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Porque futebol: a pedra fundamental duma filosofia da bola

Se você tende a passar o dia de domingo em frente à tevê, já ouviu a mais desafiadora das perguntas do mundo esportivo.

Não precisa necessariamente gastar todo o fim de semana conferindo ao vivo as rodadas dos campeonatos brasileiro, alemão, espanhol, inglês, português, francês e italiano. Basta que a vontade de fazê-lo se insinue na dificuldade de deixar o sofá para atender a um almoço de família (ou pegar uma sessão de cinema) para ouvir a enigmática e insensível pergunta:

"O que você vê nesse jogo?"

"Esse jogo", dito assim, com desdém calculado, é o futebol, o único esporte capaz de mobilizar mais de um quarto da população mundial em torno de uma partida. Por quê?

O livro perfeito para um bom papo de boteco

É embaraçoso admitir que já me debrucei diversas vezes sobre o enigma futebolístico, talvez além do razoável diante da importância de questões práticas mais urgentes, como os rumos da humanidade, o fim da miséria ou como fazer para escapar daquele amigo-oculto da firma. Mas são 2,5 bilhões de pessoas na frente da televisão ao mesmo tempo. É muita coisa – e se justifica.

Outro dia fui questionado ao comparar num texto gênios da música e da literatura a craques de bola. Mantive e mantenho a comparação. Arshavin está para o jovem Dostoievski (ou Raskolnikov, como disse Xico Sá) assim como Neymar está para Rimbaud.

E se me eximo de defender neste artigo o futebol como arte é porque acho desnecessário atribuir a ele essa estatura, visto que, como pretendo demonstrar, o esporte bretão já vai longe o bastante sem esse tipo de muleta.

Para convencê-los, vão aí minhas teorias e devaneios pela primeira vez minimamente organizados, numa tentativa de que, submetidos ao escrutínio público, passem enfim a valer alguma coisa fora desta inquieta cabecinha. Confirmem-me, desmintam-me, questionem-me, acrescentem-me, execrem-me ou endeusem-me... Quer dizer, não precisa endeusar, mas estejam à vontade para fazê-lo, que não pretendo limitar ninguém – e meu melhor fundamento dentro de campo sempre foi o passe. Mata essa e parte pro gol:

O esporte

Competir é preciso

Antes do futebol, o esporte. Se você não pratica uma atividade esportiva que lhe permita medir forças com adversários, se não enxerga sentido nisso e prefere extravasar suas frustrações, angústias e energia de outra forma, parte do que vou dizer não fará qualquer sentido.

Partimos, aqui, da perspectiva do desporto, algo que nos proporciona a possibilidade de pertencer a um grupo e nos permite seguir em nosso combate essencial, suprindo a ânsia por competição e dominação sem deixar mortos e feridos (ou nem tão feridos assim). Há quem prefira dominar pela razão, e argumenta. Há quem prefira dominar pela força, e bate. Aqui, falamos de quem domina por pontos, e os marca.

Das possibilidades

O futebol é o esporte mais querido do mundo por tantas razões quantas são as possibilidades e alternativas oferecidas por uma de suas partidas. Apenas no esporte bretão o pior time pode ganhar. E jogando pior que seu adversário.

Um tenista fantástico pode perder para um adversário menos graduado se este explorar as fraquezas do primeiro. Isso é possível no basquete, no vôlei (“saca na mina”), no rugby, e você pode botar o esporte que quiser aí. Mas me digam um outro jogo em que um time que demonstre total controle durante toda a partida, massacre e humilhe o adversário a ponto de escancarar ao mesmo tempo suas próprias qualidades e as limitações do oponente e, ainda assim, saia perdendo.

Link YouTube | E se o Asa de Arapiraca for campeão?

Exemplos? O disciplina enfadonha do Inter de Milão de José Mourinho eliminou a magia do “clássico em vida” Barcelona na última Champions. E aquele São Paulo que desbancou o all-mighty Liverpool só com suor e lágrimas na final do mundial de Clubes? E como esquecer o doloroso Mazembe (foi mal, colorados, mas é preciso provar um ponto aqui) e o clássico caso “Asa de Arapiraca x Palmeiras”? Os exemplos são muitos, e traumatizantes o bastante para que eu me restrinja a esses.

Isso tudo acontece porque o futebol evoluiu a ponto de extrapolar seu objetivo fundamental. O futebol sublimou o gol.

Uma bola de basquete arremessada ao aro não tem o mesmo valor que uma bola chutada na trave. Acertar a pelota na barra é, ao mesmo tempo, mérito e demérito. O bom jogador de vôlei é aquele que põe a bola no chão (ou não permite que ela caia). No futebol, um passe, um drible, uma matada de bola e até um desarme bem feito (uma saudação ao grande Miranda!) podem valer esteticamente o equivalente a um gol, chegando até a dispensá-lo naquele momento.

Por outro lado, um time pode ganhar a partida apenas com botinadas e um golzinho contra (alô, Santa Cruz, não é toda vez que a tática Once Caldas vinga).

O futebol aceita a todos

Ora, o interesse de uma audiência desportiva aumentará na proporção das possibilidades do desfecho da partida – e nosso interesse em um campeonato como a Copa do Brasil depende (e muito) da participação de times de terceira e quarta divisão, cujas vitórias ou, antes, a expectativa de que elas possam ocorrer, garante um interesse peculiar, de um tipo que não se encontra nos clássicos. E nem vou desenvolver alternativas como expulsões dentro de um jogo, que contribuem ainda mais para a imprevisibilidade da disputa.

Daí meu primeiro ponto: o futebol se destaca porque o resultado da partida é mais difícil de prever do que em outros esportes.

O meio (de campo) é a mensagem

As possibilidades do esporte bretão são tantas que abrem espaço até para teorias esdrúxulas. Vocês já devem ter ouvido aquela conversa que mede a eficiência do jogo a partir da “proposta” dos times. Funciona assim: no que se propôs (que era empatar) o time A foi melhor que o time B (que pretendia golear). Ora, se o time A entrasse em campo planejando perder por 5 gols de diferença e saísse perdendo por apenas 3, teria seu objetivo frustrado.

A lógica não vale. Os teóricos da mesa redonda esquecem que há um objetivo no jogo (por mais que isso tenha sido relativizado, como apontei, o time segue entrando em campo para ganhar) e que comparar a defesa eficiente de um time ao ataque ineficiente do outro não faz sentido, principalmente se for para dizer quem jogou melhor (ou “merecia” o resultado final). Esse papo de pretensão vale para cinema, não para futebol, mas serve para introduzir este segundo tópico.

Como misantropo que não perdeu completamente a fé na humanidade, mas duvida dela com carinho e afeto, devo ao futebol minha socialização primária – falar aqui em secundária e terciária não seria exagero, mas para que me expor tanto assim? Não sou um cara lá muito falante, acho a maior parte dos assuntos triviais e tenho tendência a enxergar as coisas como se estivesse do lado de fora.

Não bastasse, tive acesso a uma educação estética acima da média e meus interesses não se coadunam com os da maior parte das pessoas com que convivo. Uau, como este virtuose do intelecto (sei que vou dar a impressão, mas isto se trata de uma imolação em nome do fut) consegue deixar sua torre de marfim e enfrentar o enfadonho convívio com simples mortais? Futebol.

Num mundo onde interesses, formações, idiomas, renda, capacidade intelectual, caráter, tudo, enfim, é diferente, mas a necessidade de convivência se impõe, o futebol atua como meio condutor (não contava com a minha astúcia, hein, Marshall?). O futebol nos iguala a todos – que o diga Luiz Gonzaga Belluzzo. E, por meio dessa língua comum, debatemos caráter, justiça, economia. E pra que argumentar tanto se a confirmação da teoria está resumida na figura de um presidente da República que explicava o país à nação com sucesso por meio de metáforas futebolísticas?

A questão é que, queiramos dizer o que quer que seja, o futebol estará lá para servir de suporte, seja para puxar papo com o motorista do ônibus, para interromper um silêncio constrangedor numa reunião de família ou, ainda, se enturmar no emprego novo. Mas isso tudo se localiza num estágio posterior. Estávamos tentando entender por que o futebol se destaca – e essa história de “meio é mensagem” serve mais para entender por que sua hegemonia se sustenta do que para explicar a origem do sucesso. Antes que a coisa se complique, sejamos simples e diretos.

A simplicidade

O futebol é o mais simples dos esportes coletivos – restrinjo aos coletivos pra me safar do argumento de que a corrida ou qualquer luta marcial são ainda mais simples, por dependerem apenas dos corpos envolvidos. Para a prática do futebol são necessários quatro pontos de referência e uma bola – ou algo que sirva de bola. Chinelos, gravetos, meias, bonés, garrafas, quaisquer dois objetos alinhados formam uma trave. Linhas imaginárias estabelecem os limites do campo, caso necessário.

Em qualquer lugar

Você já jogou handebol com uma laranja? Basquete com uma meia socada dentro da outra? Já tentou jogar vôlei com uma bola de papel? Não, né? Mas já rolou pelada com tampa de garrafa, certo?

Se todo mundo consegue dar um jeito de bater uma bolinha nas condições mais adversas, como fazer para competir em popularidade com o futebol? A fórmula é perfeita, reconheçam. E, ironicamente, é provavelmente na falta de perfeição que o futebol suplanta seus concorrentes da forma mais acachapante.

Demasiado humano

A assertiva do filósofo de uma nota só Arnaldo Cezar Coelho é clássica: a regra é clara. E é mesmo, principalmente nos trechos em que diz que algumas das decisões do árbitro são passíveis de interpretação. É o livre-arbítrio, em toda sua redundância, concedido por Charles Miller (ok, foi outro cara que criou o jogo, mas Charles é nosso messias).

A regra dá ao juiz, portanto, o direito de errar, ainda que não o exima de se responsabilizar pelo erro. Ei, não vou cometer aqui a heresia de igualar o futebol à religião (ainda que sutilmente a sugestão permaneça no ar), mas vocês percebem o quanto essa humanidade dentro das quatro linhas nos atrai?

Não acho que seja o caso de defender, agora, o primitivismo rudimentar do futebol contra a ameaça robotizada que se anuncia, mas pondero que é preciso levar em conta os malefícios que benefícios como chips dentro da bola ou replays dentro do campo devem trazer. A sirene que toca no hóquei é perfeita, não erra nunca. E que graça há nisso? O sensor que indica o gol vai tornar as coisas mais justas, mas vai também distanciar o jogo de nós, mecanizá-lo e, portanto, enfraquecê-lo diante dos outros esportes – o assunto de que tratamos, afinal, é a comparação entre eles.

Tem mais?

Como comentei lá em cima, há outros pormenores a serem explorados. Não mencionei o poder que só uma pelada tem de revelar o caráter de um cidadão. Não há egocentrismo que sobreviva a um contra-ataque individualizado – e nem o gol do fominha há redimi-lo – ou mau-caratismo que permaneça mascarado depois de uma entrada desleal.

Também faltou falar do poder dramático de uma partida de futebol, algo que a tevê insiste em negar, macaqueando, acrescentando aos jogos dramatizações banais e descartáveis, como se ver Romário esperando Godot dentro da pequena área ou Jorge Henrique dando uma de doente imaginário sempre que perde a bola não fosse encenação o bastante.

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É muita coisa, e eu nem falei do potencial cômico do futebol, do riso decorrente do inesperado, como um gol perdido, uma furada (ah, a beleza de uma bela furada!) ou o arremesso lateral batido para fora do campo, para não falar no complexo gol-contra e sua contradição fundamental de clímax-anticlímax. Mas explorar isso tudo com a importância merecida seria pedir tempo demais ao leitor virtual – e já fui longe o bastante. Talvez outra hora.

Apenas para finalizar: se tudo isso aí não foi o bastante para sensibilizar sua bruta alma, que insiste em enxergar o futebol como “22 homens correndo atrás de uma bola”, vai o sentimento, que dispensa qualquer argumento. Por que esse jogo, você pergunta? E eu, sem conseguir ou querer pensar, diante do gramado, respondo: porque futebol.


publicado em 16 de Abril de 2011, 11:33
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Rodolfo Borges

Jornalista e editor do osgeraldinos.com.br. Teórico do esporte bretão, acredita que não gostar de futebol é um desvio de caráter. Alimenta pretensões literárias com alpiste, mas lê muito e escreve pouco. Entulha o pouco que escreve em literaturadeverdade.wordpress.com.


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