Star Wars: de uma narrativa masculina para uma narrativa feminina

A franquia que definiu as bases para o cinema blockbuster nos apresenta mais um capítulo, fiel ao seu legado, mas em diálogo com o nosso tempo.

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A Jornada do Herói, esquematizada pelo professor Joseph Campbell, é o esqueleto de uma narrativa universal que serve de estrutura para o roteiro dos filmes da franquia Star Wars (e para a maior parte das narrativas humanas). O personagem que vive em um mundo limitado, descobre que existem realidades muito além da sua e, guiado por um mestre, parte relutante em busca de uma aventura, faz amigos, encontra seu nêmesis, vive um processo interno de auto-descoberta, enfrenta seus medos e retorna transformado.

As três trilogias da franquia Star Wars mostram a jornada de três personagens: Luke Skywaker (nos episódios IV, V e VI que foram produzidos entre o final dos anos 1970 e o início dos 1980), Anakin Skywalker, pai de Luke, também conhecido como Darth Vader (nos episódios I, II e III produzidos entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000), e Rey (nos episódios VII, VIII e IX, que vão fechar o ciclo em 2019). Enquanto as duas primeiras trilogias tem protagonistas masculinos e debatem questões como a relação pai e filho (mestre e discípulo), herança, legado, guerra, certo e errado, a nova trilogia é liderada por uma mulher sem laços com os outros personagens da saga (pelo menos até onde sabemos…).

E isso muda tudo.

O empreendedor social Colin Strokes, em uma fala em 2013, comparou Star Wars (episódio IV de 1977) e o Mágico de Oz (de 1939). As duas narrativas seguem o modelo universal da Saga do Herói para seus protagonistas, mas com diferenças profundas. No Mágico de Oz, além de Dorothy, sua mentora (a Bruxa Boa do Norte) e a vilã (a Bruxa Má do Leste) são todas mulheres. Em Star Wars, tirando a princesa Lea, todos os personagens são homens. Enquanto Luke deve trilhar seu caminho solitário do guerreiro Jedi, Dorothy faz amigos (inclusive entre seus antagonistas) e ajuda a transformar a vida de todos para melhor.

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Ainda que o conflito seja a mola propulsora para qualquer narrativa, a comparação entre os filmes nos mostra a diferença entre um mundo que privilegia o combate e a violência e outro que privilegia o diálogo e a compaixão. E são essas narrativas que vão naturalizando e legitimando nossas escolhas (essa é a função da mitologia). Para Strokes, precisamos de mais narrativas como a do Mágico de Oz, que apresentam modelos de liderança construtiva e compassiva, diante de um mundo global marcado pela diversidade. E aí voltamos para a nova trilogia de Star Wars.

Tanto Anakin quanto Luke, e agora Rey, são considerados “escolhidos”, especiais de alguma maneira. O “poder” dos três personagens é uma habilidade inerente, uma conexão intensa com a Força. Já o tal equilíbrio que eles prometem depende do contexto. Enquanto Anakin se transforma em Darth Vader e aumenta a influência do lado sombrio da Força, Luke reforça o lado luminoso, mas ambas as posições são opostas. O equilíbrio em uma balança pode ser tanto a distribuição igual de peso nas pontas ou a concentração do peso no centro. E tudo indica que Rey é esse centro.

Em 1990 Maureen Murdoch escreveu a Jornada da Heroína. No livro ela repensa o monomito de Joseph Campbell e o adapta a partir dos dilemas e conflitos específicos das mulheres diante de um mundo que é moldado pela experiência masculina. Nesta saga feminina a primeira fase é adotar o modelo masculino, se inebriar na ilusão de sucesso e fracassar. Em seguida a heroína se encontra com a “deusa”, se reconecta e se reconcilia com sua essência feminina, e então reincorpora o masculino e une as duas pontas.

Essa união é a diferença entre o caminho dos Skywalker e o caminho de Rey. Luke que agora é o mentor dela, já entendeu que a tensão entre lado sombrio e lado luminoso não tem futuro. A Força conecta tudo e por isso ela é um elemento de igualdade e não de diferença. Quando Rey compreender a extensão de sua conexão com a Força, a história pode mudar de jornada do herói para jornada da heroína. Se a Força é a “deusa” compassiva que pode reconectar Rey com a sua essência feminina, os próximos passos da saga serão então a reconciliação com o masculino e a união entre essas duas essências, o que pode descortinar um futuro não mais utópico, mas sim possível. Pelo menos essa é a minha aposta para o desfecho dessa magistral ópera espacial!

Que a Força esteja com todos vocês!

PS: Depois que assistirem o episódio VII - Os últimos Jedis, comentem aqui!

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Esse texto faz parte da parceria editorial entre o PapodeHomem e os Quadrinheiros. Estamos publicando dois artigos originais por mês, pra você, sempre às sextas-feiras, mas quem quiser mais é só conferir o site e o canal no Youtube deles. Vale.


publicado em 24 de Novembro de 2017, 00:05
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Mauricio Zanolini

É tão apaixonado por quadrinhos que tem até identidade secreta - Picareta Psíquico. Com os Quadrinheiros tem blog, canal e podcast . Também escreve sobre educação no blog da Universidade Livre Pampédia.


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