ela era

vem comigo

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um câncer já escangalhado todo, daqueles que já tão num ponto daqueles de deixar a pessoa sem cor e uns tantos quilos mais magra, que já nem parece mais a mesma pessoa, mas outra pessoa bem diferente daquela pessoa que todo mundo olhava e dizia “olha, essa pessoa tem uma coisa até de iluminada, e eu não sou esotérica, mas, essa pessoa, ela tem uma luz, um algo além desse sorriso, algo além dessa boca cheia de dentes, algo além…”

e agora dizem “puxa vida, mas que merda; que infortúnio, né?” e dizem “ah, mas parece que esse tal câncer tá dentro de todo mundo, tá só esperando o momento pra ser ativado, todo mundo tem sua hora, é só tu ver, é cada vez mais comum que todo câncer seja raro, cada um tem o seu” e dizem “temos que respeitar e rezar para que não sofra, pois, a morte, meu filho, é uma etapa da vida, e não o contrário dela”; e tudo que tu consegue fazer é olhar pra esse câncer e pra essa pessoa com esse câncer e saber que não há nada mais de sagrado, ao mesmo tempo que não há sacrifício mais bonito que o desse câncer que escangalhou toda a pessoa e resumiu tanto tudo que essa pessoa que se deixou ser escangalhada toda por esse câncer acaba sendo sagrada com cor ou sem cor, com quilos ou sem quilos, sendo a mesma pessoa ou sendo mesmo outra pessoa, sendo com boca cheia de dentes ou com os olhos iluminados.

mas sendo pessoa.

Obs.: este texto foi originalmente publicado no Medium do autor.


publicado em 02 de Junho de 2017, 00:00
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Sergio Trentini

Cursou psicologia, administração e jornalismo. Não terminou nenhuma das três. A última já passou da metade, e essa, jura que vai acabar. Assim como todas as histórias que começa a escrever. Escreve lá no Medium


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