Relacionamento aberto dá certo? | ID #54

Com tantas soluções e modelos, será que relacionamento aberto funciona?

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"Estamos juntos há quase três anos, dois deles morando juntos fora do Brasil. Conheci meu atual namorado quando havia terminado, havia alguns meses, um relacionamento de muito ciúmes e possessividade. Tudo chegou para mim como algo muito novo e interessante, pois meu atual namorado vivia 'relacionamentos abertos com duas outras pessoas'.

Pulei nesse barco ansiosa para viver com mais liberdade e, ao que eu acreditava, com um pouco mais do que eu considero que seja o amor: livre e incondicional. Resumindo, me decepcionei. Depois de pouco tempo, estando muito apaixonada, o que parecia ser o ideal acabou me trazendo muito sofrimento. Eu queria conseguir dar a ele o que ele me dá, mas infelizmente isso me faz sofrer demais.

Estamos morando juntos fora do Brasil pois ele teve uma oportunidade de carreira importante e eu decidi vir junto para vivenciar essa relação, mas essa questão da poligamia e o poliamorismo (que ele sempre sonhou) continua me perseguindo e mesmo eu não concordando com isso, ele procura levar a relação sem fazer muitos comprometimentos. 

No momento, estou grávida e sentindo muito o fato de não poder estar perto de amigos e família, e o fato dele sempre cobiçar mulheres e relações, fora a nossa, tem me afetado de uma maneira ainda mais forte agora, nessa fase em particular.

Gosto muito dele e sonho em ter uma família, mas a falta de flexibilidade e de harmonia nos nossos ideais está atrapalhando tudo. Queria uma opinião de alguém que pode enxergar isso de fora.

Muito obrigada!

Uniamorosa"

* * *

Cara Uniamorosa,

Seu e-mail tem muitos pontos importantes, mas vou me ater à questão poliamorosa. Mas, antes, tenho que deixar alguns pressupostos sobre relacionamentos dos quais parto para minha argumentação:

  • As pessoas vivem relacionamentos possíveis, dentro de seu alcance intelectual, moral, emocional, social, financeiro. Assim, o que pode parecer detestável para uns é absolutamente satisfatório (dentro daquelas condições) para outro e vice e versa. Julgar o relacionamento alheio pelos seus parâmetros pode caracterizar uma projeção de quem avalia e pensa pelos seus próprios olhos.
  • Relacionamentos são mutáveis e insuficientes na sua condicionalidade.
  • Amor não garante qualidade de relação.
  • Qualquer narrativa amorosa pede a capacidade de suportar a tensão entre desejo e lealdade, liberdade e responsabilidade, generosidade e egocentrismo, individualidade e companheirismo, enfim, conflitos constantes entre paradoxos existenciais.
  • O modelo monogâmico ou poliamoroso não responde por todas as inquietudes amorosas (ou humanas).
  • Existe certa ingenuidade na discussão da saída emocionalmente viável da poliamorosidade para o impasse cultural imposto pela heteronormatividade monogâmica, o ponto real não é atacado, ainda que inúmeras argumentações contra a monogamia sejam realmente válidas.

Com tudo isso dito, vamos à grande pergunta.

É bom abrir o relacionamento?

Essa pergunta, quando é feita, carrega um subtexto que pergunta "serei mais feliz (ou menos insatisfeito) que na monogamia se eu abrir meu relacionamento?"

A resposta é "não". Pelo menos, não necessariamente e a resposta não é a mesma para todos, pois há diferentes tipos de personalidades e necessidades.

Em matéria de gerenciamento de desejos existe quem os sustentam baseado em diversidade, frescor, experimentação, volatilidade e existem outras que preferem (por mais que pareça estranho para os primeiros) previsibilidade, constância e permanência.

O primeiro grupo pode ver na monogamia um certo asfixiamento, um tipo de claustrofobia existencial, como se os monogâmicos estivessem perdendo tempo ou a chance de conhecer gente nova. Mas exatamente no que são criticados os monogâmicos veem um certo prazer e sentimento de segurança. A mudança e a diversidade lhes causaria mal-estar, ansiedade, conflitos de interesse insuportáveis.

Por outro lado, o que os monogâmicos criticam em quem experimenta relacionamentos abertos e o poliamor, que chamam de putaria, falta de vergonha na cara, insaciabilidade com conexões rasas e fúteis, para esses isso é um tipo de vida mais serena, sem prisões emocionais, algo que garante que sua vida e seus desejos tenham livre movimento, expressão, já que o amor seria um tipo de pássaro que pode e deve voar para onde sua vontade desejar. Longe de uma conexão rasa, eles acreditam que há muita profundidade em tentar não aprisionar outra pessoa em regras, restrições e determinações politicamente corretas.

Portanto, não me parece ser uma questão de bom ou ruim, mas de estar de acordo com seus valores e personalidade ou não. Para alguns funciona ter um relacionamentos com mais de dois elementos, seja no campo afetivo ou sexual e para outros isso é inviável.

E tudo bem, ninguém está errado.

Quando abrir o relacionamento?

Para muitos casais, a escolha de abrir o relacionamento surge de uma crise do relacionamento. Eles entendem que a dinâmica da relação só está sendo afetada pelo modelo monogâmico e que, se abrissem o desejo e o movimento para qualquer outro caminho possível, isso seria uma libertação.

Isso soa um pouco ingênuo, pelo menos em muitos casos que acompanhei de perto.

O desejo de controle, restrição, possessividade e submissão encontrou na monogamia um prato cheio para se manifestar, mas isso não é exclusividade da monogamia. Esses são atributos que se ancoram em personalidades mais obsessivas, ansiosas e controladoras. E elas podem estar num relacionamento aberto atuando da mesma maneira.

Existe um mecanismo de defesa muito sofisticado chamado formação reativa, que é quando uma pessoa age externamente no oposto daquilo que seu impulso direciona.

Imagina alguém que, para enfrentar o medo, passa a agir de modo destemido, mas que vai a limites extremos que acaba gerando tanta agitação quanto o medo inicial. Essa contrafobia é muito comum em quem quer viver a liberdade ou o amor ao próximo e fica obcecado pela vivência dessas virtudes de uma maneira agradável externamente, porém internamente aflitiva. O impulso original não foi olhado com calma.

Isso quer dizer que uma pessoa pode recorrer a um relacionamento aberto na esperança que o modelo a faça ser desapegada e menos controladora, mas na realidade ela só começa a controlar com mais sutileza três ou quatro dinâmicas estendidas de novos integrantes.

Quem dera fosse tão simples perder o medo de morrer pulando de paraquedas ou o desejo de controle trazendo mais gente para a festa.

Poliamor é a verdadeira liberdade?

Precisamos definir o que é liberdade. Se é a capacidade de viver os próprios impulsos sem nenhuma restrição social, então sim, o poliamor é uma bela iniciativa de exercitar essa dicotomia entre desejo individual versus demandas sociais.

Mas se é um exercício constante de expressividade e perda de condicionamentos no gerenciamento de escolhas (com seus critérios internos mutantes) e seus múltiplos paradoxos, então o poliamor e os relacionamentos abertos são uma das vias para essa liberdade, mas a monogamia também. Por incrível que pareça, também é possível viver liberdade na monogamia.

Seria como dizer que uma pessoa presa na cadeia não pode exercer liberdade se comparado com uma pessoa não presa. Quem caminha pelas ruas "livremente" pode estar mais presa que outra que tem seus movimentos físicos limitados, assim como alguém que anda e se move pode estar mais preso que um cadeirante ou tetraplégico.

A liberdade não está condicionada a algum tipo de mobilidade física, financeira ou amorosa.

Por esse motivo, a escolha filosófica por relacionamentos que não se restrinjam a uma dupla não encerra a questão do exercício da liberdade, do apego e do sofrimento. É preciso muito mais.

A desvantagem para a mulher

A maneira com que homens e mulheres são educados na nossa cultura passa por um viés que condiciona as mulheres a fundirem amor e sexo numa unidade emocional indissociável. Mas para os homens isso não necessariamente acontece.

Um homem típico vê como algo completamente possível, amar e desejar várias pessoas. Ainda que essa possibilidade esteja potencialmente disponível para as mulheres, pelo olhar da sociedade repressora parece inviável e contra os valores morais diluir e dissociar desejos, de sentimentos e relacionamentos. É um condicionamento tão arraigado que muitas mulheres se debatem internamente quando tentam se descondicionar.

Nesse cenário é que parece ser um grande problema quando um homem propõe/impõe o relacionamento aberto para uma mulher que não se vê em condições para compartilhar e variar o leque de possibilidades emocionais e sexuais.

A nova "brincadeira" soa abusiva para a parceira (e às vezes é mesmo, quando não há pleno consentimento da mulher) que muitas vezes cede ao pacto de fidelidade para poder manter a relação.

Muitas mulheres não se sentem em condições para isso – o que é um direito legítimo – e abrem mão para seguir numa onda de aparente evolução da relação. Quem usufrui nesse caso da relação aberta é o homem enquanto a mulher segue aflita e acuada na relação – aberta para ele e fechada para ela – amparada na crença de que é o modelo amoroso que estaria causando um problema na relação.

Para concluir, Uniamorosa, a realidade é que não importa se essa é uma maneira melhor ou pior de se relacionar. É uma questão de gosto, experimentação, capacidade e estilo de vida. Há quem se adapte e há quem não. 

No seu caso, parece que isso se tornou inviável para você. Agora cabe refletir se isso é realmente compensador. O poliamor é só mais um modelo de se relacionar. Não é para todos, então, cabe a você descobrir se isso se encaixa na sua vida e decidir se o seu espaço de crescimento psicológico se amplia ou diminui dentro dessa relação.


publicado em 28 de Janeiro de 2016, 19:41
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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