5 artistas que influenciaram Bob Dylan descritos por ele próprio

Aproveitando que há pouco tempo Bob Dylan anunciou que estaria escrevendo mais um livro, resolvi tirar a poeira da edição do Crônicas Vol. I que tenho em casa.

Para quem não sabe, este livro é o mais próximo que Bob Dylan já chegou de escrever uma autobiografia. Na verdade, é uma espécie de coleção de relatos sobre coisas aparentemente desconexas, sem um sentido de linearidade, sem tocar em pontos importantes de sua história.

Ele não fala sobre Blood On The Tracks, nem como foi a gravação de Highway 61, nem seu emblemático divórcio, nem sobre quando ele resolveu se converter ao cristianismo. É um livro vendido como autobiografia, no qual o autor fala quase nada sobre sua vida pessoal.

Não só o que ele vê, mas como ele vê

Pode parecer frustrante, mas o que ele realmente decidiu contar é, para mim, de uma preciosidade sem tamanho. Narra com detalhes sua chegada a Nova Iorque, como foi receber toneladas de novas informações, entrar em contato com os músicos e personalidades de quem só ouvia falar. Todos elementos muito importantes no que mais tarde veio compor sua maior criação: o próprio Dylan.

Nesse sentido, há muita riqueza. Há centenas de menções a músicos, escritores, atores, pintores, poetas, pessoas que perambulavam pela cidade, impressões detalhadas ou não, sempre com um olhar e uma linguagem capaz de converter a experiência subjetiva em material paupável ou objetos sólidos em elementos metafísicos. Sua escrita levanta a névoa, é feita da mesma matéria que compõe as lendas.

Então, separei cinco artistas descritos nas palavras do próprio Dylan como grandes influências no seu estilo.

Ah, antes de partir para as indicações, gostaria de deixar uma dica: leia o livro e, se puder, procure pelas referências citadas lá. Eu mesmo fiz isso e garanto que foi uma das melhores coisas que fiz na vida.

E vocês, também têm o hábito de garimpar as influências das suas influências?

Woody Guthrie

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“Woody fazia cada palavra ter importância. Ele pintava com as palavras. Junto com seu jeito estilizado de cantar, o modo como ele fraseava, o senso de elocução cara-dura, seco e caipira, mas espantosamente sério e melódico, era como uma serra circular no meu cérebro, e tentei seguir o exemplo daquilo de todas as maneiras possíveis.

Um monte de gente poderia achar as canções de Woody ultrapassadas, mas não eu. Eu sentia que elas eram totalmente atuais e até prognosticavam coisas que viriam.”

Dave Van Ronk

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“Dave Van Ronk, ele era o artista com quem eu ansiava aprender pormenores. Ele era excepcional nos discos, mas em pessoa era ainda mais excepcional. Van Ronk era do Brooklin, tinha documentos de marinheiro, um vasto bigode de pontas caídas, cabelo castanho liso e comprido que descia esvoaçante, cobrindo a metade de seu rosto.

Ele transformava qualquer canção folk em um melodrama surreal, um peça teatral – cheia de suspense até o último minuto. Dave ia fundo nas coisas. Era como se ele tivesse um suprimento inesgotável de veneno, e eu queria um pouco... não podia passar sem aquilo.”

Robert Johnson

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“As palavras de Johnson faziam meus nervos vibrar como cordas de piano. Eram muito elementares em significado e sentimento, e desvendavam muito da paisagem interna.

Não que você pudesse separar cada momento cuidadosamente, porque não pode. Há muitos termos faltando e excessiva existência dual. Johnson desvia das descrições tediosas sobre as quais outros compositores de blues teriam escrito canções inteiras. Não há garantia de que nada de suas linhas tenha acontecido, ou sido dito, ou sequer imaginado.

Quando canta sobre pingentes de gelo pendurados em uma árvore, ele me causa arrepios, ou sobre leite coalhando... me dá nojo e fico pensando como ele fez isso. Todas as canções possuem também uma ressonância pessoal esquisita. Linhas atiradas de qualquer jeito, como “If today were chistmas eve and tomorrow were christmas day”, eu podia sentí-las nos meus ossos – o clima festivo específico daquela época do ano.”

Roy Orbison

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“Orbison transcendia todos os gêneros – folk, country, rock’n roll e praticamente qualquer coisa. O lance dele misturava praticamente todos os estilos e algo que não fora sequer inventado.

Ele podia soar maldoso e detestável em uma frase e na seguinte cantar em falsete como Frankie Valli. Com Roy você nunca sabia se estava escutando mariachi ou ópera. Ele o mantinha sempre alerta. Com ele, era sempre do bom e do melhor. Soava como se estivesse cantando do topo do Olimpo e a coisa era séria.

Uma de suas primeiras canções, “Ooby Dooby”, tinha feito sucesso algum tempo antes, mas a nova canção não era nada parecida com aquela. “Ooby Dooby” era enganosamente simples, mas Roy havia progredido. Agora cantava suas composições em três ou quatro oitavas que faziam você querer se jogar de um penhasco. Cantava como um assassino profissional.”

Hank Williams

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“Com o tempo, tomei consciência de que nas canções de Hank estavam as leis arquetípicas da composição poética. As formas arquitetônicas são como pilares de mármore, e têm que estar ali. Mesmo as palavras dele – todas as sílabas são divididas de forma que façam um sentido matemático perfeito.

Você pode aprender um bocado sobre estrutura musical da composição ouvindo os discos dele, e eu os escutei bastante, e eles se internalizaram.

Dentro de poucos anos, o crítico de folk e jazz do New York Times resenharia uma de minhas apresentações e diria algo do tipo: “assemelhando-se a um menino cantor de coro e beatnik... ele quebra todas as regras da composição musical, exceto aquela de ter algo a dizer”.

As regras, quer Shelton soubesse ou não, eram as regras de Hank, mas não era como se eu tivesse me proposto a quebrá-las. Acontece que o que eu estava tentando expressar ficava simplesmente além do âmbito delas.”

publicado em 02 de Novembro de 2012, 22:09
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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