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Um trabalhador apaixonado pelo que faz

Nem sempre o amor basta. Às vezes ele não é nem necessário

Quem não conhece a máxima "trabalhe com o que ama e não trabalhará jamais"?

Diante dessa filosofia que flerta com Confúcio e Steve Jobs, recentemente temos nos questionado se ela é verdadeira de fato. Não no sentido da existência, é claro, mas de seu significado. 

Quando na ocasião do discurso do falecido fundador da Apple na Universidade de Stanford em 2005, muito foi dito a respeito dele estar certo ou errado. Sinceramente, Jobs, nós preferimos o discurso de Robert De Niro na Universidade de Nova Iorque, mas não é exatamente disso que trataremos aqui.

Por que não unir o útil ao agradável?

Suponha que você é um executivo que ganhou uma promoção. Agora você cuidará da conta do seu setor em toda a América Latina. Antes de assumir, você foi avisado que essa vaga tinha como requisito disponibilidade para viajar. Não que você já não soubesse, afinal você cobiçou a boa vida da sua chefe durante anos até ganhar essa oportunidade. No ato de assinatura do novo contrato, você não podia parar de imaginar as escapadinhas que daria no Caribe ou como emendaria suas férias com a visita ao México.

Pára o filme. Corta pra cena no aeroporto.

Você, cinco anos depois, com suas olheiras de fuso-horário e as malas de rodinha cheia de cuecas sujas. Sua esposa reclama da distância entre vocês no casamento. Seu filho já tem quatro anos. Você acha Ibiza o pior lugar do mundo e por mais que você tenha uma certa quantia na conta bancária, viajar nas férias nem passa pela sua cabeça. Só de lembrar da sala de embarque do aeroporto de Guarulhos, você já fica enjoado. 

O trabalho que você tanto gostava e as viagens que você tanto queria, não se dão bem juntos. As fotos do pôr do sol que você posta no Instagram são o mais perto de diversão que você chega quando sai das reuniões em espanhol para ligar o notebook no quarto do hotel e mandar o relatório para São Paulo. Você tem saudades do almoço no boteco da esquina, onde o garçom te chamava pelo nome e reservava "o melhor lugar do restaurante". Você sente que trocou o tempo que ficava parado no trânsito pelo tempo que fica parado em conexões internacionais e poltronas apertadas de avião.

#semfiltro, vida boa né não?

No fim das contas, você perdeu uma das coisas que mais gostava na vida e ainda passou a ser aquele chefe que tem fotos belíssimas nas redes sociais, mas está sempre mal humorado, odeia o que faz e ninguém consegue entender o porquê.

Você pode achar que estou exagerando, mas essa é a realidade de dezenas de profissões atualmente. Publicitários, contadores, jornalistas, professores, médicos... Estamos virando noites no escritório, revezando turnos 24 horas por conta da auditoria do mês que vem, aceitando prestar serviços apenas em troca da visibilidade, trabalhando duas jornadas porque o salário de um emprego só não dá, usando drogas para aguentar o tranco...

Em troca do quê?

E se não fizéssemos só por amor?

Precisamos desmistificar essa aura de que trabalhar com o que ama é tudo que você precisa. Amar o que faz ajuda no processo mas, a menos que você tenha uma baita herança pra gastar, todo mundo precisa trabalhar pra pagar as contas no fim do mês e isso não está necessariamente atrelado a fazer o que mais gosta.

Quando estamos tentando escolher o que prestar no vestibular, por exemplo, sempre nos perguntam: o que você mais gosta de fazer? A pergunta aparentemente inofensiva carrega uma intenção implícita. Ela sugere que a melhor escolha é aquela que se relaciona com o que você tanto gosta. Mas por que, ao invés disso, ninguém nos pergunta nessa hora: qual é o seu objetivo de vida?

A resposta para cada umas das perguntas pode ser muito diferente mas o significado de cada uma é ainda mais. Se você quer ter hora para entrar e para sair do escritório, juntar dinheiro no fim do ano para poder viajar e comprar um apartamento aos 25 anos de idade, provavelmente você escolherá fazer algo muito diferente de quem quer fazer a própria rotina, criar os filhos em contato com a natureza e ir pro trabalho a pé todos os dias.

Os objetivos de vida aqui são muito distintos ainda que os dois gostem, a princípio, mais de literatura do que de matemática.

Como se já não bastasse, existe um outro problema relacionado a esse discurso: a noção de sucesso individualizada. Ensinados desde pequenos a valorizar trajetórias individuais de sucesso, quando olhamos para uma empresa consagrada, procuramos exaltar o grande líder, o criador, o CEO dos tempos modernos. Não passa pela nossa cabeça que uma empresa de sucesso na verdade se trata de um conjunto de profissionais que provavelmente atravessaram gerações até se consolidarem no mercado.

Se aplicamos isso em nossas vidas, percebemos que somos estimulados a sempre buscar o sucesso através de nossos esforços individuais. E eu não estou falando de meritocracia, mas sim da consciência de que algumas coisas nessa vida só são possíveis graças ao trabalho de dezenas, centenas, talvez milhares de pessoas que trabalharam juntas.

Caso você ainda prefira acreditar que sozinho chegará lá, tudo bem. O problema real acontece quando projetamos nossas expectativas nos outros. No auge da nossa vaidade, nos tornamos incapazes de compreender aqueles que estão felizes e satisfeitos sendo "menos". Deixando de fazer aquilo que "amam" em troca de um trabalho honesto por uma grana certa no fim do mês e nada mais.

Sinceramente, não tem nada de errado com isso e você, me desculpe dizer, não é o diferentão pra achar que "essa vida é pra eles, não pra mim". Você não deve discordar de mim quando eu digo que tem muito garçom, faxineiro, vendedor, caixa de supermercado, motorista, seja lá o que for, sendo mais feliz do que eu e você nesse momento. Isso porque a felicidade e o sucesso não dependem da profissão que tanto amamos e escolhemos pra vida toda.

Isso invalida tudo?

Tudo isso – é bom que se diga – não muda o fato de que nós adoramos histórias de pessoas bem sucedidas. Aquelas que abdicaram de tudo na vida para fazer o que amam. E se deram bem.

Não se trata de parar de gostar da sua banda favorita – que faz sucesso fazendo o que ama. Nem do empreendedor que construiu a empresa dos sonhos. Muito menos do atleta que bateu todos os recordes impulsionado por um time que joga pra ele. Pelo contrário. Nós, eu incluso, adoramos essas pessoas e as usamos como exemplo. Nós só precisamos lembrar que não é porque um cara conseguiu que deve ser sempre assim. Não é porque ele escolheu isso que eu também devo escolher.

Precisamos dessas histórias inspiradoras tanto quanto precisamos saber que não existe receita infalível para o sucesso.

Por isso que é delicioso massagear nossa motivação com histórias como a do goleiro Buffon.

Quando a Juventus entrou em campo no último domingo para enfrentar o Torino, ele só precisava de mais três minutos sem tomar gol para superar o recorde de Sebastiano Rossi – jogou pelo Milan em 1994 e ficou 925 minutos sem ser vazado.

Mas Buffon, aos 38 anos, conseguiu mais. Só sofreu um gol aos 48 minutos de partida e acumulou mais uma incrível façanha no campeonato de uma escola de futebol tradicionalmente conhecida por suas defesas consistentes. 

Emocionado e cada vez mais próximo do fim da carreira, Buffon escreveu uma carta onde declara o seu amor pela profissão, mas confessa que mesmo ele teve que abdicar do que mais gostava de fazer (jogava no meio de campo, originalmente), para ter mais certezas no futuro (se descobriu um bom goleiro). Uma carta destinada ao seu maior companheiro nessa vitória e em muitas outras: o próprio gol.

"Eu tinha 12 anos quando dei as costas para você. Eu neguei o meu passado para garantir um futuro seguro. Uma escolha de coração, de instinto. Desde o dia em que eu parei de olhar para sua cara, porém, eu comecei a te amar. A te proteger. A ser a sua primeira e última linha de defesa.

Eu prometi a mim mesmo que faria tudo para cobrir o seu rosto, ou o máximo que pudesse. Toda vez era doloroso, tendo que me virar e perceber que eu te deixaria decepcionado. Somos sempre opostos e complementares, como a lua e o sol, forçados a viver juntos embora nunca sendo capazes de nos tocarmos. Companheiros de time para a vida a quem é negado o contato.

Há mais de 25 anos eu dei meu voto, jurei te proteger e guardar você contra seus inimigos. Eu sempre pensei no seu bem-estar acima do meu. Toda a vez que eu virava para te ver eu tentava suportar a sua decepcionante expressão de confrontação, enquanto sempre conscientemente me sentia culpado.

Eu tinha 12 anos quando dei minhas costas para o gol e vou continuar a fazer isso desde que minhas pernas, minha cabeça e meu coração aguentem."


publicado em 23 de Março de 2016, 17:11
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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