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"Não consigo me apegar às pessoas" | ID #56

Como se abrir para relações mais profundas pode melhorar e muito a sua vida

"Olá, Fred, tudo bem?

Depois de ter lido quase toda a coluna ID, finalmente tomei coragem para escrever para você. Sendo simples e direto: eu não consigo me apegar às pessoas e isso me machuca muito.

E isso acontece tanto para meus amigos e amigas quanto para as mulheres com quem tenho me relacionado. Sobre esse último grupo, já se tornou algo comum eu terminar tudo pelo fato de me sentir mal em não conseguir dar essa reciprocidade. Namorei sério duas vezes e hoje cheguei à conclusão que menti toda vez que disse 'eu te amo também'.

Gosto da companhia dessas pessoas, veja bem, e não gosto de ficar sozinho o tempo todo, mas é como se eu não desse a mínima pra elas quando elas estão longe. Isso me machuca porque eu tenho conhecido pessoas extraordinárias e eu simplesmente não consigo criar vínculos com essas pessoas. Ah, também nunca me apaixonei por alguém. Existe algum jeito de vencer essa barreira?

Desapegado"

Caro Bicho Solto,

Sua dor é muito legítima não é tão incomum. Existe uma certa cultura do desapego que parece rondar a maior parte das pessoas, a dependência emocional ou a necessidade de pessoas parece ser vista como algo problemático, digno de pena e tratado como carência, mas deixe-me colocar outra perspectiva nessa história.

Todos nós nascemos táteis. Tocamos, cheiramos, olhamos, lambemos tudo o que vemos pela frente e essa possibilidade potencial de sentir a vida na pele é muito apetitosa e desejável quando somos crianças. As pessoas que estão à nossa volta são recíprocas, afinal crianças são gostosas de apertar, olhar, afofar, enfim. Com o tempo, aprendemos a ter mais autonomia, a usar as palavras e lentamente entramos no mundo onde não basta apenas existir para merecer carinho e apoio, precisamos merecer aquilo.

Quando ficamos passivos ao critério, na maior parte das vezes arbitrário, de merecimento de afago é que começa o problema.

Passamos inconscientemente a criar truques para obter a aprovação dos outros. Cada um tem o seu: ser inteligente, bem humorado, bravo, carente, fofo, bonzinho, do contra, enfim, o que sequestrar a atenção do outro vira a nossa moeda de troca.

Outra coisa, para enfrentar períodos mais áridos, onde a oferta de carinho é pequena, quase nenhuma, desenvolvemos um tipo de autonomia forçada, do tipo que não esperamos nada dos outros por temor de não ter nada em troca.

Não pedimos ajuda já com a perspectiva de não receber, e dependendo do quanto fomos (ou achamos que fomos) negligenciados, passamos a reforçar a crença de que não precisamos ou gostamos dos outros.

É como a história da raposa que não consegue alcançar as uvas que desejava e sai dando de ombros "eu nem queria". Ela queria, só não podia admitir o fracasso de não conseguir, então ela se convence que não precisa.

O tempo vai passando e algumas pessoas se acostumam a não precisar, gostar ou se apegar aos outros. Como um refúgio da dor, criam uma reação claustrofóbica com a intimidade e justificam a si mesmas, se autoentitulando desapegadas.

"Gostar" remeteria a uma humilhação muito profunda, que representa uma cicatriz bem enraizada de abandono, rejeição mascarada de autossuficiência.

Precisar ou gostar dos outros é correr o risco de ver estilhaçada a própria vaidade, o senso de integridade e valor pessoal (baseado em desconexão). É extremamente doloroso.

Ter amigos é precisar deles (e correr o risco deles terem outras ocupações), amar é um jeito de expor sua jugular (e todo sentimento de fraqueza que isso implica), desejar para valer que os outros estejam por perto é romper uma barreira e admitir que não somos nem os melhores e nem os únicos.

Como se abrir para relações mais profundas

Para romper essa barreira você precisa se entregar, necessitar, pedir e receber. Como exercitar cada uma dessas habilidades?

A "entrega" pode acontecer tanto em termos internos como externos.

Internamente você pode repousar sua mente naquilo que está acontecendo e não no passado ou no futuro. Externamente, você pode colocar os olhos, as mãos, o corpo onde você estiver, sem procurar ou especular um lugar ideal ou mais confortável.

A mente tensa sempre levará você a desconfiar das pessoas, dos lugares e das situações. Quando menos espera, entra numa espiral de questionamentos aparentemente inteligentes, mas na verdade você só está desassossegado e tentando não se entregar.

Para aprender a "necessitar" você precisa reconhecer o que deseja dos outros, das coisas e das situações, perceber onde você precisa do carteiro, do padeiro, do vendedor, do telefonista, do médico, do policial, do amigo, do familiar, do vizinho, da namorada, de você mesmo.

O passo seguinte, de "pedir", é um dos mais delicados, pois isso depende um pouco do outro, pode ser recíproco ou não. Daí o potencial sofrimento ou felicidade. Quando os pedidos são claros, explícitos e comunicáveis, sempre existe uma chance de serem atendidos. Caso sejam absurdos podem ser recusados ou parcelados em longas prestações, mas costumam chegar. Mas vale a pena pedir quando necessário. O pior cenário é você seguir do mesmo jeito que já estava, só com um pouco de desapontamento.

O último ponto, aparentemente fácil, que seria "receber" não é tão simples quanto pensamos.

Vejo quatro reações negativas e muito comuns no ato de receber algo bom na vida.

1. Medo de que algo venha a dar errado no futuro e estragar aquilo que é bonito. Já reparou em casais que acabam de descobrir que estão grávidos e, logo depois da alegria, surgem mil fantasias sobre problemas de saúde? Ou de pessoas que são promovidas e mal se alegram com a notícia e já pensam que terão mais responsabilidade? Essa sensação de problema pós-alegria é uma das denúncias de que não estamos à vontade, de que temos medo (e sensação de falta de mérito pessoal) de receber. "Essa coisa boa logo vai acabar."

2. Medo de ficar devendo. Outra sensação que pode surgir é a de que precisará retribuir à altura o que recebeu, ou seja, a perda de autonomia diante do doador. Essa dívida de gratidão (que não tem nada de gratidão) e o motivo que muitas pessoas nem querem receber presentes ou carinho de ninguém para não ficarem devendo aos outros e perderem a liberdade de ir e vir. "Se fulano me emprestar dinheiro tenho a sensação de que terei que prestar contas do que faço com o dinheiro e nem poderei me divertir com mais nada", muitos pensam.

3. Só aproveita se achar que "merece". Outra reação é a da racionalização, algo como ficar tentando explicar o motivo de uma coisa boa ter acontecido, como se precisasse haver uma conexão causal entre o bem recebido e uma virtude pessoal. "Fiz isso como recompensa de um bem aleatório que fiz no passado" ou "Deus me ama mais por isso me deu um presente de papai noel", até parece uma atitude sábia mas é um jeito de tentar congelar a experiência. Ao invés de sair dançando na chuva você fica tentando puxar seu currículo moral para só ter o direito de receber se tiver reais créditos para tanto, como se não pudesse receber nada sem ter uma razão "digna".

4. Há também o medo da inveja alheia, como se ao conquistar um bem, as pessoas vão ficar agourando. Seguido a isso já surge um senso de preocupação protecionista que nos impede de gozar a conquista. Parece que o carro vai bater, a casa será roubada, o parceiro(a) irá trair, a lista é longa. O medo da inveja alheia é uma forma de nós mesmos roubarmos nossa alegria. É a nossa inveja atacando a nós mesmos.

Então, como seria um bom jeito de receber sem sentir medo de perda, culpa/dívida, racionalização ou temor da inveja?

Receber com alegria e gratidão (registrar o que de bom recebeu no bloco de anotações), deixar que aquilo caia sobre você como uma boa ducha de água quente. Nessa hora você só recebe, se abre, respira o acontecimento e se deixa crescer internamente.

Quando todo esse treino estiver rolando bem, você vai notar é que seu aparente desapego não será tão poderoso como agora.

Você terá mais trabalho nas relações em geral, pois vai se envolver, correr o risco de ser afetado e isso dependerá de todo esse empenho para amar e ser amado.

* * *

Nota: a coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie para id@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 10 de Março de 2016, 00:05
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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