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Os quatro constantes e a traição do oitavo dia

Uma história de amigos e traição

Nossa desconfiança era mútua e estava protocolada em termos furtivos. Desde antes, quando a Carol e eu íamos nas jantas para as quais ele e a Lúcia nos convidavam. Esses encontros entre casais amigos arranjados pela ressonante opinião de que nós quatro, então com alguma coisa entre os vinte e três e os trinta anos, já não tínhamos o mesmo ânimo para festas, música alta e ressacas. Fora isso, bebíamos no mesmo ritmo e acordávamos para trabalhar no dia seguinte com dores de cabeça e cansaço irritantes. Nessas ocasiões, ainda que subliminarmente, definimos as trincheiras do nosso desgosto, ele e eu.

A soma da conta me parece, agora, básica: eu e a Lúcia, namorada dele, encontrávamos mais afinidade entre nós, tanto quanto ele e a Carol pareciam complementar vínculos nos interesses. A desconfiança mútua era, portanto, a soma da culpa de nossa consciência com a própria insegurança dissimulada. A atmosfera se traduzira assim na segunda cerveja do primeiro encontro.

Pressenti o desastre no momento em que selecionei o nome dele e da Lúcia no evento no facebook que convidava nosso grupo de amigos para passar a última semana de dezembro e um pedaço da primeira semana de janeiro na casa de praia. A Lúcia foi a primeira confirmar presença e postou, instantes depois, avisando em nome do casal estavam de férias do trabalho e poderiam ficar os doze dias na praia conosco. Na postagem, ela queria saber quanto custaria para cada um. Sei que falava dos valores monetários, mas minha cabeça se iluminou em festivais simbólicos de quanto custaria para cada um em termos morais.

Doze pessoas foi a lotação máxima da casa.

Como a virada do ano caiu numa segunda-feira, muitos dos nossos amigos foram na sexta-feira para ficar até a quarta seguinte. Muitas pessoas se desencontraram pelas idas e vindas entre uma praia e outra, entre o emprego e os feriados, entre a rodovia interestadual e as barracas de beira de estrada para comer aquele pastel de queijo e esticar as pernas. Nós quatro, não. Ficamos os doze dias na casa. Fomos os quatro hóspedes constantes. A Lúcia e ele num quarto, eu e a Carol noutro. Os únicos casais que não precisaram mudar de quarto devido a alternância de pessoas. Ficamos os doze dias na casa, mas foi no oitavo dia que aconteceu de eu ficar sozinho com a Lúcia.

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Todos decidiram ir para a praia no momento em que a Lúcia e ele, lá pelas quatro da tarde, na privacidade do quarto deles, fizeram a mesma coisa que a Carol e eu fizemos no nosso: encontramos algum desentendimento genuíno do qual não lembro. Ao considerar que quarenta minutos depois estaria transando com a Lúcia na mesa da cozinha, não lembrar o motivo de termos brigado era, no mínimo, justificável. O Edu foi o arauto da anunciação que passou batendo nas portas dos quartos, gritando para quem estava deitado ou transando e, depois, em direção ao resto do pessoal que estava no pátio dos fundos, que a caipirinha estava pronta, que iam todos para a beira da praia. E que a Gi e a Roberta estavam levando a bola de futebol.

Antes que ele falasse tudo isso, logo após a primeira batida, na primeira porta, sabendo que a briga entre eu e a Carol era resultado de um possível desgaste por passarmos tantos dias juntos, como não estávamos acostumados a fazer. Avisei que não iria. Seria bom ficar um pouco sozinho. Porém, algo parecido aconteceu com a Lúcia. Quando todos saíram da casa, levantei e fui em direção à cozinha. Abri uma cerveja e me escorei no balcão. E foi assim que a Lúcia me encontrou quando entrou na cozinha. Ficamos surpresos com a presença um do outro, e a sinceridade do acaso foi traduzida, da minha parte, ao levantar a sobrancelha esquerda. Ela jogou um pouco a nuca em direção às costas, meio que num espasmo inconsciente para elevar o queixo, como se perguntasse, sem dizer palavra, um pontual .

No mesmo instante ela desandou a falar sobre como era bom um pouco de silêncio, e nesse ponto, como em tantos outros, concordávamos. Já somávamos oito dias juntos na casa e, todas as noites, na fatídica hora em que todos se reuniam na sala para conversar madrugada a dentro, continuavam aflorando as convergências nas opiniões, olhares e tensões. Apesar das dissonâncias do grupo como um todo, acabávamos, entre uma frase e outra, nutrindo interesse em algum nível à personalidade um do outro. Era algo de mistério, mas não um mistério intranquilo, não aquela olhada dedicada à profundidade de um romantismo débil e proibido. No entanto, ali, nós dois, naquela cozinha, reparei como não sabia até onde a situação ultrapassava os limites da vaidade para se aproximar das questões carnais — apesar de eu ter revisitado bastante esses pensamentos naqueles dias em que a libido universal escorria pelas paredes daquela cozinha que costumava ser uma garagem nos anos 80, antes da casa da praia precisar acompanhar, de emenda em emenda, o crescimento proporcional da família da Carol, dona do local.

Não deu tempo de refletir muito.

Ela falou sobre estar a fim de tomar um café com leite, e perguntou se tinha leite e café. Eu disse que não sabia e levantei a garrafa de cerveja que estava do meu lado na mesa como se aquele movimento fosse uma resposta adequada. Sentamos ali por trinta minutos. Falamos sobre apreciar o sossego da ausência de músicas dos novos baianos e das vozes que apenas saltavam de uma catarse entorpecente para a próxima. Estávamos separados pelos muros simbólicos da garrafa de cerveja em minha frente e da caneca de café solúvel com leite que ela segurava entre as mãos. Café com esse calor, eu falei antes de levantar para pegar outra cerveja na geladeira, atrás dela. Escolhi a mais gelada na porta do congelador e quando virei para fazer a volta na mesa, ela agarrou meu braço.

Eu não olhei o relógio, mas a certo ponto, já com nós dois emaranhados por cima de mesa, abandonadas camisetas, shorts, blusas e bermudas, cuecas e a parte de baixo de um biquíni verde que ela vestia por baixo do short para qualquer lugar chão, cheguei mesmo a esquecer de tudo. Esqueci da Carol. Esqueci da garrafa de cerveja que se espatifou no chão quando ela me agarrou pelo braço e se levantou para me beijar, esqueci dos anseios por estar em um relacionamento a sério há dois anos e um tanto. Esqueci dos pensamentos sobre como a vida se apresentava, cada vez mais, atraente fora das linhas dessa rotina que escolhemos ao entrar juntos em um relacionamento. Esqueci do namorado da Lúcia. Esqueci da caneca de café solúvel com leite. Só conseguia enxergar a destreza que ela manteve desde que puxou meu braço para me virar num beijo até o momento em que deslizou o corpo para fora da mesa de madeira e disse com certa despreocupação “varre isso aí, não vai te cortar”, então juntou suas peças de roupa e caminhou nua em direção ao quarto. Entrou e fechou a porta. Então, eu vi, a caneca de café com leite estava em cima da pia. E meu caráter devia estar no ralo.

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A Carol ficou preocupada quando viu os cacos de vidro da garrafa de cerveja e como foi a primeira a entrar, virou para trás e alertou que todos entrassem de chinelo, após bater a areia.

“Tu varreu muito mal”, disse na direção da rede dos fundos da casa onde eu estava deitado pensando que o álcool seria o suficiente para nublar a consciência naquele momento.

Perguntei se estava boa a praia e comentei que eles tinham ficado um bom tempo por lá. As bordas do desentendimento que tivemos, antes de ela se enrolar numa canga, pegar o protetor solar e sair para a praia, garantia a ela que me perguntasse com certa condescendência se eu havia cronometrado suas horas de sal e sol e areia ordenada em aparência caótica pela multidão buscando espaços quase inexistentes. Mas não. Não falou nada. Então, abandonei a rede e peguei a vassoura para fazer um melhor trabalho e evitar que alguém se cortasse. Acho que nesse ponto eu deveria ter notado como o álcool não estava restringindo minha consciência, mas cortando uma cebola, pedaço por pedaço, na frente dela, para, no fim das contas, causar irritação e lágrimas. Todos voltaram da praia quietos demais. Mas logo alguém iria comentar sobre a atmosfera pesada e propor de colocar uma música, então, assim que o sol fosse embora e a noite chegasse, estaria tudo bem de novo. Nisso a Lúcia já teria saído do quarto, e eu já teria tomado banho. Estaria, então, tocando aquela música que faria alguém se sentir bem a ponto de retransmitir o sentimento em direção ao grupo que, com o avançar das horas e das bebidas e baseados, ficaria cada vez mais suscetível à abraçar as expressões e causas individuais com o intuito de abraçar a redenção de um todo — um todo que supostamente estava de férias, na praia e, principalmente, longe dos problemas.

Não foi como aconteceu. Eu estava varrendo e senti os problemas esbarrando no meu ombro quando o olhar dele encontrou o meu, ao entrar na casa depois de todo mundo. Ele estava sentindo um frio que ia além daquele que sentimos após secar ao vento constante do litoral gaúcho após o banho de mar. Enquanto o sol, já tendo deixado para trás sua fase alaranjada — que, inclusive, a Bel tinha tirado uma foto e postado no instagram — já está mais para cinza do que para castanho. Eu sabia e ele sabia que eu sabia. Ele estava sentindo a insegurança de processar sua dúvida em relação ao que poderia ter acontecido. O que, do meu ponto de vista, era absolutamente razoável. Quando ele passou, forcei um sorriso. Imediatamente me arrependi e fechei a cara. Então, percebi a idiotice do gesto e assumi um sorriso meio-termo, com os lábios curvados num leve desespero. Aqui eu tenho culpa, eu não ajudei o cara. Muito menos a Lúcia.

As pessoas da casa davam a resposta quase unânime. Cheguei a pensar que pudessem sentir o cheiro de sexo recente. No olhar do Pedro eu tive certeza de que ele sabia, e que todos sabiam. Mas o Pedro podia apenas estar passando por mais uma daquelas tristezas absurdas que lhe acometiam sem razão e iam embora sem marcar data. Eu estava novamente ensurdecido pelos meus pensamentos quando ele levantou, pegou uma cerveja e veio sentar ao meu lado no degrau que separava a porta dos fundos do terreno. Ele sentou meio se ajeitando para não encostar em mim, mas encostou.

“Tu tá gelado, meu.”

“Tava fria a água.”

“Tá sempre.”

“Tu devia ter ido. O que aconteceu?”

“Como assim?”

“Tu não foi. Tu sempre vai. Tu e a Carol. O que que deu?”

“A gente teve uma discussãozinha, mas já tô bêbado o suficiente pra não lembrar.”

Nisso, a Duda que estava na rede entre as árvores do pátio dos fundos, desceu e caminhou vagarosamente em nossa direção, evitando sem sucesso cada um dos espinhos da grama. Era como se eles soubessem. E eles sabiam.

“Tu vai falar pra ele?”, ela perguntou.

“Não sei, acho que sim, né?”

Meu coração e meu estômago já não eram mais os mesmos:

“Falar o que, porra?”

Foi a Duda quem teve coragem de responder.

“A Carol e o…”, fez um sinal com a cabeça , imaginando que eu soubesse de quem ela estava falando. Eu sabia de quem ela estava falando. “… Eles foram para as dunas, ficaram lá quase todo o tempo em que ficamos na praia. Disseram que iam fumar um baseado, mas quando o João perguntou se podia ir junto ficou um climão…”

“Cara, calma”, o Pedro disse e colocou o braço gelado por cima do meu ombro.

“Porra, tu tá gelado!”, falei tirando o braço dele de cima de mim.

A inconsistência do que eu discernia como realidade e a base de meus pensamentos estavam em polvorosa. Pensei em colocar o dedo na cara dos dois. Evidenciar como aquela traição era motivada por egoísmo, como pareciam, sobretudo, pessoas que não superaram a adolescência. Que a insegurança deles os engolisse. Que a hipocrisia os carregasse pelo resto de suas vidas. A raiva subia aos meus olhos quando levantei e caminhei pelo corredor da casa, atrás dele.

Cheguei a frente da porta do quarto em que estavam a Lúcia e ele. Ouvi os gritos dela aferindo que ela queria mais é que eles se fodessem, que ele não precisava nem ter contado, ela sabia, e que por isso mesmo tinha fodido comigo em cima da mesa da cozinha. E foi ouvindo os berros dela que eu me dei conta da corda bamba de hipocrisia e imoralidade que eu estava andando.

Virei de costas para me afastar daquilo tudo, sair a passo daquela casa e nunca mais voltar. Ao virar, encontrei a Carol, ali, parada atrás de mim, ouvindo tudo com os maiores e melhores olhos que eu já tinha visto. Dois anos juntos. Eu sentia raiva, não dor. No entanto, quando ela colocou a mão no meu ombro e perguntou se eu estava bem, me encarando com aqueles maiores e melhores olhos castanhos, eu desabei. Chorei como uma criança. O álcool estava de parabéns. A cebola estava picotada e pronta para temperar o molho da desesperança. Ali, na frente da porta do quarto deles, comecei a soluçar incontrolavelmente. Os sons guturais eram assustadores, e a quantidade de lágrimas era absurda. A porta do quarto deles se abriu. Não olhei pra trás, pois a Carol continuava me encarando.

“Como tu tá?”, ela disse com ar de preocupação.

“Como tu acha? Eu tô mal pra caralho.”, falei, entre dois soluços.

“Que bom.”, e se virou.

Eu teria ficado parado ali por muito mais tempo. Tinha, inclusive, esquecido que a porta do quarto deles estava aberta atrás de mim. Só lembrei desse fator, quando o punho dele, fechado, me acertou na nuca e me atirou de cabeça em direção a parede.

Acordei no posto de saúde. Na minha volta, inúmeras crianças com os pés cortados por cordas esticadas meio escondidas ao longo da areia e amarradas às redes de pesca clandestinas no fundo do mar. Outras tantas pessoas por queimaduras de água viva. Uma delas comentava que tinha, inclusive, mijado em cima para ver se parava de arder, mas achou melhor passar no posto para ver o tratamento adequado. Outro paciente tinha a perna quebrada. Eu tinha um galo do tamanho do meu punho, entre o centro da testa e a têmpora esquerda. Procurei algum conhecido e através do vidro da sala de espera identifiquei a Duda e o Pedro.

Depois, voltamos para a casa. Ficamos o resto dos dias lá. O resto do pessoal, aqueles que não sabiam dos detalhes, tratou de animar aquela semana. E, em alguns momentos, pude mesmo dar algumas risadas. Na virada do ano, quando as pessoas estouraram as espumantes e brindaram à alegria de estar vivo, enxerguei de canto de olho a Lúcia indo abraçar ele. A Carol veio me abraçar também. Carinhosa. Foi bonito. Cheguei mesmo a me arrepender de tudo. E sussurrei isso no ouvido dela. Ela disse que deixasse isso pra lá. Ela disse que eu olhasse os fogos de artificio. E quando encarei o horizonte procurando pelos fogos, ela enfiou a mão pelo elástico da minha bermuda e agarrou meu pau como se quisesse arrancá-lo. Ela me tinha sob controle. As instruções, então, foram diretas. A gente ia foder aquela noite como se não houvesse outra noite. Porque não haveria outra noite.

E não houve.

De vez em quando, ainda encontro ele. E é sempre no corredor de limpeza do supermercado da Fernandes Vieira. A gente se encara furtivamente e seguimos nossas vidas pelos corredores de limpeza, cervejas e alimentos não-perecíveis. Quando isso acontece, é incrível e invariável a sensação de saudades da casa da praia.


publicado em 29 de Novembro de 2016, 00:00
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Sergio Trentini

Cursou psicologia, administração e jornalismo. Não terminou nenhuma das três. A última já passou da metade, e essa, jura que vai acabar. Assim como todas as histórias que começa a escrever. Escreve lá no Medium


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