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Qual a solução para a arbitragem brasileira? | Teoria dos Jogos #1

Quando a frase mais falada do campeonato é "ele está manchado" é porque tem algo errado.

Conforme o Campeonato Brasileiro se aproxima do fim, jogadores, técnicos e dirigentes acirram os ânimos, as reclamações sobre a arbitragem nacional se multiplicam e uma frase torna-se cada vez mais repetida:

O campeonato está manchado!

O diagnóstico é triste: a maioria das reclamações tem fundamento. Erros, dos mais bizarros aos mais sutis, surgem sistematicamente hora em favor deste, hora em favor daquele, provocando um descontentamento geral. Ninguém passa impune.

Esses tais erros geram reclamações, as reclamações geram pressão e a pressão provoca ainda mais erros na rodada seguinte. Assim configura-se um círculo vicioso do qual nenhum dos atores com poder de decisão ou mobilização parece interessado de fato em acabar.

Diante disso, quem assiste o futebol brasileiro fica com a impressão de que trata-se de um verdadeira bagunça. É difícil ficar sabendo dos fatos que se sucedem e não pensar que tudo não passa de uma brincadeira. Um desavisado qualquer desliga a televisão pensando: 'sempre foi assim, nada vai mudar'.

Acontece que a arbitragem brasileira já foi referência. Nas 20 edições de Copa do Mundo realizadas até hoje, o Brasil só não teve árbitros em três (1934, 1938 e 1958). Arnaldo César Coelho (1982) e Romualdo Arppi Filho (1986) apitaram finais em duas copas consecutivas na década de 1980 e colocaram o país atras apenas da Inglaterra nesse critério. Considerando que a seleção brasileira participou de sete finais, enquanto a inglesa apenas uma, e sabendo que árbitros não podem apitar jogos de seu próprio país, o número se torna ainda mais relevante.

Trio de arbitragem, com Arnaldo César Coelho ao centro, e capitães da Alemanha e da Itália posados para foto antes da final da Copa do Mundo de 1982, disputada no estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, na Espanha: naquela época a regra era mais clara.

Mas o futebol, suas regras e toda a tecnologia envolvida evoluíram numa velocidade que a arbitragem não foi capaz de acompanhar. Hoje, erros que antes poderiam passar despercebidos são facilmente flagrados pela televisão e a informação chega rápido ao gramado ainda durante a partida.

No caso polêmico mais recente, o árbitro que representará o Brasil na próxima Copa do Mundo, Sandro Meira Ricci, protagonizou uma situação extrema. Ao anular, validar e anular novamente um gol do Fluminense contra o Flamengo, o jogo ficou parado por 13 minutos até que a partida fosse reiniciada. Desse modo todas as pessoas dentro do estádio já tinham a informação de que o lance tinha sido irregular por meio da televisão. Todos menos aqueles que eram os únicos responsáveis por tomar a decisão.

Pensa num cara que fez besteira, esse é o Sandro Meira Ricci. Anulou o gol, voltou atrás, anulou de novo, paralisou a partida por 13 minutos, só deu 7 de acréscimo, disse que não ocorreu nada de anormal na súmula e vai representar o Brasil na próxima Copa do Mundo na Rússia.

A polêmica ficou maior, porém, quando foi descoberto que tanta demora permitiu que o próprio árbitro soubesse qual era a decisão correta através de uma pessoa alheia ao trio de arbitragem. O que é chamado de "interferência externa" (proibido pela FIFA) deu brecha para um pedido de anulação da partida por parte do Fluminense.

A questão chegou a ser aberta pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva que recomendou à CBF retirar os pontos ganhos pelo Flamengo até que a decisão final fosse tomada. O próprio Tribunal, porém, voltou atrás depois e negou o pedido, deixando claro que alguma coisa precisa ser feita urgentemente para que a arbitragem melhore.

Mais o quê? Separei quatro pontos para debatermos.

1. Força de Vontade

Antes de mais nada é preciso discutir sobre a vontade que clubes, CBF e até a FIFA tem de melhorar o nível da arbitragem. Do ponto de vista comercial e do ponto de vista esportivo, tudo aponta que a solução sempre é melhorar, mas quando partimos para questões políticas, nem tudo fica tão evidente.

1.1 Os clubes

Quando um lance polêmico acontece, dirigentes, treinadores e jogadores têm se colocado à disposição para dar entrevistas criticando a arbitragem. Porém, nem eles mesmos fazem o que está ao seu alcance para que o nível como um todo melhore e os erros sejam minimizados.

Na ocasião da polêmica citada, o presidente do Palmeiras, rival do Flamengo na disputa pelo título, convocou uma entrevista coletiva para criticar a arbitragem numa intenção óbvia de colocar pressão sobre os árbitros das próximas partidas, como quem diz: vocês erraram a favor deles, tá na hora de errar a nosso favor.

Na rodada seguinte, dito e feito. A pressão deu certo e o árbitro da partida do Palmeiras tomou decisões em favor da equipe paulista gerando críticas por parte do Figueirense dentre as quais destaca-se a frase citada no topo do texto. Foi a vez então do presidente do Palmeiras se calar, enquanto o do Flamengo contra-atacava.

Presidentes do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, e do Palmeiras, Paulo Nobre estão protagonizando uma disputa de declarações vergonhosa tendo a arbitragem como pivô, mas nenhum parece interessado em resolver a questão enquanto puderem ser beneficiados com isso.

Os clubes, portanto, não estão interessados em admitir quando foram beneficiados e propor uma solução que acabe com o problema. No lugar disso, preferem apenas usar os erros como recurso para (1) tirar seus próprios erros do foco, (2) armar um terreno para não reconhecer o eventual mérito do adversário e (3) pressionar para que na próxima vez, seja ele o beneficiado.

Numa das poucas vezes que foi perguntado sobre isso, o presidente do Flamengo disse que enviou um documento à CBF no final do ano anterior sugerindo mudanças na arbitragem. Muitos meses depois, quase nada foi feito e não houve sinais de nenhuma mobilização pública por parte do clube que se orgulha de dizer que tem a maior torcida do Brasil. O documento, portanto, passa a ser mais uma espécie de licença para criticar do que proposta de mudança de fato.

1.2 A CBF

Enquanto isso, a CBF segue fazendo o que bem entende com a arbitragem brasileira. Depois de ser criticada duramente na figura do ex-comandante da Comissão Nacional de Arbitragem, a Confederação aproveitou um suposto acúmulo de funções para "aceitar o pedido de afastamento" de Sérgio Correa e alçar Coronel Marinho para a função.

Este, por sua vez, já trabalhava na função com o atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, na época em que os dois estavam na Federação Paulista de Futebol. É bem verdade que Marinho ainda não teve tempo suficiente para mostrar seu trabalho, mas a primeira impressão não é a de que muita coisa vai mudar.

Responsável pela arbitragem do Campeonato Brasileiro, Sérgio Corrêa foi certamente a pessoa mais criticada pelos dirigentes durante a competição. Ele deixou o cargo alegando acúmulo de funções e passou o bastão para Coronel Marinho.

Enquanto isso, os árbitros também reclamam sobre como a forma que são escalados para as partidas e indicados ao quadro da FIFA não tem critérios objetivos. Em ambos os casos, a CBF define tudo em votação fechada e secreta dentro da própria Comissão de Arbitragem. Assim, a escolha de quem apitará tem muito pouco a ver com a qualidade dos árbitros e muito a ver com a vontade política de agradar as federações que, no futuro, serão responsáveis pelo apoio necessário para manter o poder.

1.3 A FIFA

Uma das poucas coisas que a CBF se mostra disposta a fazer para minimizar os erros é barrada justamente pela FIFA. A exemplo de diversos outros esportes como tênis, basquete e vôlei, a discussão sobre o uso da tecnologia chegou ao futebol, mas ainda não foi totalmente regulamentada por conta do conservadorismo da entidade máxima do esporte. A ideia seria justamente evitar circunstâncias como a que ocorreu no jogo entre Flamengo e Fluminense.

Quando se fala nesse assunto, algumas correntes de pensamento aparecem: (1) há aqueles que acham que usar a tecnologia vai acabar com as discussões sobre a arbitragem e tirar parte da graça do futebol, (2) há também quem acredita que a tecnologia deva ser utilizada em todos os lances que o árbitro tiver dúvida e, (3) há também um terceiro grupo que defende que a tecnologia deva ser utilizada apenas em casos objetivos como impedimento e saída de bola, limitando o recurso a um número de desafios por parte de cada equipe, exatamente como acontece no tênis e no vôlei. 

Pedidos e estudos vêm sendo feitos e enviados à FIFA e, ao que parece, a questão tem avançado de modo que o uso do auxílio de vídeo poderá ser permitido já a partir do segundo semestre do ano que vem, ainda que com algumas restrições. Resta saber quais serão.

2. Profissionalização

No meio disso tudo, não existe nenhum árbitro profissional com carteira assinada no Brasil hoje. Apesar do jogo ter crescido enormemente e alcançado cifras astronômicas, parece que a categoria dos árbitros não conseguiu sua fatia. O resultado é que, dentre todos os profissionais envolvidos com o futebol, o árbitro é o único que permanece amador.

Se existe uma diferença na preparação, não existe na cobrança. Hoje, os cerca de 500 indivíduos capacitados para apitar uma partida oficial no Brasil precisam ter formação de segundo grau, saber falar inglês, ser submetido a uma prova escrita, a uma avaliação física e a um diagnóstico psicológico, além, é claro, de ter feito o curso de árbitros com duração mínima de um ano.

Árbitros brasileiros recebem muito menos do que árbitros de outros países, mas muito acima da realidade brasileira. O problema não é a remuneração, mas a dedicação exclusiva para poderem se aprimorar tecnicamente.

O problema, evidentemente, não é a remuneração. Apesar de receberem muito menos do que colegas de outros países, os brasileiros ganham bem acima da média nacional, por exemplo. Mas, considerando o contexto do futebol, enquanto o árbitro mais bem pago de 2015 recebeu cerca de R$ 100 mil pelas 27 partidas que apitou no campeonato (sem descontar os impostos), jogadores como Paolo Guerreiro, receberam R$ 800 mil mensais de julho a dezembro em troca de 18 participações e 4 gols.

A questão é: profissionalizando os árbitros, garantindo que eles tenham dedicação exclusiva à profissão e, assim, possam se qualificar e aperfeiçoar, não só seria possível cobrá-los mais e melhor, como até pagá-los melhor, garantindo que eles não receberão ajuda$ externa$.

3. Intercâmbio

Igualmente, um aspecto importante da qualificação profissional é o contato constante com o que está sendo feito de melhor e mais moderno em outros países.

No futebol, há um consenso de que os técnicos brasileiros ficaram, no geral, ultrapassados. Após o massacre do 7 a 1, a categoria passou a ser muito questionada e alguns profissionais, cientes do atraso tático e técnico que o país tinha, passaram a buscar ajuda em outros lugares.

Apenas para citar um exemplo, o atual técnico da seleção brasileira, Tite, considerado quase uma unanimidade, passou um ano estudando futebol na Europa recentemente. Lá ele fez cursos com treinadores das principais equipes do mundo e procurou reciclar seus conceitos.

Se funciona para todos os profissionais, não há porque ser diferente com os árbitros brasileiros. Um estágio com os árbitros da Premiere League, um intercâmbio com o futebol alemão, nada disso vai impedir que os brasileiros errem quando apitarem uma partida importante, mas certamente vai fazer com que eles errem menos.

4. Métrica

Hoje, o mais importante para ser considerado um bom árbitro é conseguir correr rápido e bastante. O teste físico é o critério mais importante para a arbitragem, mas deveria ser assim?

Não bastasse faltar muita coisa a ser feita, algumas das coisas que já estão sendo feitas precisam ser corrigidas.

Como foi dito, parte das contrapartidas exigidas para que um profissional seja habilitado como árbitro de futebol é passar por um teste físico. Hoje, este teste representa o principal instrumento de reprovação dos árbitros e está baseado principalmente na avaliação da velocidade, da resistência e até da visão dos indivíduos. Todos, requisitos importantíssimos para a atuação de um árbitro.

Porém, é notável que a capacidade técnica é muito mais determinante para uma boa atuação nas partidas do que o aspecto físico. Os erros mais grotescos acontecem muito mais em consequência da má interpretação e aplicação das regras do que da capacidade de acompanhar jogadas ou enxergá-las.

Aliás, ver os erros está sendo fácil, difícil está sendo evitá-los.

***

Nota da edição: 'Teoria dos Jogos' é uma nova série de esportes do PdH que se propõem a analisar quinzenalmente problemas dos campeonatos que gostamos de acompanhar e propor soluções.

Vocês são nossos convidados para debater ideias nos comentários e sugerir quais devem ser os próximos temas. Esperamos que gostem e participem.


publicado em 26 de Outubro de 2016, 21:12
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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