O final perdido de Caverna do Dragão (história em quadrinhos com o roteiro completo do último episódio)

Por que o final de Caverna do Dragão nos fascina até hoje?

O final de Caverna do Dragão é um mito do final dos anos 80 que pegou em cheio as crianças dos anos 90. É tão grande ou maior que aquela história do Fofão ter um punhal dentro dele, tão intrigante quanto a loira do banheiro ou ouvir uma música do Engenheiros do Hawaii ao contrário.

Para quem não sabe, Caverna do Dragão foi uma série animada produzida pela CBS entre os anos de 1983 e 1985. Teve três temporadas e um encerramento abrupto, apesar do seu sucesso: o episódio final nunca foi produzido. A série foi cancelada sem aviso, sem maiores explicações.

Isso gerou um efeito em cadeia.

Isso fez com que teorias pipocassem por todo lado. Especialmente pelo fato de a série ser muito mais sombria e violenta do que o padrão da época – lembrem-se, eram os anos 80 –, os fãs começaram a inventar possibilidades ainda mais pesadas do que o tom usual. Estariam eles tendo um pesadelo? Teriam morrido no acidente com a montanha russa? Seria o Mestre dos Magos o demônio e estariam os protagonistas presos no purgatório? Ou no inferno?

O fato é que um final foi escrito.

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Em seu site, Michael Reaves – o roteirista da série que mais tarde trabalhou também em Gárgulas e no melhor Batman já feito para animação – chegou a disponibilizar a versão que escreveu na época. E deixou um breve comentário, explicando o que houve. O verdadeiro final tinha a intenção de deixar um gancho para uma mudança e amadurecimento da série, puxá-la além dos limites do que era produzido para o público infantil até então. Mas não rolou.

Nada de teorias conspiratórias e influências diabólicas. Não rolou apenas porque não rolou. Você sabe, as coisas são assim.

Porém, a gente não sabe lidar com histórias mal explicadas. A gente sofre, quer mais pormenores, quer saber o que, afinal de contas, nos atingiu. A gente quer detalhes, ainda que os detalhes não mudem nada.

Se hoje a gente ainda continua procurando completar as lacunas, é porque a gente nunca pôde chorar pelos nossos personagens. Eles representam cada mistério não resolvido. É como se sentir envolvido, conhecer uma pessoa nova. São as possibilidades que nos fisgam.

Que mundo é esse? Qual a real condição de Hank, Bobby, Sheila, Diana, Eric e Presto? Vivos? Mortos? Sonhando? A gente olha o mundo deles como olhamos o nosso próprio: sem fazer a menor ideia do que realmente está acontecendo.

Agora, que podemos enxergar o final refeito, em quadrinhos, com uma narrativa e traços muito próximos do original, ainda assim, o mistério não acaba. O mistério não acaba nem mesmo se algum dia os fãs se reunirem – e conseguirem os direitos – para financiar uma animação pelo Kickstarter.

Não importa o quanto avançarmos na narrativa, tentando encontrar um ponto final, tentando satisfazer nossa fome, vamos encontrar apenas o "o que" e o "como". Porém, esse tipo de dor que nos traz de volta à série tem fome de porquê.

O final de CdD nos pega porque a gente sofre sempre que as nossas expectativas são frustradas. A gente sofre como quem é traído, abandonado, e nunca teve a chance de ter aquela emblemática DR final, cujo único papel é nos ferir, encravar um ponto final doloroso, mas que nos permite ter um ponto a partir do qual começar tudo de novo.

Nós somos os pais das crianças de Caverna do Dragão. Eles são nossos filhos que desapareceram sem nunca termos uma explicação.

Requiem: o último episódio de Caverna do Dragão

Nota do Editor: Caso queira guardar, aqui você encontra em PDF.

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publicado em 23 de Agosto de 2013, 05:52
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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