"O futebol é uma religião pagã"

No princípio eram as trevas. E, então, acenderam-se os refletores.

No primeiro dia, uma forma redonda surgiu nos céus. Nosso planeta passou a girar ao seu redor. E nossas vidas, também. E a ela deram o nome de bola.

No segundo dia, fez-se a grama e as traves. Linhas brancas riscaram o tapete verde para demarcar o campo. E do solo ergueram-se arquibancadas. E nas arquibancadas surgiram gentes de todas as partes.

No terceiro dia, viram-se nus e a eles foram atribuídas vestes. E os adoradores da bola passaram a tratar essas vestes como se fossem mantos sagrados.

No quarto dia, onze missionários emergiram do fundo da terra. Pisaram o gramado com o pé direito e benzeram-se depois, rumo à messiânica missão de levar alegria a todos os brasileiros.

No quinto dia, ouviram-se os cânticos que conduziam a palavra para todos os povos, mundo afora: "Brasil! Brasil! Brasil!". Nas arquibancadas, um exército de devotos peregrinos. Nas casas, nas ruas e nos bares, uma multidão de fiéis se uniu na mesma fé, em uma vigília de noventa minutos que alimentava a esperança de conquistar a dávida de ser um campeão.

No sexto dia, os times se perfilaram e os hinos foram executados. Como uma só alma, os onze escolhidos e a multidão cantaram juntos. O concreto do estádio, até então inabalável, tremeu de emoção. Até a grama arrepiou-se. O silvo de um apito cortou o ar. E o pontapé inicial foi dado.

E, no sétimo dia, todos se sentaram para assistir ao jogo.

Link YouTube | Ola em câmera lentíssima, captada com efeito Timeshift do Sony Xperia Z2

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Se fosse vivo ainda hoje, o sociólogo francês Émile Durkheim teria na Copa do Mundo o mais perfeito exemplo do fenômeno por ele cunhado como efervescência coletiva, em seu "As formas elementares da vida religiosa", de 1912.

Essa efervescência diz respeito à energia emocional compartilhada que surge quando pessoas se reúnem.

Meta um ajuntamento de seres grande o bastante num mesmo espaço, focado numa mesma ideia ou objetivo. Apresente a eles um líder carismático, uma grande injustiça ou qualquer outra fagulha capaz de estourar os ânimos.

Os pelos logo se arrepiam, uma descarga elétrica surge e toma conta do corpo. Você sabe do que estou falando: já sentiu isso cantando junto com a multidão sua música favorita no show; sentiu quando participou de passeatas; e agora está sentindo de novo na Copa do Mundo.

Essa efervescência nos rouba as ideias. Nosso corpo se entrega ao coletivo, a individualidade cede espaço à personalidade do grupo e logo nossas ações se tornam espelhos dessa fervorosa consciência que não está em lugar nenhum, está em todos, no conjunto. É um perigo, já que essa euforia nos cega e é também combustível para fanatismos e tumultos que se tornam subitamente violentos.

A sensação beira o orgasmo.

O jogo do Brasil contra Camarões, que assisti no estádio nessa segunda, foi um orgasmo compartilhado com 69.112 pessoas.

Pela TV eu tenho certeza que faria um relato mais crítico e distante, talvez focado na atuação errática de nosso escrete contra um dos piores times da competição.

Nas arquibancadas, me permiti desconectar do lado político cujas tripas entortam só de pensar no tamanho do roubo sofrido por nós. Esqueci que o nacionalismo é só uma invenção que faz cada vez menos sentido e entrei na brincadeira.

Foi minha primeira vez na Copa e com o Brasil num estádio, em carne, osso e gogó. Vesti a camisa canarinho, cantei o hino a plenos e desafinados pulmões, fui menino assumido de ponta a ponta do espetáculo. E que baita show, valha-me pai! Nisso a FIFA tem mérito, organizaram algo sem tamanho pra caber em palavras.

Estádio, vídeos, música, estrutura, informação, merchandising, pré-jogo, pós-jogo, você se sente engolido pela experiência. Quase a ponto de não doer os R$13 pagos numa cerveja.

O fato concreto é que saí do Mané Garrincha extasiado com o banquete. Ao mesmo tempo, Durkheim não me deixava a cabeça. Será lindo quando formos capaz de usar uma fração dessa "febre da bola" na política e em outros campos abandonados de nosso país.

Enquanto esperamos, dá-lhe Copa.

Mané Garrincha à distância, uma visão e tanto
Mané Garrincha à distância, uma visão e tanto

Torcida chegando sem qualquer tumulto, fluxo de entrada excelente
Torcida chegando sem qualquer tumulto, fluxo de entrada excelente

Contemplação pré-jogo
Contemplação pré-jogo, com ênfase do desfoque permitido pelo Xperia Z2 (que vocês vão ver em outras fotos também)

Meu primeiro momento de frente pro campo do novo estádio, pouco antes de descer para a área dos Fan Photographers da Sony, na beira do campo
Meu primeiro momento de frente pro campo do novo estádio, pouco antes de descer para a área dos Fan Photographers da Sony, na beira do campo

Logo que coloquei os pés na grama, vi o grande Ricardo Rocha dando um fraterno abraço em Júlio César
Logo que coloquei os pés na grama, vi o grande Ricardo Rocha dando um fraterno abraço em Júlio César

Vitor se aquecendo, compenetrado
Vitor se aquecendo, compenetrado

Circulando pela área dos Fan Photographers e vendo a felicidade estampada na cara de todos: "Vamos pra cima e alô mãe!"
Circulando pela área dos Fan Photographers e vendo a felicidade estampada na cara de todos: "Gol, vamos pra cima e mãe, tô aqui!" nos cartazetes

Momento mais marcante na zona dos Fan Photographers, observando de perto, pertíssimo, o aquecimento dos jogadores
Momento mais marcante na zona dos Fan Photographers, observando de perto, pertíssimo, o aquecimento dos jogadores (com ajuda do zoom do Z2)

Tirar fotos dessa distância foi surreal
Quando disse na beira, era na beira do gramado *mesmo*

De volta a meu lugar, uma bela panorâmica feita com o Xperia Z2
De volta a meu lugar, uma bela panorâmica feita com o Xperia Z2

Torcedor cangaceiro no cerrado braziliense
Torcedor cangaceiro no cerrado braziliense

A torcedora vestida com o mascote Fuleco
A torcedora vestida com o mascote Fuleco

Muitos torcedores ostentando orgulhosos a mítica camisa 10
Muitos torcedores ostentando orgulhosos a mítica camisa 10

Jogo afrodisíaco, vários casais se amando em volta
Futebol é coisa de macho suado? Não na Copa. Famílias, crianças e casais por todo lado

Mais uma da torcida
Clima longe de ser europeu, mas até chapéu e cachecol tava valendo

Bola rolando, apreeensivo após o gol de Camarões feito numa avenida aberta do Brasil
Bola rolando, apreeensivo após o gol de Camarões feito numa avenida aberta do Brasil

Nenhum piscar, mal cabia um respiro: torcida canarinho louvando ao ritual da bola
Nenhum piscar, mal cabia um respiro: torcida canarinho louvando ao ritual da bola

Fim de jogo e graça alcançada em belo espetáculo!
Fim de jogo e graça alcançada em belo espetáculo! Estar presente na Copa e ser Fan Photographer na beira do campo foi emoção de menino, das melhores possíveis

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Nota do autor: a introdução desse texto foi retirada do The Yellow Book – Seleção: um século de religião, um tomo editorial digno para os fãs da bola deixarem na mesinha de centro ao receber amigos. O título desse artigo é do falecido cronista esportivo Armando Nogueira.

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MECENAS: SONY XPERIA Z2

A Sony levou o PapodeHomem pra dentro do campo no jogo Brasil x Camarões, com um Xperia Z2 em punho para registrar cada uma das fotos que viram nesse artigo.

Além de ter absurdos 20 mega pixels em sua câmera, o Z2 tem o incrível Timeshift que você viu em ação no vídeo da Ola nesse artigo.

Se estiver na hora de trocar o seu aparelho, vai lá conhecer mais do Z2.

 


publicado em 02 de Julho de 2014, 12:17
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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