Surf: o gordo criado pela avó virou fortão e corajoso

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Para um moleque gordo criado pela avó em apartamento, o surf era algo de outro mundo. "Coisa de fortão e corajoso", como costumava dizer a velha. Eu não poderia imaginar que pouco tempo depois ele mudaria completamente a minha forma de ver o mundo e, com isso, a minha vida.

O ano era 2007. Eu tinha 13 anos e estava cansado de ser o menininho da vovó. Ter que me espelhar nos pais de amigos para tentar aprender um pouco de como era a vida também já estava começando a me deixar puto.

Devidamente matriculado, lá estava eu: lycra amarela colada com o logo da prefeitura e um long board que mais parecia uma canoa. Logo no começo do aquecimento eu pensei em desistir. Talvez minha vó tivesse razão, talvez nada daquilo fosse para mim, que meu lugar era mesmo no sofá comendo bolacha, mesmo sabendo que tinha coisa muito melhor por aí.

Fora da minha caverna só existe o mundo todo

Resolvi aguentar, pelo menos no primeiro dia eu tentaria aguentar até o final, mesmo que fosse o primeiro e último. Tinha acabado de aprender uma das primeiras lições que todo homem deveria saber e praticar. A de que não se colhe sem plantar. Percebi que o surf não era só um esporte.

Continuei frequentando as aulas na esperança de que, um dia, todo aquele esforço valesse a pena. Ser o único da turma a não conseguir ficar de pé na prancha, e pior, não conseguir nem mesmo realizar dez flexões não era lá muito agradável, era um soco no estômago para acordar aquela criança mimada. Aprendi pouco tempo depois que sair da zona de conforto era o melhor para progredir e logo após, chegar a um patamar melhor do que o anterior. Eu tinha me apaixonado por aquele esporte.

O que eu podia aprender nas aulas eu já tinha aprendido, o resto era prática, ou melhor, caldos. Nada melhor do que ficar alguns segundo debaixo d'água para aprender a não subestimar nada e ninguém. Em momentos de pânico e de "morte iminente", eu vi que sempre havia uma luz no fim do túnel, ou melhor, um ar na superfície. Tinha prometido para mim mesmo que cada centavo que entrasse seria guardado para a aquisição da tão sonhada Prancha Própria, aquela que me levaria para outras dimensões e me ensinaria grande parte do que eu precisava para crescer e virar um homem.

Em 2008 eu dropei uma onda que eu nunca mais esqueceria: eu não só havia ficado de pé pela primeira vez, mas fiquei de pé como um homem. Eu me sentia na cabeça do Cristo Redentor, o cara mais foda da porra do mundo inteiro. Não tinha sido fácil, em muitos momentos não havia sido divertido, mas lá estava eu, em cima da "bóia", dropando aquela onda de um metro, mas que para mim não tinha menos que 10. Tudo tinha valido a pena, eu poderia para naquele instante que eu me sentiria realizado, afinal, não era esse o objetivo? Eu tinha me libertado das asas da minha avó, aprendido a me comportar como homem na marra e ainda de quebra, eu sabia surfar! Eu iria parar.

Parecia que toda a minha felicidade vinha da nova habilidade esportiva. Até eu acreditei nisso. Muito tempo se passou para que eu entendesse que aquela felicidade era de quem tinha aprendido a viver melhor. As lições aprendidas na água estavam começando a se refletir na minha vida. A auto-estima estava lá em cima, as dez flexões já eram fáceis e 2009 tinha acabado de começar. "Esse vai ser meu ano."

Link YouTube | É ali que eu quero chegar

Ainda cursando o primeiro ano do ensino médio, resolvi buscar cursos técnicos e um trabalho. Dinheiro é a forma mais fácil para se chegar à onda perfeita. Eu sabia que teria que abdicar de muitas tardes na água, mas um dia valeria a pena. A cada não que eu ouvia a vontade de ir para água ficava mais forte, e com ela, a vontade de crescer na vida. A curto prazo, eu estava dando um tiro no meu próprio pé. Precisei da coragem adquirida na água que é necessária para dropar a maior da série. Ela nunca me abandonou.

Hoje em dia eu surfo, com sorte, nos finais de semana. As lições que várias bombas na cabeça me ensinaram são minhas estrelas guias. Elas me levaram até meu emprego e ao meu curso técnico já concluído. Me orgulho deles e devo tudo isso ao surf.

Estou terminando o colégio esse ano. A busca por uma melhor condição financeira e espiritual é meu novo surf. Quero surfar as ondas da vida com a intensidade que encarei as do mar. Embora dessa vez as vacas serão maiores e mais perigosas, meu esporte me ensinou que sempre há o ar na superfície esperando por você.

"Fortão e corajoso é na verdade no que o surf pode te transformar, vó!" Eu tinha descoberto o segredo.


publicado em 02 de Setembro de 2011, 12:08
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Gabriel Birkett

Mora em São Vicente, litoral de São Paulo. Estudante, assessor parlamentar e curioso. Gabriel busca poder terminar sua passagem pela Terra à procura da onda perfeita. Sorte dele que sonhar é de graça.


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