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Um sentimento

Uma coletânea de momentos em que bate aquele sentimento.

Nota do editor: O Alberto Brandão é um autor velho de guerra na casa, mais conhecido por seus textos sobre produtividade e lifehacking, mas que também vem explorando uma veia mais literária por trás dos panos. Eu, Luciano, gosto bastante do que ele vem produzindo e resolvi compartilhar com vocês, não só os textos, mas o convite pra que acompanhem a série Um Sentimento no Medium dele.

Aqui vai uma pequena coletânea com alguns dos textos que ele já produziu por lá até agora.

* * *

Um Sentimento #1 — Aquela solidão matinal

Quem te acompanha quando acorda sozinho

​Abro os olhos assustado com o alarme estridente. Mal enxergo, mas já suspiro o fim do dia. Rolo pela cama, mas o lado frio me assusta. Me embolo na coberta e alcanço o telefone.

O brilho da tela machuca, mas guarda a esperança da presença. As poucas mensagens confortam, as fotos me trazem para a realidade, mas falta calor.

Não há motivos para fechar a porta do banheiro. Tampouco há motivos para deixá-la aberta.

Tudo meio tanto faz.

O copo toca a pia, o garfo bate no prato. O barulho interrompe a mente que busca conforto nos pensamentos.

A rotina segue meio apática, na marcha de quem faz porque tem que fazer. A vontade era voltar para cama, abraçar o travesseiro, respirar fundo e fechar os olhos.

Meu desejo agora era o abraço do sono.

Pego minhas chaves, guardo a carteira e saio pela porta. A solidão se despede, mas só até apagar as luzes no fim do dia.

Um Sentimento #2 — Aquela falta de foco no trabalho

Quando o trabalho não sai do lugar

Oito da manhã. Sentei na cadeira, liguei o computador e abri minha agenda. Tenho um monte de pequenas coisas para fazer. Nada muito difícil, só sentar e fazer.

Antes de começar, vou buscar um café. Que coincidência encontrar o Mário, precisava trocar uma ideia com ele.

De volta ao trabalho. Sento no computador, abro os documentos e começo a passar os olhos. Já sei, vou fazer uma lista de tudo que preciso fazer. Ah, nem é tanta coisa assim. Vamos lá.

Nossa, que fome. Vou comprar um pão de queijo.

Quase dez horas e ainda não fiz nada. Vai começar a acumular trabalho.

Preciso resolver isso, tenho que parar de enrolar. Tudo parece fácil e simples, mas ao mesmo tempo inalcançável. Agora vou, não posso me prejudicar por coisas tão bobas, pessoas dependem de mim.

Essa selfie até ficou boa, gostei do meu cabelo. Só recortar, ajustar o brilho e contraste. É rapidinho. O chefe mandou email cobrando as atividades. Já era. Vai atrasar.

Hoje não tá rolando. Vou perguntar onde o pessoal vai almoçar.

Chega, vou começar. Mas agora, só depois do almoço. São quase meio-dia. Agora não vai dar mais tempo mesmo, quando voltar eu faço.

Um Sentimento #3 — Aquele domingo não descansado

Quando o dia livre nos deixa mais cansado

Poucas coisas são melhores do que acordar tarde na manhã no domingo. O sol amarelado refletindo na janela, as folhas das árvores batendo ao vento e aquela preguiça gostosa de ficar na cama abraçado ao travesseiro.

Infelizmente preciso levantar um pouco mais cedo e arrumar a casa. O pessoal passou aqui em casa e a louça está toda na pia. Tenho que esfregar panelas e limpar o fogão. Vou aproveitar e passar pano no chão e tirar o pó dos móveis.

Depois disso não tem o que me tire de casa. Vou sentar no sofá, abrir uma cerveja e assistir um filme. Mas essa faxina deu a maior fome, tenho que cozinhar alguma coisa. Não tem carne e a coca zero acabou, vou precisar ir ao mercado.

Odeio fila, demorei mais de meia hora passando as compras. Vou aproveitar que estou na rua e passar no shopping, preciso de algumas coisas pra casa.

Impressionante como uma ida ao mercado pode virar horas de caminhada na rua. Finalmente em casa. Vou fazer comida, pendurar as prateleiras e instalar a persiana. Cinco da tarde, olha a hora que vou almoçar.

Terminando acho que consigo sentar um pouco e ler um livro. O domingo não está perdido.

Lembrei que preciso lavar roupas e limpar meu tênis para trabalhar amanhã. A pior parte é estender as roupas depois de bater, dá a maior preguiça. Enquanto a máquina bate vou responder uns emails e atualizar umas planilhas, tenho reunião logo cedo.

Que dor nas costas, o dia foi bem puxado. Vou separar a roupa de amanhã, arrumar minha mochila e ver se consigo descansar. Como assim? Já acabou o Fantástico?

É, quem sabe durante a semana eu não consigo descansar desse domingo.

Um Sentimento #4 — Aquela reunião que nunca acaba

Quando todo mundo trabalha, mas nada acontece

Faz 23 minutos que estou sentado vendo o Carlos mexer no celular. Zerei minha timeline do Instagram, respondi mensagens no Whatsapp e li as manchetes do G1.

A mesma reunião acontece toda semana, mas até agora só chegamos os dois. Ah, chegou a Chris. Aposto que ela vai começar a falar do carro novo. Gasto grande parte da reunião me questionando se não poderíamos resolver esses assuntos por email.

Vocês sabiam que BMW não tem estepe? A Chris acabou de contar.

Agora somos sete, está todo mundo aqui. o Jorge, responsável pela reunião, já até ligou o computador na televisão, mas estão discutindo o aumento da gasolina.

Acho que alguém que entra sorrindo numa sala de reuniões, não pode ser uma boa pessoa. O pessoal gosta de reunião porque é um jeito de parecer produtivo sem trabalhar de verdade.

Conseguimos avançar por uns 15 minutos, mas o Mário interrompeu para mostrar um vídeo que recebeu num grupo do Whatsapp. Agora já era, certeza que vamos atropelar a hora do almoço.

Jorge vai pedir pizza. Sabia.

— A gente tem que sair do outro lado.

— É, vamos pra cima.

— Tem que pensar fora da caixa.

— Vocês viram? Tem promoção de cerveja no mercado.

Um Sentimento #5 — Aquela conversa que não ouvi

Quando a voz da mente fala mais alto

Acho muito estranho entrar no carro de uma pessoa e não falar com ela. Não sei muito bem o que causa esse sentimento, mas fico inquieto nessas situações.

O motorista do Uber parecia cansado, devia estar dirigindo o dia todo. Acho que eu era sua última viagem.

— Vai até tarde ainda?

— Começou que horas hoje?

— Tá rendendo bem? Quantas viagens dá pra fazer por dia?

Segui meu roteiro de perguntas até chegar ao momento onde o motorista sente-se confortável e conta como virou Uber.

— Trabalhava viajando, tava sempre na estrada…

Será que vou conseguir chegar a tempo? Ainda preciso reajustar a passagem. É, talvez não dê. To com fome. Não como nada desde o almoço. Talvez eu possa comer uma coxinha antes de embarcar.

— É foda, você não acha?

Que? Ele tá falando comigo. O que ele disse? Putz rápido, pensa em algo.

— É sim, ai não tem jeito né? — Respondi confiante.

O motorista seguiu o papo. É melhor prestar atenção.

— Teve uma viagem que fiz pro Mato Grosso…

Cuiabá fica no Mato Grosso. É um lugar quente dos infernos. Fiquei num hotel que tinha um hambúrguer gigante. Alexandre, o Grande, chamava. Era bom. É, acho que vou comer aquela coxinha mesmo.

Me perdi de novo. O que o cara tá falando? Nossa não consigo prestar atenção. Por que será que isso acontece? Acho que vou acenar com a cabeça e fazer cara de sério.

— Hmm.. — acenei.

Acho que isso dá um texto.

— Aí quando minha esposa engravidou..

O título vai ser: Aquela conversa que não ouvi.


publicado em 25 de Setembro de 2017, 00:05
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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