Quarterback protesta durante o hino e escancara nossos velhos problemas | Mais que um jogo #13

Colin Kaepernick é um jogador de futebol americano que resolveu protestar contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos

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Outro dia, pouco antes das Olimpíadas começarem, falamos aqui sobre o direito dos atletas de se manifestarem durante um evento esportivo (e até fora dele). Ao contrário do esperado (por mim, pelo menos), os Jogos Olímpicos registram um ou outro protesto, mas a quantidade ficou muito abaixo da expectativa.

Erramos o evento, mas não erramos a data.

Durante o mesmo mês de agosto, enquanto os olhos do mundo estavam voltados para a competição no Rio de Janeiro, a NFL começou nos Estados Unidos. Foi então que um jogador de futebol americano aproveitou o momento para fazer um protesto silencioso que ganhou repercussão nacional e abriu nossos olhos sobre os problemas que ainda temos que enfrentar.

Um velho problema

Colin Kaepernick é quarterback do San Francisco 49ers, uma equipe de futebol americano do estado da Califórnia. Aos 28 anos, ele é dono do recorde de jardas corridas por um jogador de sua posição num único jogo, mas ganhou destaque mesmo por um detalhe que faz toda a diferença nessa história: ele é negro.

A combinação "ser negro e jogador de futebol americano" não é exatamente rara nos Estados Unidos – pelo contrário, os negros são maioria na NFL (67% segundo o Instituto pela Diversidade e Ética no Esporte). A peculiaridade fica por conta da posição que ele ocupa no campo.

Quarterback é o jogador responsável por pensar e iniciar as jogadas ofensivas do time. É, portanto, um protagonista do jogo e consequentemente tem a média salarial mais alta do esporte. Se os atletas negros já são maioria na NFL há algum tempo, ainda existe uma defasagem enorme na posição tida como a que "pensa o jogo" baseada numa velha crença de que negros são mais atléticos e brancos mais inteligentes.

Colin, porém, não estava satisfeito em ocupar essa posição rara para atletas negros se não pudesse aproveitar o destaque para apoiar as causas nas quais acredita. Foi então que resolveu aproveitar sua condição para protestar contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos.

Sabe qual foi o protesto tão polêmico que ele fez? Não se levantar durante o hino nacional.

O assunto já estava em pauta há muito tempo. Nos últimos anos uma série de mortes de negros por ações policiais mal explicadas elevaram a tensão racial no país, deram origem a movimentos como o Black Lives Matter e reviveram casos históricos como o do Panteras Negras. Em 2014, a morte um jovem negro acentuou a questão que ganhou ainda mais impulso quando uma gravação revelou as últimas palavras de um homem negro desarmado morto pela polícia:

"I can't breathe." –"Eu não consigo respirar."

Eric Garner, negro morto pela polícia nos EUA

Na época, jogadores de basquete como LeBron James, Chris Paul, Carmelo Anthony, Kobe Bryant e Dwyane Wade usaram camisetas com a frase estampada durante o aquecimento de suas partidas. As mulheres também protestaram e usaram camisetas com hashtags em alusão ao acontecimento, mas estas acabaram multadas pela Liga.

Jogadores da NBA protestando contra ação policial que matou um homem negro desarmado.

Agora, em 2016, novos casos envolvendo negros e a polícia deram origens a retaliações (um atirador negro matou dois civis e cinco policiais em Dallas, no Texas) e motivaram uma nova onda de protestos. Dizer, portanto, que a atitude de Colin foi responsável por levantar a polêmica é um exagero, mas ela certamente contribuiu para a repercussão.

Um país ferido

“Eu não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que futebol e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos.”

Colin Kaepernick – pivô da polêmica

A decisão de não se levantar durante o hino nacional americano dividiu o país. Se negros vêm sendo mortos nas ruas, muita gente se sentiu ferida sem sequer sair de casa e, assim, um gesto que pode até parecer irrelevante para quem vê de fora, atingiu em cheio os americanos. Para o bem e para o mal.

"Levante-se, Kaerpernick", diz faixa de torcedor do San Diego Chargers.

Ao mesmo tempo que Colin ganhou apoiadores e até evoluiu o protesto da posição sentada para a de joelhos, recebeu uma enxurrada das mais diversas críticas.

Kaepernick e colega de time se ajoelham durante execução do hino nacional americano.

Diretamente atacada, a polícia foi uma das primeiras a se manifestar e ameaçou não trabalhar na segurança dos jogos do 49ers em casa, mas curiosamente o foco da discussão não ficou em torno da pertinência do conteúdo do protesto. Como de costume, as críticas serviram para julgar se o local e a forma como foi feito eram adequados.

“Esse debate tem sido um lembrete que - não importa as condições para a compaixão, compreensão e apoio - quando se trata de reconhecer a existência do racismo e a ponderação da forma mais apropriada de lidar com isso, muitos americanos se agarram ao privilégio de manter seus próprios placares.”

David Leonard – Jornalista do “Vox”, em artigo

Na onda do que é adequado ou não, além do racismo, veio a tona outras questões como a da islamofobia. Nas redes sociais, ganhou força o boato de que a atitude de Colin era devida a uma suposta conversão ao islamismo por influência de sua namorada muçulmana. O jogador precisou negar os boatos e aproveitou para ir além.

“Acho que [esses rumores] estão associados ao medo que as pessoas sentem desse protesto, assim como à islamofobia. As pessoas têm tanto medo deles que chegam ao ponto em que Trump quer banir todos os muçulmanos do país, o que é ridículo.”

Mas a polêmica não parou por aí e seguiu avançando até atingir o ponto central: o nacionalismo americano. Atletas como Victor Cruz e Justin Pugh, do New York Giants, e do próprio treinador de Colin nos 49ers, Jim Harbaugh, disseram que era preciso respeitar os símbolos americanos e, aos poucos, o protesto foi sendo tratado como um ato anti-americano. A coisa foi tão longe que o próprio Donald Trump resolveu aproveitar a deixa e afirmou que "talvez ele [Colin] deva procurar um país que funcione melhor para ele."

Quase que como uma resposta, um artigo no The New York Time assinado por Wesley Morris questionou a noção de patriotismo que, segundo ele, "opera na lógica segundo a qual apenas membros da família podem falar duras verdades sobre as falhas da família. E quando os negros se levantam e falam sobre a América, são informados de que eles, na verdade, não têm um assento na mesa dos adultos e que deveriam agradecer por estar aqui."

"Kaepernick, você já agradeceu um veterano pelo seu direito de desrespeitar nosso país?"

A divisão ocorreu até entre os torcedores do time. Após os jogos, quando o quarterback se dirigia aos fãs para dar autógrafos e tirar fotos, ouviam-se vaias e aplausos, levantavam-se cartazes contra e a favor. E enquanto muitos chegaram a queimá-las, as vendas de camisas com o nome de Kaepernick explodiram e se tornaram as mais populares da NFL nesse começo de temporada.

No meio disso tudo, a NFL foi obrigada à emitir um comunicado oficial no qual se esquivou da polêmica.

“Atletas são encorajados, mas não obrigados a se levantarem durante a execução do hino nacional.”

Comunicado oficial da NFL

Uma linha parecida foi adotada pelo presidente Barack Obama que afirmou não estar acompanhando o caso de perto, mas entender que Colin estava exercendo um direito constitucional de fazer uma manifestação, sem se posicionar pessoalmente contra ou a favor do gesto.

Fato é que as pressões continuaram surgindo. Boatos de que o jogador perderia espaço na equipe e patrocinadores pessoais ainda não se concretizaram, mas, na verdade, Colin parece não estar muito preocupado com isso.

“Quando eu perceber mudanças significativas e sentir que a bandeira representa o que deveria representar, que esse país está representando as pessoas como deve, vou me levantar.

Isto é porque estou vendo coisas acontecerem com pessoas que não têm voz. Estou em uma posição que posso fazer isso.

Não estou buscando aprovação. Eu preciso ficar ao lado das pessoas que são oprimidas… se tirarem o futebol de mim, meus patrocínios, eu saberei que defendi o que era certo.”

Colin parece acreditar que o futebol americano é mais que um jogo, é uma oportunidade de dar voz a quem não tem.


publicado em 21 de Setembro de 2016, 19:01
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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