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O meu é pequeno, mas é mais gostoso

Enaltecemos assim a nossa equipe. Vitória é a certeza da tua força e tradição.

Acima, temos versos retirados dos hinos de América Mineiro (Coelho!) e Portuguesa de Desportos. Duas agremiações facilmente reconhecidas por aqueles que acompanham futebol por terem muita história e tradição. Posição semelhante é ocupada por outros tantos clubes como o Atlético Goianiense, Paraná, Náutico, Tuna Luso, América do Rio, Juventus da Mooca e por aí vai.

Clubes que vivem hoje situações bastante diversas no espectro da bola, mas que têm em comum a paixão de seu torcedor que se mantém fiel mesmo diante de adversidades que faria um Navy Seal chorar como uma menininha e molhar as calças.

Não me entenda mal. Em momento algum eu disse que só é apaixonado aquele torcedor que faz parte da minoria. Há outros torcedores brasileiros que nutrem amor verdadeiro (alguns até mesmo pela seleção Argentina). Fetiche não se discute, mas é preciso entender que remar contra a maré, desafiar o establishment, ser um dos homens de Leônidas no desfiladeiro das Termópilas não é para os fracos de espírito ou estômago. É lugar de homens, não meninos!

Tenho um amor maior que o seu. Sim, a minha doação ao clube, o sacrifício altruísta, a devoção e, pra puxar o assunto da modinha que responde a todo e qualquer problema filo-sócio-psico-teológico, o bullyng, fazem do meu amor maior, exponencialmente maior, do que asua paixonite.

Arquibancada no último confronto de Flamengo x América pelo Carioca 2011

Historicamente, o Brasil é um dos países com uma das piores distribuições de renda de todo o mundo. Segundo levantamento daONU, até 2001, a situação tupiniquim só era melhor do que sete nações africanas entre os países pesquisados. Esse panorama vem mudando e começou com os corinthianos Fernando Henrique e Luiz Inácio.

Hoje, o combate ao problema ocupa lugar dedestaque no coração da presidenta Dilma que adotou a erradicação dapobreza extrema como prioridade de seu governo (só não sei se ocupa a metade atleticana ou colorada daquele coraçãozinho tão meigo).

A esperança está de volta! O Brasil tem jeito e seremos a grande nação do futuro, certo? Errado.

Se há um tema invariavelmente negligenciado pelas políticas públicas, inclusive por nossos representantes em Brasília, é o grave problema da concentração de torcedores no futebol Brasileiro. Dados alarmantes mostram que 26 clubes concentram 95,6% dostorcedores brasileiros. Vejamos:


  • Donatários e suas capitanias (2): Flamengo e Corinthians. Ambos mantêm no curral algo em torno de 30% dos brasileiros (ou 55 milhões). Rio e São Paulo são grandes estados e tem muita gente vivendo de perto as coisas do clube, mas você que mora em outros estados, que vive mais afastado da sua paixão, saiba: você é só um número. Sei que você deve achar que a Patrícia e o Andres estariam interessadíssimos em saber do seu amor pelo clube, mas a dura verdade é que você é só um número numa folha de papel, num contrato de patrocínio, numa negociação de direitos de transmissão ou no balancete de venda camisas, bonés,chaveirinhos e demais produtos (licenciados ou não).

  • Os Barões do Café e a Corte Lisboeta (10): São Paulo, Palmeiras,Vasco, Santos, Botafogo e Fluminense são exaltados por outros 25,5%dos brasileiros ou 47,5 milhões. Ainda que o SPFC tenha (estimados) 13 milhões de torcedores a mais que o Fluminense, times de RJ e SP têm em comum a capacidade de mobilizar torcedores fora de sua área direta de influência regional. Com isso, acabam por merecer destaque na mídia nacional, que os permite mobilizar ainda mais torcedores de outros estados (e lhes garante um certo destaque na mídia).

  • Farroupilhas e Inconfidentes (4): Grêmio, Cruzeiro, Atlético-MG e Internacional, que concentram 12,5% ou 23,5 milhões de torcedores,valem-se, legitimamente, do forte orgulho regional de mineiros, gaúchos e seus descendentes.

  • Baixo Clero (11): os grandes regionais - Sport, Bahia, Vitória,Fortaleza, Santa Cruz, Ceará, Atlético-PR, Paysandu, Remo, Coritiba,Goiás e Vila Nova - que ficam 8,5% dos torcedores ou 15,6 milhões. Seu rebanho não vai muito além dá área de influência da casa paroquial.

  • Movimento dos Sem Terra: aproximadamente 20% dos brasileiros – hereges – declaram não torcer por nenhum time de futebol.

  • Subsistência: situação na qual se encontra a grande maioria dos clubes brasileiros, inclusive os citados no início desse texto. São os ditos pequenos clubes, que vivem em sua maioria dos sonhos da alguns poucos românticos que se negam a fazer o jogo das grandes corporações futebolísticas, combatem avidamente o oligopólio das bilheterias e resistem à opressão de uma elite corrupta, amoral e espúria.

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É possível viver de amor e sonhos?

O futebol brasileiro se profissionalizou em 1933. Clubes de elite,como o Clube Atlético Paulistano, que então detinha 11 títulos paulistas, se negaram aparticipar de campeonatos oficiais. Meu glorioso América Mineiro, que se sagrou decacampeão mineiro de 1916 à 1925 e detentor de outros 9 títulos do torneio início, que defendia as cores verde, branco e preto desde sua fundação, passou 10 anos trajando vermelho em protesto contra a profissionalização.

Não é minha intenção advogar em prol romantismo da era amadora. A elite do futebol já era profissional quando meu pai nasceu e assim seguirá sendo no tempo de meus bisnetos, ad aeternum. Trago os fatos acima apenas para lembrar que o que hoje nos é líquido e certo, outrora não o era.

Onde há consumidor, há business. Há dinheiro e interesses outros que não apenas a paixão e o respeito à atividade desportiva. E, se este consumidor é movido por tamanha paixão - que o leva a fidelidade absoluta - o jogo se desequilibra ainda mais em favor das cifras.

Aqui e acolá, longe dos clubes de maior tradição, onde a identidade é mais difusa, pipocam clubes empresas, XPTO’s Futebol Ltda, que tentam se valer de belos discursos cheios de valores vazios na busca de alguns caraminguás, sem o menor compromisso com o torcedor.

Neste 2011, o antigo Guaratinguetá, que exibia orgulhoso com destaque em seu site oficial o lema “O diferencial do nosso NEGÓCIO é o futebol”, mudou de cidade e passou a chamar-se Americana. Se deixou alguns poucos órfãos na cidade onde passou seus primeiros 12 anos de existência, pouco importa no fluxo de caixa.

Semana passada, o Grêmio Itinerante, como bem definiu Natália Jonas, deixou Presidente Prudente (onde ficou por pouco mais de um ano), para voltar à Barueri, sua cidade de origem, local que deverá permanecer até que apareça uma nova proposta mais interessante. Em Prudente, a empresa obteve a sexta média de público no Campeonato Paulista de 2010, coisa que não acontecia em Barueri antes da ida para o Oeste paulista.

Identidade com Intimidade

“Os bons perfumes e os piores venenos estão nos pequenos frascos”. Futebol ainda é um esporte, uma competição embasada em feitos e apontamentos de mérito obtido por atletas dentro de campo, em exibição de sua alta capacidade física e mental. Se eu quisesse acompanhar a disputa de quem tem mais dinheiro, eu mudaria o canal para a emissora de finanças e esperaria pelas notícias de Eike Batista e Carlos Slim. Mas eu quero é ver gol.

Tá. Pode ter um pouco de Larissa Riquelme também

Escolher as cores e as bandeiras que defenderemos nos estádios defutebol, em mesas de bar, na escola, na firma ou onde for, passa por um sem número de variáveis e qualquer que seja o resultado, a escolha é somente sua e absolutamente legítima.

Estou certo de que uma esmagadora maioria, senão todos aqui, têm motivos louváveis para torcer por seus times de futebol, mesmo que, digamos, 70% (?) nunca tenha visto o time em campo e ainda assim juraram amor eterno a seu esquadrão (eu disse em campo. Televisão é um outro lugar).

Escolher um clube de futebol passa obrigatoriamente pela escolha de uma identidade, de um grupo com o qual nos identificamos, geralmente baseado em valores que comuns. O problema que é se você está há 2357km, essa identidade lhe será mostrada pelos olhos de outros, contada pela boca de terceiros, de gente que vive de contar histórias e precisa fazê-lo sempre de maneira a te cativar para que você não mude de canal. Quem conta um conto...

Tem também o problema do poder. Esse corrompe até os melhores - diz-se por aí - e o faz de dentro pra fora, sem se deixar mostrar até que seja tarde demais. Daí fica você achando que torce pelo Flamengo, só que o Flamengo já não é mais o Flamengo e o Flamengo que aí está,nem o Zico agüentou. Ou passa a acreditar que ser maloqueiro e sofredor é tacar pedra no busão após eliminação do time, porque sofredor que é sofredor sabe que título é obrigação.

Nessas e outras, as identidades e os valores construídos ao longo de 70, 80, 90 anos de história, vão se esvaindo na mãos de meia dúzia que acabou de chegar. Ganhar título é sim uma delícia, mas não é tudo. Há muito mais prazer em viver o clube.

Conhecer cada minúcia de sua história e reconhecê-la como sua. Entender a origem e ser parte de algo muito maior que nós mesmos, parte de alguma coisa que irá seguir seu muito tempo depois de termos abandonado esta existência. É importante, crucial, que lutemos para manter essa grandeza casta para os que virão depois de nós.

Meu jovem, dê uma olhadinha aí mesmo em sua região. Certamente há alguém que mereça o seu amor mais que verdadeiro. É mais gostoso um chamego ao seu lado do que viver sonhando com a atriz da noveladas oito. De perto a gente vê as coisas com mais clareza. Vai por mim, que sou míope.


publicado em 02 de Junho de 2011, 08:00
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Henrique Pinheiro

Publicitário, torcedor espartano do América\r\nMineiro e editor de OsGeraldinos, portal de esportes feito por e para torcedores. Tem um Twitter\r\n@hpinheiro meio paradão, razão pela qual sugere que você o siga em\r\n@os_geraldinos.


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