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Sobre a efemeridade da informação

Vamos combinar, quem nunca sonhou em fazer mais coisas em menos tempo?

Todos aqueles livros empilhados na mesa, esperando para serem lidos. Aquela sensação de que todo o conhecimento que tanto deseja está ali, descansando em algumas centenas de páginas.

Finalmente saber tudo o que Stephen Hawking quis dizer nas 256 páginas de “Uma Breve História do Tempo”, sem precisar se arrastar pelo denso conteúdo do livro. Saber se um livro é realmente melhor que o filme ou entender a teoria do debate através das palavras de Aristóteles.

Sem falar naqueles vídeos no Youtube, aulas fantásticas filmadas em universidades de renome, conteúdo repleto de conhecimento que eu tanto gostaria de ter, mas que é coisa demais para assistir tudo.

Não se preocupe, para tudo isso existe um “hack”, uma forma de cortar o esforço pelo meio e garantir que você acesse tudo disponível em metade do tempo, com mais agilidade e sem perder nada.

Bem, pelo menos é o que querem que você acredite.

Como algumas pessoas querem ler

Quando eu era mais novo, ser hacker era sinônimo de aprofundamento, de saber tanto sobre algo, que novas possibilidades surgiam dentro de um cenário aparentemente limitado.

Hoje, para muita gente, a palavra se tornou sinônimo de superficialidade, de colecionar o máximo de informação sem o mínimo interesse de aprofundamento.

A quantidade afeta diretamente a qualidade

Esse debate surgiu de uma conversa com vários amigos que adotam técnicas para conseguir executar cada vez mais coisas em menos tempo. Eles não leem um livro inteiro ou um texto sem pular linhas. Correm o texto com a visão em busca do conteúdo que consideram necessário ignorando enormes blocos de texto de uma só vez, desconsiderando o que acham irrelevante. 

Eles só querem o grosso, a informação vital.

O mesmo fazem com vídeos, audiobooks, podcasts. Aceleram a velocidade de reprodução para até duas vezes, consumindo o mesmo conteúdo na metade do tempo. Olhando assim, parece uma boa ideia, mas como dizem por aí, não existe almoço grátis.

Um livro, independente do assunto que trate, é um percurso completo. Ele conecta uma ideia através de uma linha de raciocínio, um fio condutor que guia o leitor pela compreensão de um contexto. É possível que ao passar os olhos por um texto, o leitor encontre a ideia geral e acabe não concordando com ela, mas que, ao ler toda trilha do raciocínio, essa conexão mude e sua opinião seja diferente. É bem comum que ao ler rapidamente, o leitor não entenda uma ironia apresentada, escondida apenas por uma palavra ou pontuação estrategicamente escolhida.

Aos leitores rápidos, quando foi a última vez que você se pegou questionando o motivo de um autor escolher determinada palavra para explicar um contexto? Isso pode fazer toda diferença.

Em aulas, palestras, vídeos ou áudios, a perda de nuances se torna ainda mais sensível. Muitas vezes o que não é dito é tão importante quanto as palavras escolhidas.

Steve Jobs era conhecido por saber utilizar muito bem o espaço entre uma colocação e sua conclusão, a pausa ideal para você se questionar, entrando no estado mental necessário para que a experiência faça sentido. Em conversas e diálogos, até um leve gaguejar pode mudar a força de uma frase ou a maneira que aquilo impacta em nossa associação do conteúdo.   

O que notamos ao observarmos essas tentativas de acelerar alguns processos, é a perda parcial não apenas da experiência, mas uma limitação na retenção do conhecimento.

Consumimos cada vez mais informações que não lembraremos daqui uma semana.

Você não precisa ler tudo o que existe

O argumento mais comum é que existem coisas demais para consumir. Textos interessantes, artigos da faculdade, notícias, livros, podcasts, filmes e documentários. A lista de conteúdo disponível não para de crescer. Todos somos vítimas desse enorme ruído de informação que a internet nos trouxe, mas o segredo é: você não precisa consumir tudo que é apresentado.

Muito dessa vontade de consumir a maior quantidade de informação possível vem de uma síndrome moderna já conhecida, o FOMO (Fear of Missing Out), basicamente o medo de estar por fora das novidades.

O consumidor assíduo por informação cria uma dependência, um vício em saber tudo sobre os assuntos que estão pipocando no momento. Lê as novidades tecnológicas, as decisões do escândalo de corrupção, tem opinião sobre as últimas políticas aplicadas ou quantos pontos a Petrobrás bateu ao fechar.

Em geral, essas informações não possuem impacto algum na vida da pessoa, é apenas um vício em se sentir por dentro, em querer saber mais que os outros. É a urgência em se sentir melhor que alguém por saber algo que ele não sabe.

Uma das principais técnicas de produtividade que alguém pode usar, é saber dizer não para tarefas novas. Entender que você não precisa fazer tudo o que aparece, que novas oportunidades continuarão surgindo. A ideia é cortar o que não for realmente importante para o seu objetivo, dando espaço para se dedicar verdadeiramente ao que precisa.

Mesma coisa, só que sem pressa, entendeu?

O mesmo aplica-se ao consumo de conteúdo. Ao invés de consumir mais informação com menor qualidade, consumir menos coisas com maior grau de profundidade.

Há muitos anos, numa conversa com um diretor da empresa que trabalhava, essa lição veio de forma sutil. Na época eu era bastante orgulhoso por seguir centenas de sites e me saber tudo o que estava acontecendo. Enquanto eu discursava sobre os novos rumos da tecnologia, ele riu e disse: “Você precisa parar de consumir informações voláteis, é melhor focar em conhecimento concreto”. No dia seguinte ele me presenteou com um livro de história e disse: “Nada que esta aí mudou, entenda isso e entenderá o resto”. 

Minha visão não mudou do dia pra noite, mas passei a enxergar que notícias e informações são ruídos, que pouquíssimos eventos podem afetar nosso cotidiano de fato. São milhares de notícias para que uma faça real diferença. Passei a ler cada vez menos notícias, acompanhando quase nenhum blog. Em geral, acabo consumindo conteúdo que recebo em indicações de amigos, o que serve como um razoável filtro de qualidade. Entretanto, nem sempre leio tudo que recomendam, é possível passar um dia inteiro ocupado se formos ler todo conteúdo que alguém nos manda. 

O mundo está cada vez mais conectado, com mais informações e com mais pessoas motivadas a gerar conteúdo. É clara e sedutora a sensação de que podemos ter mais informações, saber mais e nos tornarmos mais inteligentes. O problema está em nos contentarmos apenas com informações superficiais, criando enormes falhas no nosso conhecimento. Sabemos pouco sobre tudo, e menos ainda do que sabemos pode ser aplicado em algo.

Lemos dezenas de notícias de mortes diariamente, rapidamente criando uma aura de medo em torno do mundo. Se sabemos que alguém foi assaltado em nosso bairro, acreditamos que estamos mais seguros por isso, o que de fato, não é verdade. Assaltantes também agem sobre quem lê notícia. Reagimos chocados ao colapso da bolsa de valores, mesmo sabendo que um dia, por pior que seja, representa uma amostragem marginal no andamento de um investimento. Alguns acontecimentos podem mudar a forma como as coisas funcionam, como a crise de 2008 ou o ataque às torres gêmeas em 2001, mas você não precisaria ler sobre isso no jornal pra saber que aconteceu.

Inventamos as melhores desculpas que temos para justificar um consumo desenfreado de informação. Precisamos saber o que está acontecendo no mundo, os empregos exigem que esteja atualizado, as provas cobram conhecimentos gerais e por aí vai. Tudo isso é apenas parte de um jogo maior, o jornalismo, te convencendo que você só é relevante se souber o que eles dizem.

Consumir tudo o que nos é apresentado de forma rápida e acelerada, sem buscar algum aprofundamento, é apenas parte de um sintoma maior. Estamos cada vez piores em parar, nos concentrar verdadeiramente numa tarefa.

Não conseguimos ver um filme sem sacar o celular do bolso para ler o Whatsapp ou assistir um vídeo do Youtube sem pular pedaços até o ponto que parece mais relevante. Em resumo, não conseguimos fazer nada sem interromper nossa atenção a cada 5 minutos.

Para isso, não tem outra saída, ou nos disciplinarmos a buscar conteúdos mais profundos e estimular nossa capacidade de foco, ou nos tornaremos cada vez mais rasos, com muita informação e pouco conteúdo.


publicado em 12 de Maio de 2015, 15:44
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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