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Transtorno de relacionamento pós-traumas | Do Amor #36

Relações difíceis que vão causando medo nos novos encontros

Sabendo dos calores matinais dela, estava se acostumando com a ideia de presenteá-la, sempre que pudesse e cedo, com estímulos por dentro do shortinho do pijama. Lhe era um fato relativamente novo, já que, em seu último relacionamento, o combinado era o de não acordar sua companheira em hipótese alguma antes do meio-dia. Mas com ela, agora, todo um leque de possibilidades estava às ordens.

Ela dizia gostar de acordar com as brincadeiras dele. Parecia que sua pele ficava mais adesiva, predisposta. Despertava com pequenos espasmos do toque dele, percebia a progressão veloz do corpo em pleno descanso para um estado de agitação e ansiedade que só o sexo dava. Depois era um banho bom e o dia todo à frente para render.

Mas não naquele sábado. Na, verdade, já tinha umas semanas em que a vontade faltava. O novo namoro ia de vento em popa, estavam bem discutindo música e política em longas conversas, passaram boa parte da noite ouvindo o A Night in Tunisia, ele xingando a dinâmica impecável na bateria do Art Blakey, ela "Fora Temer" e mãos com sorrisos na mesa, no sofá e na cama. Mas no sexo estava seca, nem um pingo de intenção de se entregar à putaria e, depois de umas duas tentativas de trepar meio sem vontade, preferiu negar. Quando surgiu-se para fora do sono, pediu para ele parar. "Não, não tá rolando assim". Ele perguntou se estava tudo bem e ela assentiu que sim com a cabeça. "Só não estou no clima agora. Acho que meio cansada ainda". Ganhou, ao contrário do que presumia, um sorriso e uma passada dos dedos dele no canto do olho, um que puxou um restolho de cabelos para atrás da orelha. "Então vou tomar um banho e a gente vai comer alguma coisa. Vai pensando aí no que quer. Hoje é por minha conta". Desceu da cama e rumou para o banheiro.

Sozinha no colchão, botou-se a remontar mentalmente os eventos dos dois últimos meses, entre o conhecê-lo e agora, esperando que ele saísse do chuveiro. Antes disso, havia jurado para si nunca mais entrar de cabeça em relação alguma, que já não compensava mais despender energia com o que estaria fadado ao fracasso. Namoros não davam em nada, ou melhor, causavam o acúmulo de abalos. Exigências, autocentramento, ciúme, compromisso e parceria sendo deturpados para cobrança e grudes, ofensas e a beirada da violência. Não havia motivo para embarcar em alguma dessas de novo. Mas os últimos sessenta e tantos dias tinham sido dos mais aprazíveis, de uma segurança que era até de assustar.

E assustou.

De repente ela se viu sentada naquele quarto calmo e bem iluminado com o sol das dez esparramado no chão e na cômoda. Espaçoso e limpo. Grande demais. Sozinha. Em silêncio. Muito ar lá dentro e ela começou a pensar se daria conta de respirar tudo aquilo de uma vez. Os pulmões perderam o ritmo e a palma das duas mãos começaram a suar. Que quarto gigante. Passou a achar que não conseguiria, nem com todos os esforços físicos que seu corpo poderia ter, sair daquele cômodo imenso. Como é que pode ele simplesmente aceitar que ela não queria transar? O normal é dar em briga, alguém forçar o sexo, cara feia, jogar na cara que vai bater uma punheta, a ameaça de que, qualquer dia, alguém na rua pode estar mais interessada e, daí, já viu, né. Essa quietude dele ia dar em merda, a passividade com que aceitou o momento dela não era mais que desgraça armando mola para ser lançada num momento pior. 

Sentiu o arder gelado no lábio inferior e quis dar murro na parede para suprimir a dor. Enquanto tentava limpar as mãos no lençol, preocupada com as manchas da transpiração fazendo marcas escuras, foi puxando pequeninos pedaços de pele seca da boca até que uma fisgada foi mais funda e, junto, saiu sangue e um machucado que levaria dias para cicatrizar. Ele ia voltar com alguma demanda, qualquer esculhambação. Era disso que se tratava o sossego em demasia daquela manhã.

Fresco da ducha e com os cabelos molhados e penteados para trás, ele voltou para o quarto procurando uma bermuda dentro do guarda-roupas e foi perguntando, "e aí? decidiu qual vai ser o almoço de hoje? Com esse sol, a gente bem podia ir atrás de um peixe. Sei que você adora camarão".

"Para de falar besteira!", ela revidou. "Isso não vai dar certo. A gente vai ter que conversar. Eu tô pensando em terminar".

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publicado em 15 de Julho de 2016, 00:10
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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