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O rei do camarote e a grotesca cultura do vip

Anteontem esbarrei com o vídeo "10 mandamentos do rei do camarote". Nele, o empresário Alexander de Almeida enumera os cânones de um monarca da balada. De tão caricato, fica difícil saber se é mais um Porta dos Fundos(seria dos bons) ou um renascimento do galanteador Boça, agora endinheirado.

A edição não poupa bathos (recurso estético produtor do riso cruel) ao satirizar seu protagonista – lembram da sketch "Roxbury Guys" do SNL e do Vitor Ignácio Pacheco? Difícil não rir.

Bathos: a estética do riso cruel

Alexander é oferecido aos leões como banquete do dia. Nos fartar em tamanha falta de bom senso é estupendo! Escutar suas falas – tão ingênuas e diretas, tais quais a de uma criança – nos distancia da possibilidade de nos enxergarmos ali.

As mais de 1.100.000 pessoas que assistiram o vídeo desde sua publicação, quatro dias atrás, tiveram eficiência militar ao disseminá-lo e qualificá-lo como negativo (mais de 90% de dedões para baixo). Pudera, é um alívio encontrar presa tão fácil. Criticar e desqualificar Alexander é se afirmar não ridículo.

O riso aqui é de escárnio, supostamente liberador. "Ufa, como é besta aquele lá do vídeo, aquele sim é trouxa, já viu?"

Como uma piñata em dia de festa, esse aí pode levar pauladas de todos. Dos pobres, dos classe-média, dos intelectuais, das minorias, das maiorias, dos ricos e até mesmo de seus semelhantes diretos, os esbanjadores de balada mais hábeis em fingir o que realmente pensam.

A Veja SP não passa incólume. Deu tom sabidamente grotesco à matéria, certa de colher dividendos em audiência. Das emoções humanas, raiva e seus derivados são as que mais nos instigam a compartilhar algo. O texto em questão consegue gerar, ao mesmo tempo, comicidade, revolta e incredulidade. Um coquetel molotov de acessos e uma enorme chance perdida em ser algo além de isca para nos chocar.

Evidenciar extremos é uma excelente maneira de evitar discussões. A pauta se torna o absurdo em si – e não de onde ele veio, seus efeitos, o contexto que o favorece e como se sustenta.

O gênero grotesco, muito bem apresentado pelo pesquisador Muniz Sodré, é marcante nos produtos midiáticos massivos. Provoca o estranhamento, o choque de sentido, o ridículo; gera o riso e o desligamento momentâneo das pessoas, que dispensam a análise crítica envolvida nesse tipo de humor.

O clímax sensacionalista é o destino final.

Pra que discutir a pervasiva cultura do vip quando podemos nos bastar com o bobo da corte? Pra que discutir mulheres que só transam com caras ricos? Ou a noção masculina que leva homens a se comportarem como babacas na balada, perdidos na vida? Ou mesmo a nossa necessidade de pagar para agir como crianças enlouquecidas em espaços de poucos m² e hormônios à flor da pele, quebrando nossas insuportáveis rotinas?

Legal mesmo é parodiar o grotesco. Ironizar, gifar e memetizar a catarse, como abutres, até a última gota.

"A pulseirinha dos bróder"
"Gasto pra chamar atenção das gatas" – aspas do Alexander ou o pensamento indiscreto de qualquer amigo seu

Denis Russo, diretor de redação da Super Interessante e da Vida Simples, colocou muito bem em artigo de 2010:

O Brasil é o país dos vips. Como estamos acostumados a sermos o país mais desigual do mundo, achamos normal que haja uma elitezinha minúscula cercada por uma imensa ralé. Ao longo da história, nos tornamos especialistas em erguer grades vigiadas por seguranças truculentos separando uns dos outros.
Estamos na ponta em termos de tecnologia de segregação. Claro que, nesse clima, todo mundo quer ser vip. Ninguém quer ter o azar de ir parar do lado errado da cerca.

A cultura do vip é um mal estrutural. Descontextualizar algumas de suas falas evidencia como Alexander não está sozinho em seu delírio:

Roupas de grife. Você tem que se vestir com as melhores roupas, das melhores grifes.
Você tem que ter um carro, um carro potente. (...) Um carro que chama atenção, que toda mulher gosta.
Quando a pessoa tá na pista, ela é mais um. Agora quando a pessoa tá no camarote, ela acaba ficando em evidência. Porque o camarote é uma questão de status.
Vou te ser muito sincero, a questão da champanhe. Eu gosto mais de tomar vodca. Mas a champanhe tem status, entendeu.
Camarote tem que ter mulheres, mulheres bonitas. Porque não faz sentido você ter tudo aquilo ali e não ter as mulheres.
Se você não tiver Instagram, não é legal. Você tem que ter, tem que divulgar suas fotos, seus vídeos.
Quem não queria andar com um carro bom, se vestir bem, tá com um camarote cheio de mulheres bonitas, atraentes... e bebendo das melhores bebidas?

Elas seguem soando absurdas ou poderia escutá-las de conhecidos?

É curioso como são parâmetros bem enraizados e facilmente observáveis em qualquer noite, em qualquer lugar. Pior, norteiam indústrias inteiras, como a da publicidade e do entretenimento.

O rei do camarote é só o patinho feio de uma cultura doente, da qual todos fazemos parte. Rir dele não é crime. A música de hoje no QG é "Rhythim of the night" e tá todo mundo "agregando muito no almoço". O vídeo é mesmo ridículo. Escrever esse texto besta me dá a certeza de também ser.

E você, cara pálida, faz parte da tribo.


publicado em 04 de Novembro de 2013, 16:23
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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