Quando a gringa sobe um morro carioca

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Numa tarde chuvosa de janeiro 2012, subi o morro do Cantagalo para assistir a uma apresentação musical. Adultos tocaram música big band, crianças percussionistas se desdobraram em coreografias complexas e um jovem casal sambou de tirar meu fôlego. Na quadra de teto furado, debaixo de chuva, eu não sabia se mexia o corpo para acompanhar os ritmos ou se aplaudia junto com as famílias dos artistas.

"O samba, lá no morro, que beleza". O Cartola podia ter escrito isso

A subida já fora emocionante, a bordo de uma mototaxi, ziguezagueando na viela acidentada de chão molhado. Agarrei-me nos ombros do piloto anônimo, meu capacete boiando em volta à cabeça. Aqui, vale a pena notar que fizera 57 anos no mês anterior.

A maior parte dos quais não andei em favela. Sim, como jornalista nos anos 80 em São Paulo, pisava hesitante em lama, praticamente de mãos dadas com padres de teologia da libertação. Eram escudos e eu os escutava. Nos barracos, tomava cafés de fontes desconhecidas como se fosse uma tarefa hercúlea. Ferver era tudo.

Em casa, familiares e amigos novos avisavam: "trate mal a empregada. É o que ela espera. Pague mal, trate mal".

Mudamos para o Rio de Janeiro nos anos 90.

Aos poucos, sem reparar, fui assimilando atitudes e preconceitos. Aprendi a disassociar. Não perguntei onde morava a manicure. Mesmo que tivesse perguntado, a resposta não teria se alojado no meu mapa mental. Nele, todas as favelas da Zona Norte se aglomeravam num “complexo” só, de onde saiam balas voando até a Tijuca, terra non grata.

As favelas da Zona Sul informavam minhas peripécias como se fossem temporal: para ir à minha aula de tênis no Hotel Intercontinental, eu desafiava tiros na Rocinha a bordo de um carro blindado. E simplesmente evitava o fim da rua Nascimento Silva.

Pouco antes do ano 2000, bem que tentei superar alguma coisa. Confesso que subi na Rocinha várias vezes na tentativa de resolver o problema do lixo dos moradores, que sujava minha praia, de São Conrado.

Mas o problema do lixo, como tanta outra coisa relacionada à pobreza no Brasil, era insolúvel. Quem juntava recicláveis era cria do governador da época; quem tinha espaço para guardá-los era cria do prefeito. Não se falavam. Dei de ombros.

Entre outras pilastras, um relacionamento se sustenta em perguntas não posadas. Meu caso de amor com o Brasil se baseava na leal e teimosa falta de querer saber como um povo tão divertido e carinhoso podia permitir a existência de favelas. Ou seja, criá-las.

O divórcio abriu meus olhos. Há seis anos, parti da mansão de São Conrado e comecei a descobrir a cidade. Sambei na Lapa.

Link YouTube | Quem nunca sambou lá, não sabe de nada

Criei um blog sobre a transformação da cidade em 2010 e reportei em detalhe a invasão do Complexo do Alemão, sem adentrá-lo. Apenas no fim do ano passado virei frequentadora de favela, graças ao Marcus Faustini, furador dos planos mais perfeitos e idealizador da Agência Redes Para Juventude.

Foi pela Agência que subi o Cantagalo, para fazer uma reportagem sobre a inauguração do projeto Bela Arte Jazz, uma escola de música criada pelo jovem saxofonista Leonardo Januário. Como bolsista da Agência, Leonardo desenvolveu a ideia dele, apresentou-a diante de uma banca e foi selecionado para receber R$10 mil para concretizá-la. O dinheiro vem da Petrobras.

Pela Agência, nos últimos quatro meses, já fui à Cidade de Deus, ao Borel, Chapéu-Mangueira, Pavão-Pavãozinho, e ao Batan, além do Cantagalo. Sem a Agência, já fui aos Complexos da Maré e do Alemão. Já andei de metrô, van, ônibus, e de Miguelzinho, além de moto-táxi. Falta trem, mas já passei por cima da Avenida Brasil na passarela. Lembra Foz de Iguaçu: você para no meio, percebendo que o piso é apenas madeira, e vê aquele fluxo indomável...

Num dia ensolarado no Batan, durante uma festa na rua, me dei conta de que o subúrbio de Boston de minha infância não foi tão diferente de uma favela. A gente levava pratos de comida para os enfermos e enlutados; limpava a neve das entradas de casa dos velhinhos. Fazíamos piquenique no Dia da Independência.

Aí posei mais uma daquelas perguntas inconvenientes: porque será que, no Brasil, o espírito comunitário com o qual eu fui educada existe mais na favela do que no asfalto?

Talvez tenha a ver com a igualdade. Pode ser que o nivelamento social na favela contribua para amenizar a desconfiança que reina no resto da sociedade brasileira. E pode ser que o crescimento da classe média e a diminuição da desigualdade no Brasil comecem a mexer no quadro. Preparem-se.

Muitos jovens da Agência têm uma aparência que levam senhoras de 57 anos a atravessar a rua num passo apressado. São negros, fortes, de penteados estilosos.

Sonhadores, criativos, apegados às suas comunidades, muitos deles são agora meus amigos e amigas no Facebook. Dançam o passinho e sentem falta do Gambá, o “Rei do Passinho” de 23 anos que teve a coragem de se mexer como mulher, mas foi brutalmente assassinado em Bonsucesso no Ano Novo.

Numa pousada do Chapéu Mangueira, comemorei meu aniversário em dezembro último com uma feijoada e pagode. Vários convidados cariocas até então desconheciam a favela. Alguns me telefonaram no meio do caminho, achando-se perdidos, pedindo ajuda.

Nos anos 70, as favelas do Rio de Janeiro eram manchas brancas nos mapas da cidade.

O Rio daquela época era outro Rio

Na tarde da inauguração do Bela Arte Jazz, subi de mototáxi mas desci à pé, já de noite, junto com alguns amigos. Não chovia mais. No escuro, passamos pelas portas de casas e de comércio, desviamos o passo de cocô de cachorro (andam soltos, como na minha infância) cumprimentamos moradores, e sentimos o cheiro de esgoto. Chegamos numa estação de plano inclinado cuja existência eu desconhecia. “Estava quebrado, mas consertaram”, uma moradora comentou. Continuamos a descida a pé, por estarmos pertinho do asfalto.

Já em Copacabana, cada um tomou seu rumo. Eu, a caminho de meu apartamento em Ipanema, dei uma boa respirada funda, como fizera muitas vezes após uma sessão de psicanálise particularmente profunda.

Nunca me senti tão inteira.


publicado em 10 de Março de 2012, 21:02
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Julia Michaels

Norteamericana, Julia Michaels mora no Brasil há 30 anos. Desde agosto de 2010, cobre a transformação do Rio de Janeiro em inglês e português, de maneira construtiva e independente, no seu RioRealblog.


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