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Não existe maldição na megalópole

Nota do editor: abaixo você encontrará uma conto GE-NI-AL do Jader. Desfrute com calma.

O fato chegou a chamar a atenção do Governo Federal e o general que estava no comando em questão até enviou um emissário para coletar informações relevantes, analisar os dados e botar tudo num eficiente relatório que acabaria debaixo de um amontoado de poeira. Mas que os habitantes de Bom Triunfo ficam com os cabelos em pé só de lembrar o acontecido, ah... isso eles ficam.

Chegou a se ver a época em que homem nenhum se dava a coragem de por em prática seus galanteios. Os casamentos diminuíram, a natalidade basicamente caiu a zero e não se achava mais casais passeando em noites despretensiosas.

E não foi por deficiência feminil. Nunca se viu em lugar algum um povoado com mulheres tão bem-apessoadas, tão boas de conversar e com todas as prendas imagináveis. Coziam com um esmero de dar gosto, faziam pratos dos mais apetitosos e possuíam talento de sobra pra fazer de qualquer pimpolho dos fundinhos sujos, homem-feito. As mulheres de lá se mimavam em maquiagens, entravam em decotes generosos, em aberturas que exibiam as curvas em suas costas e ousavam ao deixar as coxas à mostra sempre que se sentavam. Me atrevo a dizer que, se houve nesse mundo algum estopim para as libertações e liberações femininas, a fagulha saiu de lá, do meio daquelas mulheres.

Bom Triunfo era uma cidadela qualquer, como qualquer outra, com as mulheres de sempre, devotadas a homens de bem, trabalhadores aplicados e com todas as qualidades e defeitos que se pode atribuir à masculinidade.

Miguel Denali era um deles. Nascido na Espanha, tornou-se ótimo administrador e chegou ao vilarejo por destino de seu valoroso oficio, já que a região carecia de uma ordem maior no que se podia entender por comércio. Miguel ajudou a estabelecer rotas para escoar mercadorias, controlava os ganhos e os déficits de dezenas de novos empreendedores, corria de vila em vila para fazer boas alianças e fortalecer seu nome e de seus comanditários. Casou-se assim que pôde com a prata da casa, Maria Firmina, filha legítima de Bom Triunfo e encanto de moça. Não tardou a gravidez de Firmina acontecer, amor esse que rendeu a bela Malie Denali.

A felicidade que não cabia durou aproximadamente quatro anos quando, num surto de loucura provocada pela aguda instabilidade financeira que devorou Bom Triunfo e as cidades próximas, o Señor Miguel fora assassinado pelo falido João Antunes, barão bem quisto na cidade, que fazia fortuna no transporte de matéria-prima que a região fornecia para a fabricação de doces nos pólos industriais. Quando as fábricas substituíram as boas safras de Bom Triunfo por material de segunda mão importado dos latinos vizinhos, Antunes se viu sem ter o que carregar, sem ter com o que trabalhar e sem ter como segurar a tal fortuna que viu esvaindo de hora pra outra. “Tudo culpa do espanhol que abriu veias da nossa cidade e, agora que chuparam todo o nosso sangue, não vai enxugar as lágrimas das viúvas daqui”.

Miguel Denali ficou de cama por quase uma semana, tratando de dois tiros que recebeu de João Antunes e faleceu enquanto fitava o rostinho de sua pequena Malie a brincar perto da cama, contente da combinação dos cachinhos dourados que a menina herdara da mãe com os olhos negros quase assustadores dos Denalis. Bom Triunfo haveria de reparar no que ele reparou.

Malie Denali cresceu formosa como ela só e, aos quatorze anos, tinha uma beleza que superava a de sua mãe e até mesmo de todas as garotas da região somadas. A governanta bem que tentava, mas não conseguia fazer a menina se portar como uma dama. Malie, de tão bela, não era apegada a arrumação alguma e isso parecia estar cravado em sua personalidade.

Dispensava as horas de vaidade mais que normais em mocinhas da sua idade para aproveitar suas visões. Perdia-se em leituras, no contar de estrelas ou de carroças que passavam em frente ao casarão nas tardes de calor. Ajudava a cozinheira com os confeitos dos bolos (tinha ótimo olhar para cores, enfeites e pinturas) e preferia dormir a escovar os cabelos “duzentas e setenta mil vezes de cada lado”. Nem carecia disso tudo. Malie tinha madeixas tão sedosas que se recusavam a embaraçar e seus lábios possuíam um vermelho natural que era quase impossível de acreditar. Era o vermelho do pecado.

Nessa época, o carmesim dos lábios de Malie já provocava embaraço em alguns homens que passavam na praça e, ao centrar o olhar naqueles lábios jovialmente rubros, passavam o resto da tarde com aquela incômoda negação cristã. Quando se sentava à beira da calçada do casarão, Malie perdia-se na moleza da siesta e causava certo vai-e-vem de chapéus que abanavam no ardor da ainda incompreendida situação. E o que ninguém sabia era o que ainda estaria por vir.

Acontece que a cor e a textura dos lábios de Malie ainda não podiam apontar para os delírios contidos em seu sorriso. Quando Malie sorria, o mundo subia enquanto os céus desciam e o diabo duvidava que aquilo pudesse dar em boa coisa. Quando aquela moleca desapegada desatava a sorrir, causava suores imediatos nas testas e nas virilhas dos homens e, pouco a pouco, Maria Firmina começou a ser cortejada na rua, recebendo pedidos de compromisso com sua filha, cartas de amores incondicionais e propostas para dotes de valores exorbitantes.

Quanto mais sua filha pegava formas de mulher, mais o seu sorriso ganhava malícias e mais os homens se desesperavam.

''Eusébio, não dá mais, cara, isso acaba hoje''

O primeiro a cair se chamava Otávio Tavares, após receber um sorriso de agradecimento de Malie no mercadinho que tomava conta. Na mesma noite, o pobre já estava queimando em suores, dizendo nada de coisa com coisa, sussurrando o nome da provocadora de sua maldição. Dois dias depois, foi a vez do cabo Ambrosio, e no dia seguinte, foi o dono da birosca, Marcos Leão.

Malie, já na casa dos dezenove anos e prometida a Alfonso Pancho, espanhol que fora à sua terra acertar detalhes de uma grande herança, não tinha idéia da volúpia que provocava com aquela boca pequena e delicada. Dia após dia se via algum rapaz vagando as ruas soluçando mágoas de amor antes de caírem de cama, molhando os lençóis de suor. Mais adiante, podia ouvir de qualquer um histórias de garotos que sucumbiram à expressão de amabilidade de Malie, agora dona de um corpo dotado das mais intensas formas modelares. O que já era o suficiente para fazer qualquer homem questionar sua sanidade por alguns minutos era agravado pelo sorriso.

Além dos jovens disponíveis, Malie começou a atingir casados, senhores mais velhos e até gente de fora. Sabe-se de caixeiros viajantes que pereceram nessa febre de amor e deixaram a família sem notícias para todo o sempre.

Até que o que chamavam de ‘maldição dos Denalis’ atingiu seus próprios. Quando Alfonso voltou de Madri, resolveu em alguns dias os detalhes da transferência dos bens que lhe eram devidos e foi com a mãe à casa de dona Maria Firmina ter com sua filha o primeiro de uma série de encontros. Passou algumas rápidas horas com Malie, beijou sua mão ao sair e, chegando de volta em sua casa, escreveu um breve bilhete antes de cometer suicídio.

Na tal nota, o herdeiro dos Ponchos foi direto em dizer que não conseguiria viver com deus e o satanás na mesma carne e que, ao mesmo tempo, não saberia mais viver sem. Sem homens, a cidade começou a depender do esforço mulheril.

''Não quer nada mesmo?''

Esposas dedicadas começaram a dividir seus dias entre o cuidar dos negócios do marido e cuidar do próprio marido... ou filho... ou parente. Não tardou a sentirem falta dos mais variados carinhos e estavam sempre a procura de algum desavisado que chegasse à Bom Triunfo para o que quer que fosse. Disputavam lascivamente os poucos olhares e deixavam bem claro a qualquer um sobre as terríveis consequências de se aproximarem do casarão. Lá, Malie enclausurava-se cada vez mais. Uma para não causar mais tribulações e porque não suportava o olhar inquisidor que se tornara tão comum. Mas não sabia ser triste e, toda vez que se perdia em pensamentos e botava naquela boca vermelha um sorriso ingênuo, em algum lugar por perto, uma alma viripotente dava-se conta da existência daquela maldita beldade e já se começavam os calafrios, as dores no corpo e, enfim, a febre de amor. Uma cidade suando de amores por Malie Denali.

Juntando todas as economias da família, dona Maria Firmina foi-se embora com Malie e a governanta para São Paulo. Chegando lá, instalaram-se numa modesta casa no bairro da Mooca e em algumas semanas mãe, governanta e filha partilhavam os louros e trambolhos de uma nova rotina. Dona Maria Firmina começou a trabalhar em uma fábrica de doces sintéticos enquanto Malie Denali ocupava seu tempo dando aulas para os filhos dos operários do bairro.

Como se fosse atendido o rogar de dezenas de pedidos fantásticos, tirando um gracejo aqui e uma cantada de mau gosto logo adiante, não houve loucura alguma no bairro. Não se ouviu falar em suores, em delírios, em febre ou maldição. Levou bom tempo até para que os vizinhos começassem a assimilar nomes a feições e ainda mais um tempinho para que as três mulheres entrassem efetivamente para a convivência da rua, sendo convidadas para festas ou para cozinhar nos mutirões.

A cidade serviu então de antídoto contra os males passados em Bom Triunfo. Alguns moradores mais antigos do bairro chegaram a dizer que “Na paulicéia, a maioria das pessoas não ligava tanto assim para sorrisos”. E quem poderia desdizer?


publicado em 27 de Junho de 2010, 03:01
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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