Uma parte deles vem comigo

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Nunca os alto-falantes dos telefones me haviam sido tão úteis.

De um lado, mamãe; nervosa, preocupada. De outro, a irmã mais velha; do alto da experiência de mercado que já tem, tão nova, aos vinte e seis anos. Éramos três, em duas ligações. Ambas falavam com amor, pensavam em mim com amor. "O que é melhor para ela?"

Tenho certeza de que vão sentir saudades. Tenho certeza de que me prefeririam perto. Mas disseram: "Vá." E eu precisava ouvir isso. Quem é da área já havia compreendido. Uma vaga na capital pode parecer a melhor coisa do mundo. O status da TV aqui é enorme. Recém-formada, editar um telejornal local que costuma ter mais audiência que o maior telejornal do país é uma honra. Fiquei muito satisfeita de ter sido chamada para essa vaga temporária. Mas ela é temporária. O que mais quer um foca? Qualquer um pode saber.

E eu não sou, assim, qualquer foca. Sou uma foca sonhadora, cheia de objetivos audaciosos. Prevejo com muita clareza — embora possa estar errada — que o caminho mais longo, agora, pode significar um atalho, lá na frente. É claro que estou angustiada. É claro que fico em dúvida. Mas a esperança de conseguir uma colocação exatamente no cargo a que aspiro, é o que me estimula a ir. Ontem, dormi com a certeza de ficar; hoje, começo o dia com a segurança de que preciso partir.

Vou sentir muitas saudades. Saudades do colo da mamãe. Saudades do abraço da minha irmã, que é quase uma alma gêmea. Dos amigos, da família inteira. E vou sentir falta dele, também. Muita falta. Mas sinto que chegou a hora de desgarrar. Abrir mão dessa segurança de estar em casa. Conhecer novos amigos, aprender novas lições.

Chegou a hora de reconhecer o valor de um chão brilhando de tão limpo. De perceber que as comidas não nascem na geladeira. Que o banho de 40 minutos, além de anti-ecológico, é caríssimo. Chegou a hora de pensar no preço da escova de dentes e do absorvente feminino, antes de comprar.

Não sei fazer arroz, feijão ou passar bife. E, no fim de semana, tive que ligar para minha amiga que adora cozinha para tentar fazer um ovo mexido. Mas sei que sou capaz de aprender tudo isso, se quiser. Caso contrário, editar o jornal vai render-me alguns reais a mais que o preço cobrado pela empregada. E espero que, assim, tudo se resolva.

Não terei tempo para despedidas. Não poderei rever a maioria das minhas almas afins, antes de ir. Mas vou levar uma parte de todas elas comigo. Uma parte que vai estar na minha lembrança, sempre. Até que as novas afeições possam crescer a ponto de transformar o que hoje me parece o mais importante do mundo, em simples recordações de um passado distante.


publicado em 30 de Julho de 2008, 09:09
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Patricia Ferraz

Por profissão ou a lazer. O fato é que escrever a agrada mais que à média. Na TV, uma jornalista a fim de ajudar. De contar boas histórias de gente. Aqui, blogueira. Atrás de vidas, sentimentos. Atrás de gente também.


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