade e ânimo que nos mantêm fisicamente ativos.

Essa atividade física, que devo escolher mediante o prazer que ela me proporciona, regulará também meus hormônios que, por sua vez, me trará o equilíbrio. E esse processo se retroalimenta sabiamente.

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Antes de nos preocuparmos em excluir alimentos, deveríamos pensar em incluir os bons, e nessa oferta massiva e saborosa, precisamos de autonomia, planejamento e consciência.

Aprender a cozinhar, a comprar, a planejar suas refeições, são tarefas determinantes e fáceis.

Em vez da coxinha, um sanduíche de pão integral com patê de atum, por exemplo, terá toda a proporção dos nutrientes para esse meio da tarde, trará disposição e conforto, influenciará na disposição do jogo de tênis às sete da noite, na motivação intrínseca para esse exercício, na refeição após o jogo, que dará a sensação de dever cumprido, que seguirá para um banho relaxante, que proporcionará um sono em um horário adequado, e, na soma desse dia, uma autopercepção física mais positiva, o que futuramente influenciará minha autoestima.

E por aí vai, uma rede de influências positivas enorme e sadia. Basta ter esse conhecimento de como as coisas funcionam, saber ligar os pontos que podem te levar a ficar mais disposto ou cansado.

Sua alimentação é responsável direta por isso tudo e você é o único responsável por ela. Basta saber quem está no comando, você ou sua fome.


publicado em 08 de Março de 2014, 21:00
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Débora Navarro Rocha

Educadora Física, mestre em Exercício Físico e Saúde para Populações Especiais. Atualmente é Docente do Instituto Federal do Paraná.


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