O esporte ensina que idade é apenas mais um número | Mais que um jogo #3

Bartolo Colon e Max Verstappen nos provam cada um a sua maneira de que idade é apenas um detalhe

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Esse tal jogo da vida é mesmo difícil de jogar. Quando a gente é jovem, quer ser adulto. Quando somos adultos, queremos ser jovens. Essa eterna insatisfação é o que nos move, mas também é o que nos faz sofrer, nunca estar satisfeito, sempre buscando algo que não temos.

Mas existem momentos na vida em que as coisas parecem encontrar uma sintonia e por um breve instante a gente realmente acredita que estava no lugar certo, na hora certa, muito provavelmente, com a(s) pessoa(s) certa(s). E se a gente pudesse escrever uma receita sobre como alcançar esses momentos, ela certamente incluiria um ingrediente fundamental: ignorar as adversidades, insistir, seguir em frente.

Pois então, se é pra falar de superação de adversidades, insistência, perseverança, então é melhor falarmos logo de esporte.

Se pararmos para analisar, ainda que de maneira breve, a história de uma ou outra modalidade, não teremos problemas para encontrar exemplos fartos de superação. Se quisermos ser mais específicos e procurar por grandes esportistas que se propuseram a superar sua própria idade, talvez tenhamos um pouco mais de dificuldade, mas ainda assim encontraremos algumas boas histórias. Agora, se restringirmos a acontecimentos apenas das últimas semanas, ficaremos diante de dois casos em específico.

A ponta de cima

É um advento natural do envelhecimento adquirir experiências. Amadurecer. E com o passar do nosso tempo de vida, conhecemos muitas coisas e até que, em determinado momento,  nos convencemos de que está cada vez mais difícil encontrar algo realmente surpreendente.

Mas ainda que você seja um daqueles - digamos - raros moradores de cidades minúsculas no interior do Canadá, as variáveis ainda são tantas, tão complexas e independentes que um dia dificilmente será igual ao outro. E então, com o perdão da redundância, quando menos se espera, somos surpreendidos novamente. Afinal de contas, o charme de vida é mesmo esse, provar que não importa nossa idade, eu, você e ele, somos meninos, apenas meninos.

E de repente, não mais que de repente, a vida dá um tapa na nossa cara e a gente fica desnorteado sem saber de onde veio. A vida dá aquele sopro de novidade que nos tira da rotina e nos lembra: essa coisa toda é mesmo muito bonita (e estranha). Nesse exato momento nós recuperamos a admiração pela vida que não deveríamos perder nem um dia sequer de nossas vidas.

Foi esse tapa, esse sopro, esse momento lindo que Bartolo Colon protagonizou no penúltimo final de semana.

Bartolão em ação.

Próximo do fim de sua bela carreira na Major League Baseball – a liga americana de basebol  o jogador de 42 anos de idade que conquistou quase tudo que poderia querer na sua vida de jogador alcançou um feito ainda inédito pra ele.

Nascido na República Dominicana em 24 de mio de 1973, Bartolo cresceu numa comunidade rural sem eletricidade, água encanada ou saneamento básico, na cidade de Altamira. Ele trabalhava no campo com seus irmãos coletando grãos e frutas para sustentar a família. Sem dinheiro para comprar quase nada, muito menos material esportivo, Bartolo se acostumou a improvisar luvas com caixas de leite e bolas com caroços enrolados em meias. 

Anos depois, Bartolo provou seu talento e se tornou jogador de basebol profissional. Se mudou para os EUA, onde defendeu o Cleveland Indians (1997-2002), Montreal Expos (2002), Chicago White Sox (2003, 2009), Los Angeles Angels of Anahein (2004-2007), Boston Red Sox (2008), New York Yankes (2011) e o Oakland Athletics (2012-2013), antes de chegar ao New York Mets, onde joga até hoje.

Conhecido pelo apelido de "Big Sex", Bartolão (já somos íntimos) é o arremessador titular inicial de sua equipe e já foi selecionado três vezes para o All-Star da Liga em ocasiões muito distintas de sua carreira (1998, 2005, 2013), o que comprova sua regularidade. Carismático, mas comprovadamente um dos piores rebatedores da liga, Big Sex estava quase conformado de que finalizaria sua jornada pelos campos de beisebol mundo afora sem um home run. Mas ele estava enganado.

Aos 42 anos de idade, Bartolo conseguiu acertar uma rebatida rara para jogadores de sua posição e inédita na sua carreira, mandou a bolinha nas arquibancadas do ginásios e conseguiu duas corridas fundamentais para a vitória do seu time. De quebra, se tornou o jogador mais velho da história da grande liga a conseguir tal feito.

Link Youtube - É a prova de que nunca é tarde demais. 

A ponta de baixo

Mas se a experiência de Bartolo (e as inúmeras tentativas que teve ao longo da carreira) podem ter ajudado o jogador a conseguir tal feito, um outro atleta teve que deixar justamente essa questão de lado para alcançar um feito igualmente grandioso e inédito.

Eu sei que você provavelmente não acompanha mais a Fórmula 1 e, mesmo se você for um daqueles fãs incondicionais de automobilismo, sei que está triste criar esperanças de alguma coisa boa a partir da principal categoria de corridas do mundo com os brasileiros. Mas, a despeito de tudo isso, ainda é possível encontrar uma ou outro boa história nesse esporte.

Pois bem, você talvez até tenha ouvido falar que no último final de semana rolou o GP da Espanha, no Circuito de Barcelona. Talvez você até tenha ficado sabendo que a verdadeira competitividade passou por lá quanto Hamilton e Rosberg, companheiros de equipe e favoritaços ao título que já dominaram nas duas últimas temporadas, protagonizaram uma lambança daquelas e bateram na primeira volta, pouco depois da largada, o que tirou os dois da corrida.

Link Youtube

Agora se você é realmente interessado e só se for deve ter ficado sabendo que o vencedor da corrida foi um jovem piloto holandês de 18 anos.

Se Bartolo Cólon se tornou o jogador mais velho da história da MLB a conseguir um home run, Max Verstappen se tornou o piloto mais nov da história da F1 a vencer uma corrida. Nem Senna, nem Schumacher, nem ninguém mais, o jovem piloto holandês é o dono da marca que pertencia ao tetracampeão Sebbastian Vettel até sábado, vencedor do GP da Itália de 2008 aos 21 anos.

O prodígio piloto holandês nascido, na verdade, na Bélgica, é apontado desde quando surgiu como um dos pilotos mais talentosos da F1, mas nem mesmo os mais próximos esperavam por uma conquista tão grandiosa tão cedo. Verstappen começou a temporada na STR, mas depois que o russo Daniil Kvyat se envolveu em confusões e acabou rebaixado, o jovem de 18 anos assumiu o posto na Red Bull Racer, uma das três melhores equipes da temporada, ao lado de Ferrari e Mercedes.

O resultado inquestionável logo na primeira corrida na nova casa veio para provar que a oportunidade não foi precipitada e aquele que o piloto mais jovem a correr na Fórmula 1, agora passa a ser o piloto mais jovem a liderar uma corrida, o mais jovem a subir ao pódio, o mais jovem a vencer uma corrida e o primeiro holandês a conquistar tal feito.

Para chegar lá, Verstappen aguentou a pressão do finlandês Kimi Raikkonen que, com o dobro da sua idade, chegou a correr contra o pai do holandês que disputou 107 corridas na F1 na década de 1990.

Após cruzar a linha de chegada, Verstappen parecia não acreditar no que tinha realizado, mas a homenagem dos fiscais de prova, a euforia da torcida, os parabéns da equipe pelo rádio e a festa no pódio se somaram ao choro de seu pai (a quem dedicou a vitória) e até a uma ligação do primeiro ministro da Holanda parabenizando pelo melhor resultado da história do país quando se trata de automobilismo.

Somos todos meninos, apenas meninos.

Vitórias inéditas, feitos incríveis e o esporte vai empilhando lições de vida. No capítulo de hoje, Verstappen e Bartolo nos mostram porque a idade é só mais um número no meio da enorme pilha de estatísticas que estamos acostumados a ver. Felizmente, nem tudo se resume ao final de semana triste do futebol nacional.

* * *

A 'Mais que um Jogo' é uma série nova do PdH que depende da sua colaboração. Nossa intenção é reunir boas histórias que permeiam ou se aproximam do esporte, mas que o extrapolam e oferecem doses de esperança e lições de superação para todos nós. Foram anos batendo cabeça para encontrar um fórmula perfeita. Meses fazendo tentativas e testes do que rodava melhor. Semanas matutando o que finalmente poderíamos fazer. E uma única noite para decidir que agora é a hora. Chegamos a conclusão que nesse caso, assim como em quase todos os outros, ou a gente coloca as coisas pra funcionar mesmo sem ter certeza de que vai dar certo ou simplesmente as coisas nunca acontecem.

Porém, para que as coisas funcionem bem, mais do que nunca estamos interessados em ouvir o que vocês têm a dizer. O que vocês têm de diferente para nos contar. Precisamos disso. E eu como caseiro e curandeiro desse nosso novo filhote, estarei mais atento do que nunca às críticas e sugestões que vierem.

Por isso cada caixa de comentários dessa série é também uma caixa de sugestões e o meu email breno@papodehomem.com.br está mais aberto do que nunca para recebê-los.


publicado em 16 de Maio de 2016, 00:05
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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