Torcidas organizadas e fanatismo estão matando nosso futebol

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"Todos agora entendem. Se esse caos criado pelos fãs não se encerrar, ele decretará o fim do futebol em nosso país."

Prova de fogo. Em que ano e país essa frase foi proferida? A resposta vem ao fim do artigo.

O terror das organizadas não tem cara
O terror das organizadas não tem cara

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Houve 30 mortes relacionadas à violência no futebol no Brasil em 2013. Trin-ta. Um grotesco e histórico recorde.

O mais alarmante é o crescimento dessa estatística. Entre 1999 e 2008 tivemos 42 mortes, somadas. Só em 2012 foram 23.

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Paulo Ricardo Gomes da Silva foi morto por uma privada arremessada das arquibancadas do estádio, na partida entre Santa Cruz e Paraná pela série B do campeonato brasileiro. Paulo nem mesmo torcia para o Paraná, era membro de uma torcida organizada do Sport. Ele estava lá com uma missão: tirar fotos da torcida rival, ao que parece, tarefa na qual organizadas aliadas se ajudam.

Na saída, seu grupo foi emboscado, a Polícia tentou intervir, mas não foi capaz de prever o ataque aéreo. Três vasos sanitários foram arrancados do anel superior do estádio e arremessados. A queda de vinte e cinco metros fez com que as privadas atingissem seus alvos com uma força de 350kg.

Missão, rivais, aliados, emboscadas, feridos e morte. Soa como relato de guerra porque é um. Os vasos voadores não surgiram agora. A arma vem sendo usada desde o ano passado. E esse cenário de selvageria não é privilégio do Nordeste.

Só nesse ano: a sede do Corinthians foi invadida; a do Remo, com rojões; Fred, capitão do Fluminense, teve o carro atacado por torcedores; Barcos, capitão do grêmio, foi ameaçado após a eliminação de seu time da Libertadores; um torcedor do Santos foi espancado até a morte num ponto de ônibus.

Essas são as que me lembro, há tantas outras ocorrências que me escapam e mais ainda que sequer foram registradas.

As torcidas organizadas se tornaram celeiros do terror esportivo. Ainda que nem todos seus membros ajam dessa maneira, todos parecem corroborar com uma cultura de violência. O presidente do Cruzeiro, Gilvan de Pinho Tavares, proibiu o uso da marca celeste pelas organizadas, por conta das constantes sanções impostas pelo STDJ. As organizadas não apenas torcem, são também negócio, comercializam produtos dos times que representam. Gilvan demonstrou entusiasmo com a medida:

Nos jogos normais no Mineirão, o Cruzeiro tem, em média, R$ 1,5 milhão de renda. Quando nós jogamos fora essa arrecadação cai para R$ 400 mil, assim mesmo com ajuda de prefeituras, porque senão seria ainda pior. Pessoas que se dizem cruzeirenses estão causando estes prejuízos ao Cruzeiro.

A carta-denúncia de Fred

Fred perdeu a paciência, com total razão
Perdeu a paciência, com total razão

Muitos dos times, pasmem!, mimam esses fanáticos com ingressos garantidos e transporte para os jogos, como exposto por Fred em sua carta, após a última violência sofrida:

Após o "recado" dado no último fim de semana - quando um bando de marginais, travestidos de torcedores, foi para a porta das Laranjeiras ameaçar os jogadores do time -, o futebol brasileiro está prestes a viver mais uma tragédia anunciada nesta quinta-feira, caso o Fluminense não elimine o Horizonte pela Copa do Brasil. Sábado passado, ao sair do meu trabalho, me deparei com cerca de 20 desocupados rodeando meu carro em cima do passeio, praticamente dentro do clube. Os cinco seguranças do time até tentaram conter a fúria desses bandidos… Mas foi em vão!
Minha reação, e única defesa, foi acelerar o carro, mesmo correndo o risco de machucar quem estivesse na frente, tendo em vista que começaram a bater no vidro e na lataria do meu veículo. Pra completar, quase provoquei um acidente, pois vinha um caminhão e não vi. Graças a Deus, nada de mais grave aconteceu.
Fui embora indignado, revoltado, pensando se realmente vale a pena tanto esforço e dedicação diários para esse clube que aprendi a respeitar e a gostar. Só no domingo me dei conta de que apenas 20 pessoas (geralmente, as mesmas) estavam matando a minha vontade de dar alegria a milhões de torcedores de verdade, aqueles que vibram com as conquistas e sofrem com as derrotas, mas sem partir pra agressão, pois entendem que nem sempre é possível vencer. Em 2011, vivi uma situação parecida aqui mesmo no Fluminense e, desde então, optei por não aceitar esse tipo de intimidação.
Esse bando de à toa deveria se reunir para protestar contra a falta de segurança pública, educação, saneamento básico, saúde… Ameaçar não trabalhadores e pessoas de bem como eu, mas, sim, os políticos COMPROVADAMENTE corruptos. Eles prestariam um serviço muito maior à sociedade. Mas, em vez disso, surgem do nada às 15h30 de uma quinta-feira - como ocorreu na semana passada - para xingar atletas. Isso quando não conseguem o número do telefone dos jogadores e ficam mandando mensagens com ameaças de morte.
Quantos "Kevins" ainda terão de pagar com suas próprias vidas? Quantos centros de treinamentos terão de ser invadidos? Mais quantos inocentes terão de ser espancados até a morte? Ou será que somente quando um jogador for espancado alguma providência mais enérgica e eficaz será tomada contra esses bárbaros? Ficam as perguntas.
O esvaziamento dos estádios de futebol não pode ser uma mera coincidência. As bandeiras que antes tremulavam nas arquibancadas, hoje se transformaram em armas brancas nas mãos desses bandidos.
Quando a imprensa publica tais atos de agressão e vandalismo cometidos pelas organizadas, essas matérias são exibidas entre elas como troféus e, quem os pratica, são tratados como “heróis” internamente.
O enfoque deveria ser outro. É preciso questionar os prós e os contras dessas facções, que exploram de maneira ampla a imagem dos times sem pagar royalties; são as principais responsáveis pelas mortes nos dias de jogos e perdas de mandos de campo por seus times; possuem marginais infiltrados; afastam os verdadeiros torcedores dos estádios; e que, por fim, ganham ingressos e até transporte gratuito das diretorias da maioria dos clubes, que insistem em manter uma relação obscura com esse tipo de organização.
Resumidamente, na minha opinião, os integrantes de torcidas organizadas não tem direito sequer de reclamar quando o time perde – tendo em vista que nem ingresso eles pagam –, quanto mais de agredir ou intimidar jogadores. Ser membro de torcida organizada no Brasil já virou profissão, meio de vida. Há casos de presidentes de facções que se elegem ou conseguem cargos políticos. Lutarei com a arma que tenho. Por isso, a partir de hoje, as comemorações dos meus gols não serão mais para as torcidas organizadas.
Meus gols serão dedicados exclusivamente aos verdadeiros torcedores do Fluzão, a não ser que a lei seja mais rigorosa ou os responsáveis por essas facções revejam o papel que elas deveriam exercer, que é apoiar o time do coração incondicionalmente, principalmente nos momentos de dificuldade, pois é quando mais precisamos de incentivo.

Suponho que a lógica desses mimos seja garantir presença constante e aguerrida da torcida, encorajando os próprios atletas os torcedores "comuns" e pressionando com os rivais com a força de sua massa. O raciocínio tem certa coerência, por incrível que pareça. Os britânicos chegaram a realizar uma pesquisa na qual comprovaram-se os benefícios da presença dos hooligans para os resultados das equipes apoiadas. Mas só no curto prazo.

No longo, a violência é devastadora. Além do sofrimento direto causado às vítimas, afasta os torcedores leais e os novos, esvazia os estádios, dá prejuízos financeiros severos e aumenta a necessidade de policiamento, instalando um clima de medo e insegurança que contamina a todos.

A tragédia de Heysel

O dano causado pela permissividade com as organizadas pode ir bem além do imaginável.

Pesadelo na década de 80, o auge dos hooligans ingleses foi a tragédia de Heysel, na Bélgica. Era a final da Taça dos Campeões de 1985, entre Liverpool e Juventus. O conflito pós-partida teve 39 mortos e quantidade indeterminada de feridos. Os hooligans foram considerados culpados, o que fez com que as equipes britânicas fossem impedidas de participar de competições européias por cinco anos.

Será que estamos à espera de nossa tragédia para realmente agir?
Será que estamos à espera de nossa tragédia para realmente agir?

Hoje as ocorrências relacionadas a hooligans despencaram e a reviravolta inglesa se tornou referência. As razões são variadas:


  • leis mais duras,

  • banimento do álcool em jogos de futebol,

  • banimento dos cantos racistas,

  • banimento permanente dos torcedores problemáticos, que são proibidos para sempre de retornarem aos jogos,

  • maior policiamento e revista na entrada,

  • estádios mais modernos, com melhores sistemas de segurança e monitoramento,

  • aumento no preço dos ingressos,

  • eliminação das arquibancadas – com todos sentados, as chances de confusão caem,

  • crescimento da própria base de torcedores – nenhum time quer ver sua torcida potencial diminuindo ou deixando de ir aos jogos por conta das organizadas,

  • e, por fim, um amadurecimento social amplo.

Torcidas organizadas são os hooligans que são os barra bravas que são qualquer outro grupo de fanáticos torcendo por times em qualquer lugar do mundo. Não há diferença. Para o bem do esporte, devem ser banidos e ponto. Quero poder entrar num jogo de futebol no qual famílias, crianças, pais, mães e amigos estejam se divertindo, apreciando um espetáculo e confraternizando, não prestes a matarem com pedaços de pau e vasos sanitários.

A frase lá no começo veio do jornal russo Sport Express, ano passado. Diante da repetidos episódios violentos em jogos de futebol, oficiais russos pediram ajuda aos amigos britânicos, querem aprender com eles como eliminar a ameaça. Gol de placa.


publicado em 06 de Maio de 2014, 20:04
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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