Nuvem social, P2P e economia descentralizada

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E se pudéssemos trocar não apenas arquivos, mas ideias, serviços e produtos no mundo real por meio de um sistema mais amplo de P2P?

Muito se fala de aquecimento global e catástrofes climáticas, mas ainda muito pouco é dito a respeito sobre o que e quanto é preciso mudar em nossas vidas para efetivamente amenizar a situação ambiental (e social).

Esse artigo mostra como a tecnologia da informação pode ser utilizada para facilitar a alteração no modo como nos relacionamos com os outros e com a natureza em geral.

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Quer saber como usar o poder das redes sociais para além do entretenimento? Siga lendo...

Uma cultura disfuncional

Após 3 anos consecutivos de derretimento recorde do ártico, em 2009 as empresas de navegação alteraram suas rotas comerciais entre Japão e Europa, passando a utilizar um atalho que passou a se abrir durante o verão ao norte do Canada. Não tem mais como negar: o aquecimento global é fato incontestável.

A essa altura, quase todo mundo reconhece que as principais causas do aquecimento global são de origem antropogênica e por todo o lado brotam pessoas bem intencionadas buscando soluções de todo o tipo: desde deixar seu carro na garagem para usar transporte coletivo ou bicicletas, até os casos mais extremos de pessoas que mudam a sua alimentação em prol do meio ambiente.

Mas será que é suficiente? O que será que realmente precisa ser feito? Quão profunda precisa ser a mudança nos nossos hábitos para evitar uma catástrofe ambiental e o colapso da nossa civilização? Essas são as perguntas mais pertinentes do momento, mas também as mais difíceis de encarar.

O desastre ambiental que estamos testemunhando é o sintoma de uma cultura disfuncional, de uma cultura que tem a economia de consumo como a engrenagem central da sua organização. É baseado nessa economia que produzimos, distribuímos e utilizamos os recursos necessários para nossa sobrevivência. Um dos problemas do sistema econômico globalizado predominante de hoje é que, para ser saudável, ele precisa crescer indefinidamente.

"A história das coisas" (legendado)

O produto interno bruto deixou de ser uma simples métrica para estimar o bem estar das pessoas e passou a ter o seu crescimento indefinido como o objetivo em si, negligenciando os seus efeitos colaterais. Entretanto, o seu crescimento infinito é inviável em um planeta finito.

Olhando dessa forma, fica evidente que sua ruína é inevitável – não é difícil entender que a economia de consumo será inviável depois que se esgotarem os materiais para produção, embalagem e transporte dos produtos que consumimos, hoje profundamente baseados em recursos não renováveis.

Mas aos poucos estamos acordando. Acordando desse sonho de crescimento ilimitado.

Mas, e agora, o que fazer?

Acredito que ninguém tem a resposta para essa pergunta. Afinal o fato de nossa espécie ter dominado o planeta e estar utilizando seus recursos além dos seus limites em escala global é inédito na história documentada. Possivelmente casos parecidos já existiram ao longo dos quase 4 bilhões de anos desde que a vida surgiu na Terra.

Em uma analogia com o passado distante, é muito provável que um dia esse planeta já esteve saturado de organismos unicelulares, em crise, no limite do crescimento unicelular, até que um salto de criatividade evolutiva levou à formação de colônias de bactérias especializadas e organizadas, resultando em organismos multicelulares que passaram a evoluir de maneira mais complexa, chegando até a nossa existência.

É possível que estejamos em uma dessas etapas da evolução: estamos em crise e apenas com novas formas de interação e organização – um novo paradigma – sobreviveremos.

Documentário "Us Now" sobre nosso espírito colaborativo | Assista à versão legendada

Na natureza, o surgimento de novos meios de comunicação resulta em novas formas de organização social. Um dos exemplos mais antigos é a comunicação química entre organismos unicelulares que permitiu o surgimento de colônias que evoluíram até organismos multicelulares com células especializadas.

Mais recentemente, passamos a ter uma nova forma de nos comunicarmos: a tecnologia da informação, uma das áreas tecnológicas que mais evoluiu nas últimas décadas. Será que a tecnologia da informação pode resultar em frutos revolucionários na organização da nossa sociedade, a tempo de reverter a situação climática? Isto é, que resulte em uma organização social está que restabeleça interações humanas saudáveis e que de dependa apenas de recursos renováveis?

Eu espero que sim e acredito que o potencial revolucionário da comunicação em rede para as massas populares ainda está em fase de incubação. Da mesma maneira que se passaram anos desde a invenção da imprensa até os desdobramentos da revolução científica e da revolução francesa, que marcou o fim do feudalismo, a tecnologia da informação está esperando pelo desenvolvimento das ferramentas corretas para resultar em uma transição de fase na forma na qual as pessoas se relacionam entre si e com o resto da natureza.

Para que isso aconteça, chamo a atenção para a importância de desenvolvermos ferramentas apropriadas: é fundamental que essas ferramentas sejam baseadas em software livre para que possam ser usadas, copiadas, estudadas, modificadas e redistribuídas por todos, sem nenhuma restrição. Apenas assim teremos a liberdade para adaptar os programas para aplicações específicas em cada realidade local, como tem sido feito com GNU/Linux.

Mas por onde podemos começar para construir um novo sistema econômico, um sistema baseado em tecnologias existentes ou em desenvolvimento que fortaleça comunidades locais e atinja um grande número de indivíduos em tempo, uma economia que amenize a situação ambiental ao mesmo tempo em que aprimora o bem estar da população?

A resposta para essa questão pode estar nas pessoas que você conhece.

Seis graus de separação

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Pessoal, quem aqui troca acesso semanal à minha horta por um corte de cabelo mensal?

Nos últimos anos o nosso conhecimento sobre redes disparou. As similaridades entre relações de proteínas em uma célula e a disseminação de doenças contagiosas foram claramente apresentadas. Notavelmente, estudos iniciais a respeito das redes de interações sociais humanas sugeriram que, na média, todas as pessoas vivas atualmente estão separadas por seis ligações sociais, ou seis graus de separação.

Como consequência desse fato, conhecido como efeito de mundo pequeno, o número de pessoas que você pode alcançar cresce exponencialmente com o número de passos que você dá na sua rede social. Assim, seguindo esse efeito e considerando que qualquer produto ou serviço necessário para a sua sobrevivência pode ser feito por alguém acessível pela sua rede social, podemos nos perguntar: por que não utilizar essa rede social já existente como a base de um novo sistema econômico?

Em outras palavras, porque não rearranjar o fluxo econômico através da correlação da produção e distribuição de bens e serviços com a rede social dos indivíduos que finalmente consomem esses produtos e serviços? Nesse sentido, a tecnologia da informação pode ser o catalisador que dinamiza a distribuição e utilização dessas informações, permitindo a emergência de um novo sistema econômico baseado nas redes sociais que, além do mais, fortalece os laços e relações humanas.

Nuvem Social

Seguindo essa análise de redes sociais e o potencial emergente da tecnologia da informação, um novo conceito para projetar serviços de redes sociais é sugerido aqui, chamado de Nuvem Social (Social Cloud).

Nesse modelo os serviços digitais não são fornecidos por provedores individuais, mas por nodos na rede, indivíduos e seus dispositivos eletrônicos (computadores, celulares), formando uma nuvem computacional (cloud computing). Só que nesse caso a nuvem computacional pertence a toda a rede social que se forma ao redor dos laços de relacionamento dos seus participantes, trocando informações diretamente entre pares (peer-to-peer ou P2P).

A proposta básica é muito similar a redes de troca de arquivos P2P, porém, além de arquivos, pessoas vão também trocar ideias, produtos e serviços no mundo físico material.

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E se nos transformássemos em servidores muito mais generosos?

Pode-se pensar em uma aplicação da nuvem social como uma combinação entre site de leilões e site de rede social, sendo essa combinação hospedada em um serviço de nuvem computacional, que por sua vez está rodando em uma rede P2P cujos nodos pertencem aos próprios usuários. É uma mistura de MercadoLivre, Orkut, e-Mule e computação em nuvem.

Uma implementação dessa ideia seria um mercado de trocas envolvendo a comparação de listas. Nesse sistema, cada participante cria e distribui uma lista de produtos e serviços oferecidos ou solicitados por ele/ela. O programa (software) é responsável pela comparação a sua lista com as listas dos demais pares conectados a sua rede social, indicando com quem você pode encontrar o que precisa. As decisões a respeito de negociações podem ser facilitadas por um sistema de reputação, onde a opinião dos seus conhecidos (e também de pessoas mais distantes da rede social) a respeito de um participante, ou um produto/serviço específico, podem ser levadas em consideração.

Então, quando alguém for às "compras" na nuvem social, essa pessoa estará navegando a sua rede social, mesmo que implicitamente. Pagamentos poderão ser feitos usando moedas alternativas locais, moedas baseadas em tempo (conceito conhecido como banco de horas), uma mistura das duas, ou até mesmo feito apenas por contribuição voluntária sem troca. Esse modelo pode catalisar a emergência e sustentação de comunidades locais resilientes. Tais interações dinâmicas permitirão às comunidades testar diferentes métricas para a sua prosperidade, convenientemente substituindo o produto interno bruto.

As vantagens de realizar negócios desse tipo são enormes. Haverá uma ligação direta entre os produtores e consumidores, que estarão atuando localmente, fortalecendo a economia local, que, sem a necessidade de transporte em larga escala, será menos dependente em combustíveis fósseis e a correspondente emissão de gases de efeito estufa.

Além disso, é aumentada a transparência na origem, processos de fabricação e condições de trabalho daqueles que produzem os produtos, uma vez que estes podem ser muito mais facilmente acessados seguindo a sua rede de relacionamentos locais.

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Luiz Poeira, grande artesão e amigo do editor | Você prefere comprar um tambor genérico ou bater um papo com o criador?

Essa proposta de economia descentralizada baseada em comunicação popular em rede de larga escala representa uma mudança de paradigma profunda, uma vez que, na atualidade, os produtos que consumimos são produzidos e distribuídos de forma centralizada por redes – redes fechadas estabelecidas estrategicamente por um número relativamente pequeno de pessoas.

No modelo atual, os consumidores recorrem a essas redes centralizadoras para adquirir seus alimentos e outros produtos, os quais são deslocados por grandes distâncias até chegar ao seu destino final.

Apesar de ser uma mudança de paradigma, a proposta da nuvem social se baseia em uma mudança de comportamento simples: ao invés de recorrer a um supermercado para adquirir o que você precisa, você vai buscar fazê-lo diretamente com algum conhecido que o produziu utilizando recursos locais – a nuvem social vai apenas ajudar a mostrar que o que você realmente precisa pode ser encontrado mais próximo do que se imagina.

Para saber mais e se engajar...

Iniciativas que buscam um novo paradigma sócio/econômico e cultural estão surgindo por todo o mundo. Entre elas, cito o movimento Cidades em Transição (Transiton Towns), que está rapidamente se espalhando pelo mundo, inclusive para o Brasil, difundindo uma nova visão de mundo na qual a relação entre as pessoas e com o resto do planeta é muito mais harmoniosa.

Outra delas é o Projeto Oekonux, pelo qual seus participantes estão avaliando a possibilidade do modelo de produção colaborativa baseado em contribuições ao invés de trocas, como a utilizada para o desenvolvimento de software livre, a exemplo do GNU/Linux, ser adotado como um novo modo de produção para outros setores da economia.

Meu artigo completo, que descreve aspectos técnicos da Nuvem Social, pode ser encontrado em inglês – "P2P And The Social Cloud - The Emergence Of Peer Economic Systems" (aqui a segunda parte) – ou para download em PDF: “Information Technology Tools for a Transition Economy”.


publicado em 04 de Janeiro de 2010, 04:01
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Rafael Pezzi

Rafael Pezzi possui doutorado em Física pela UFRGS. É especialista em análise de materiais para tecnologia de semicondutores (microeletrônica), tendo sido estagiário e pós-doutorando no centro de pesquisa da IBM em Nova York. Atualmente investiga as questões de geração, distribuição e uso de energia e seus impactos ambientais.


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