O que "A Menina Sem Qualidades" tem pra mostrar de verdade

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Obs: As frases entre aspas são de A Menina sem Qualidades, de Juli Zeh. Escolheu-se chamar os personagens pelos nomes da série brasileira, ainda que algumas alusões sejam ao livro. Os subtítulos do artigo são músicas identificadas por Edward Pimenta em seu artigo aqui no PapodeHomem.

1. "Brand New Life"

Link Vídeo| Teaser da série

Você e eu podemos dormir tranquilos hoje à noite. O leitor pode, como eu, afundar sua cabeça no travesseiro e fechar os olhos com um sorriso sereno. Somos felizes. Somos afortunados. E a razão não é apenas vivermos em uma época prodigiosa, ainda que protestemos, por distração e hábito, por um mundo melhor. A razão é que essa época prodigiosa nos recebe de braços abertos, mesmo que o abraço se revele, às vezes, apertado demais.

Somos afortunados pois não estamos na situação de Ana, que precisa abrir seu caminho nesse admirável mundo novo com socos e pontapés. Uma menina que, além de sentir como uma mulher, é  "um Outsider que mostra esforço constante para se manter longe dos indivíduos de sua espécie".

Ada ou Ana, dependendo se falamos do livro A Menina sem Qualidades de Juli Zeh ou da séria de Felipe Hirsch para a MTV. Em ambos os casos, seja na versão mais fria e filosófica da escritora alemã, seja na adaptação mais emocional e musical do diretor brasileiro, trata-se da mesma menina, da mesma irmã mais jovem de outras tantas mulheres inteligentes e únicas que estão a o nosso redor.

Meninas que, um dia, dominarão a terra: serão as juízas que julgarão nossos crimes, as escritoras que narrarão a tragicomédia de nossos destinos, as subversivas que explodirão nossas casas, as negociantes que parcelarão nossas dívidas.

2. "Nobody's Diary"

Link Vídeo | Trailer Oficial da série

São Anas, Adas, Lisbeths, Persépolis, Alisons. Essas meninas podem passar por nós em vários momento de nossas vidas. A regra é não percebermos sua presença. Nossos sentidos não julgam significativo quando uma jovem aparentemente insegura e desajeitada senta ao nosso lado no ônibus ou passa por nós na calçada ou em um corredor, apertando livros de velhos autores alemães e russos em seu peito.

Ela não tem "qualidades", ao menos aquelas que importam à maioria.

Se o acaso quiser, porém, podemos trombar no destino de uma Ana: ela pode nascer nossa irmã ou atravessar nosso caminho como uma namorada, ou então sentar-se no nosso lado em uma sala de aula como colega. Só então somos obrigados a parar, só então podemos observá-la de perto. É quando concluímos o quão sacana é o mundo, ou quão estúpidos são nossos olhos, por não nos ter sido óbvio, desde o início, a comovente beleza desse tipo de mulher, daquela que compreende a real natureza do Nenúfar que mata Cloé, daquela que registra inspirações num diário que ninguém lê, e ali escreve coisas como:

"O coração é um coração solitário com apenas um desejo: encontrar algum último conforto nos braços de outro."

3. "That's when I reach for my revolver"

Link Vídeo | Making of da série

Nenúfares e diários podem ser enganosos. E seríamos idiotas se confundíssemos tamanha sensibilidade com fragilidade. Sensibilidade não é o antônimo de força, e sim o sinônimo de uma profundidade que está receptiva, aberta, para o que se percebe na superfície.

Por isso, nada é mais traiçoeiro e perigoso do que considerarmos essas Anas como vítimas. Não nos iludamos pelo seu andar inseguro: se observarmos melhor, seu olhar é sempre firme. Vizinha de sua inteligência e sensibilidade está a força. Sentem eternamente como meninas, mas são capazes de esmurrar seus adversários até a inconsciência, num gesto de fúria que, a nossos olhos, parece justo e selvagem. Violência de pequenas mãos, para derrotar os grandes imbecis.

Ana, assim como todas as suas irmãs que passam por nós sem percebermos, conhecem muito bem todos os tipos de homens. Não nos enganemos -- nossas estratégias, nossos objetivos, tudo isso é óbvio demais para elas. Elas facilmente desvendam o segredo do mundo masculino, e o segredo é que os homens são bem simples, bem básicos em seus desejos e vaidades. Ana percebe, desde o início, que o interesse de um homem por ela é, na maior parte das vezes, como "o interesse de um ambicioso jogador de xadrez por um cavalo bem posicionado".

Então, quando uma Ana (ou Ada, no livro de Juli Zeh) conhece um niilista como Alex (Alev), ou um atlético como Tristán (Smurtek), não se deixa iludir pelas acrobacias racionais de um nem pelos ombros largos do outro. Ou melhor, ela se deixa iludir até o ponto em que é necessário para enredar ambos os homem em seu próprio jogo.

4. "Gimme Danger"

Link Vídeo | Episódio #1

E é assim que braços envolvendo seus ombros de forma sedutora podem ser cortados, para que lhe sirvam de objeto. Ana joga com o próprio amor que sente. Desse modo, é capaz de brincar e manipular dois polos opostos da masculinidade: o menino demasiado cerebral para ter virilidade, o homem com demasiado coração para reconhecer a realidade crua do mundo.

Alex é aquele tipo de garoto que acredita saber mais do que seus professores. Em parte, têm razão, pois sabe mais do que seus mestres sobre um bocado de coisas. Mas ainda é novo demais para compreender que a medula da verdade só é mordida com o tempo, após roer o osso da experiência, enfiar os dentes na carne dura dos caminhos equivocados. O menino, filho de uma época em que nobres sentimentos são tratados com ironia e a cara de tédio é considerada sinal de inteligência, está desconectado de sua própria hombridade. É um homem incompleto, semelhante a um homem castrado.

Tristán é aquele que viveu um bocado, já foi preso, já amou e conviveu com uma mulher, já apanhou de inimigos e já tirou a vida de alguém. Ele roeu o proverbial osso até chegar à medula, mas seu paladar rejeita o gosto das duras verdades que Ana aceita lucidamente, pois isso significaria abdicar de seu amor. "Por causa desse amor, ele não quer escutar", diz Ana, "quando eu lhe esclareço a falta de sentido do universo".

Tristán é o Adão tardio. Ana é a Eva prematura. Alex é o demônio disfarçado de inofensivo réptil. Juntos, seu jogo é reencenar o drama mais antigo da humanidade.

5. "A Cosmic Drama"

Link Vídeo | Episódio #2

Quando a serpente se aproxima de Eva, não diz nada que ela já não soubesse. Ana está ciente da mensagem central de Alex. Ela sabe que "a vida é um movimento sobre uma linha, e enquanto a gente acredita que ela se trata de um risco pintado entre duas pistas, caminhamos calmos e seguros, mas assim que reconhecemos que, na verdade, essa linha é a crista de uma montanha que atravessa um abismo, começamos a cambalear e percebemos que estamos constantemente em perigo de vida."

E Ana tem  um "defeito de nascença": ela nunca esquece o abismo.

Por isso, tudo o que a língua reptiliana de Alex faz é reafirmar para Ana o que a menina já sabe. Estamos constantemente em perigo de vida, e "o bom da vida é que não existe mais nada a perder quando se aceitou que ela acabará por chegar ao fim, cedo ou tarde". A busca de sentido "é comparável a um jogo de palavras cruzadas no qual o primeiro conceito foi intencionalmente inscrito de forma errada, um jogo de paciência com o baralho incompleto".

6. "Nothing Left to Lose"

Link Vídeo | Episódio #3

O que a serpente oferece à menina, portanto, não é o fruto da árvore do conhecimento, pois esse conhecimento ela já tem. O que Alex lhe oferece é um caminho para fora do paraíso deprimente em que ela se vê aprisionada, o paraíso patriarcal no qual não passa de mera costela, não possui qualquer qualidade considerada relevante. Mas, para abrir esse caminho, ela deve fazer o homem mais velho pecar, pois a transgressão é a chave para a liberdade.

O problema, porém, é que, fora da prisão, essa liberdade assusta, em razão de sua lucidez. "Todos caminhos levam ao conhecimento da nulidade de todas as coisas, mas nenhum conduz de volta" ao estado de ignorância", diz Alex. "O que há é a ausência total, o Nada, a não-existência de uma noção de certo e errado". "O ser humano procura combater o Nada, a falta de sentido, a falta de objetivo", mas "nas investigações dentro de si mesmo encontra um espaço vazio".

E, como se ainda não bastasse, o que norteia os passos da humanidade nessa trilha sobre a crista da montanha é "a covardia, a burrice e o egoísmo", esses três "eixos do sistema de coordenadas tridimensional de todo e qualquer comportamento". Na história, a morte do professor mais velho é a morte do homem que se torna incapaz de aceitar essas verdades que meninos impotentes enxergam com insuportável clareza.

A solução para esse problema, a solução para o cambalear diante da compreensão do abismo que há sob nossos pés, do vazio que há em nosso interior é o próprio menino endiabrado que propõe.

7. "Just What I Needed"

Link Vídeo | Episódio #4

"Nietzche é nosso bisavô", diz Alex, e nós "esbanjamos sua herança". Aqueles que compreendem e aceitam o vazio dentro de si foram ensinados que isso é ser mau. Mas, na verdade, essa é "a natureza que tais pessoas assumem mediante o conhecimento da realidade". Tais indivíduos "são, sobretudo, uma coisa: jogadores." Afinal, "só no jogo a verdadeira liberdade é possível (ou, melhor, é "suportável" ) ao ser humano.

"Quando se toma  ao homem todas suas noções de valor", responde Ana, permanece apenas o "prazer de jogar", e "não se morre de rir, mas sim se mata todo o resto de tanto rir".

Não há bem nem mal, replica a serpente no ouvido de Ana.  Toda decisão humana "é nada mais do que um jogo primorosamente bem estudado". Se nada existe de verdadeiro, se andamos entre dois abismos, a única razão de viver é descobrir a ludicidade no viver, o prazer de viver como quem joga, como se a vida fosse um vasto GTA ou um grande Assassins Creed, um game de mundo aberto e jogabilidade não-linear. Qualquer semelhança com algumas linhas do budismo não é mera coincidência.

E, com esse palavrório todo, o luciferino Alex convence sua Eva a jogar com Adão. E o que se oferece então ao homem, a Tristán, não é a tentação de pecar ao lado de Ana, mas o desafio de praticar a transgressão que libertará a todos ao final do jogo.

8. "I found a reason"

Link Vídeo | Episódio #5

Porém, o que Alex e Tristán não percebem, é que a menina tem força o suficiente para vencê-los. Ela, que parece mero peão no tabuleiro da vaidade de dois homens, mero joguete entre o racionalismo impotente e a força masculina, em um só golpe pode derrubar os jogadores como peças e sagrar-se vencedora.

Mas a menina é ainda mais sábia do que eles supõem: se ela vencer o jogo, não o fará para derrotar os dois homens, mas justamente para salva-los de si próprios. E, para triunfar, ela não se oporá contra a lógica diabólica da serpente, e sim a levará até as últimas consequências.

Afinal, se não há certo ou errado, se "não há razão para decidir entre a esquerda ou a direita", podemos escolher qualquer lado, seguindo a vontade irracional de nosso coração.

Se Alex fosse mulher e não homem, teria preferido a ideia dança ao conceito jogo – mas, como homem, prendeu-se hipnotizado na razão matemática da teoria dos jogos, uma razão que se perde e leva ao dilema que aflige todos os prisioneiros. Quando Alex lhe dá a primeira lição sobre a teoria do jogos, Ana corretamente conclui que não é preciso ler nenhum livro para saber como jogar, assim como para viver, pois a gente só começa a jogar e viver quando a "se mostra pronto a abrir mão de qualquer tipo de exatidão".

Logo, abrir mão da exatidão, seguir o caminho do coração, é a tática mais recomendável a Ana durante a partida. Encarar o jogo como uma forma de dança seria sua melhores estratégia.

9. "The Unquestioned Answer"

Link Vídeo | Episódio #6

Se Ana virar o jogo, qual dos peões derrubará primeiro? Finda a partida e guardado no armário o tabuleiro, qual dos peões ela levará consigo em seu bolso?

A série ainda não terminou, e as respostas ainda não convém dizer, mas o livro dá uma pista quando Ana, falando perante uma outra Ana mais velha e poderosa, dá o conselho definitivo a todos nós:

"Faça o que quiseres", como dizia Aleister Crowley, "mas faça de olhos abertos."


publicado em 10 de Junho de 2013, 21:00
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Victor Lisboa

Não escrevo por achar que tenho talento, sequer para dizer algo importante, e sim por autocomplacência e descaramento: de todos os vícios e extravagâncias tolerados socialmente, escrever é o mais inofensivo. Logo, deixe-me abusar, aqui e como editor no site Ano Zero.


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