A importância da criação de uma cultura de cuidado consigo mesmo no ambiente de trabalho

Como a cultura de que vale a pena fazer esforços extenuantes no trabalho pode prejudicar as empresas

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Oficialmente tenho trabalhado em startups desde 2011, mas na verdade nasci em meio ao empreendedorismo. Cresci vendo meu pai alimentando a empresa com própria alma, e trabalhando até ficar num estado muito pouco saudável, só para então vê-la fracassar.

Na minha própria vida me descobri seguindo os passos de minha família. Adoro ser parte do mundo das startups porque funciono melhor em meio ao caos e à imprevisibilidade. É revigorante trabalhar com pessoas que não seguem uma rotina, mas que lutam para inovar cada segundo de cada dia.

Ainda assim, quanto mais tempo eu passo trabalhando nesse ambiente, mais eu percebo o quão corrosivo ele pode ser para quem está nele.

O engano da depressão: como as startups produzem ambientes insustentáveis

Quem quer que tenha passado tempo tanto no mundo de trabalho das startups quanto nas formas mais tradicionais é capaz de reconhecer as enormes diferenças entre os dois âmbitos. O segundo âmbito provê um ambiente (geralmente) seguro e calmo em que se está relativamente certa de que o seu emprego estará ali amanhã (embora nem sempre isso seja o caso), enquanto que o outro pode parecer uma montanha-russa com uma roda solta, batendo de um lado para o outro enquanto segue a velocidades quase insanas.

Não é, portanto, surpresa que a vida típica numa startup inclua muitos dos fatores que frequentemente desencadeiam distúrbios de humor. Especialmente se você é fundador, lida com tanto estresse e ansiedade vindos das pressões de conduzir a empresa quanto de sustentar todo seu pessoal nos ombros. E essa não é só uma afirmação sem evidência: de acordo com o índice Gallup-Healthways de bem-estar os empreendedores são três pontos percentuais mais estressados quando comparados com outros trabalhadores.

A mentalidade predominante é a de fundadores não poderem mostrar quaisquer sinais de fraqueza. Precisam estar constantemente dando exemplo para a equipe, ao mesmo tempo que atraem investidores. Mas trabalhar 80 horas por semana pode piorar os efeitos de distúrbios de humor tais como a depressão e frequentemente impedem atividades que ajudam a evitar doenças mentais, como, por exemplo, dormir bem e se exercitar.

Além disso, os mesmos traços que levam as pessoas a serem empreendedoras também as podem deixar suscetíveis à doença mental. Durante uma pesquisa sobre saúde e empreendedorismo, o psiquiatra e ex-empreendedor Michael A. Freeman descobriu que “pessoas que estão do lado mais energético, motivado e criativo tanto tendem ao lado empreendedor quanto são dados a estados mentais emocionais intensos [incluindo aí a depressão]”.

Dessa forma, não só gerenciar uma startup provavelmente prejudica corpo e mente, mas os mesmos atributos que fazem das pessoas grandes empreendedores também as deixam vulneráveis a problemas de saúde. Não é surpresa então que os empreendedores se sintam mais exaustos que o resto da população.

Mas não só os líderes e fundadores sentem estas pressões. Os empregados muitas vezes também sentem os efeitos negativos do estilo de vida da startup.

Quando a Netflix fez o documentário Print the Legend, sobre o surgimento das várias empresas de impressão em 3D, nele havia uma cena impressionante com o ex-designer da MakerBot, Michael Curry.

Curry estava se sentindo oprimido pelo ambiente. Inicialmente se atraiu para a MakerBot porque era baseada no modelo aberto, open source. Mas na medida que a startup crescia, Curry se descobriu trabalhando para uma empresa totalitária (inclusive com telas de Big Brother) e liderada por um homem que demitia quem quer que ousasse discordar dele.

Numa cena comovente, Curry partilha o que aprendeu ao longo dos últimos anos no mundo das startups:

“Muitas vezes se ouve, especialmente de empreendedores ou CEOs bem sucedidos, algo como ‘Sacrificamos tanto para chegar nesse ponto’. E se você não é um deles, ou nunca viu isso acontecer, você acredita no que eles dizem, ‘Ah, trabalhamos a noite toda várias vezes, ou não convivemos com nossas famílias, foi realmente difícil.’

Quando se ouve alguém dizer algo assim depois de você mesmo passar por uma startup bem sucedida, você começa a perceber que não são esses os sacrifícios de que estão falando. Eles estão falando de ter sacrificado a si mesmos, sacrificado quem eles eram. Estão falando de abrir mão das crenças pessoais mais profundas, sobre passar de limites que eles prometeram a si mesmos nunca cruzar.”

Ver essa cena me fez reforçar medidas que tomei anos atrás para me proteger das dificuldades da vida de startup.

Por que as startups precisam priorizar os cuidados consigo mesmo

Tenho lidado com a depressão desde a pré-adolescência. Foi quando terminei o ensino médio que tive meu pior episódio. Não conseguia sair da cama, e não tinha mais alegria nas atividades de que costumava gostar. Mas tive sorte. Fui capaz de superar a depressão ao fazer do cuidado comigo mesma a prioridade número um. Não importa o quão ocupada minha agenda, separo um tempo para dormir, me exercitar e ter tempo para mim mesma. Se isso significa que algumas coisas não serão feitas num determinado prazo, tudo bem.

Mas trabalhar para startups ameaça esse objetivo. Então comecei a buscar empresas que priorizavam saúde mental. Eram difíceis de achar – a cultura de “dê o máximo de si” é muito profundamente incrustrada. Nos EUA, especialmente, adoramos esse homem que chega ao sucesso pelo esforço próprio, e os Zuckerbergs do mundo que corporificam esse ideal. Mas isso não é saudável ou sustentável.

Brad Feld, diretor-gerente da firma de investimentos Foundry Group e co-fundador da TechStars, disse ao Atlantic que a depressão no mundo da tecnologia “é mais comum do que se reconhece”.

E aqui algo para se refletir: somente 18% dos fundadores são bem-sucedidos na primeira empreitada, e 25% das startups fracassam no primeiro ano. 13% das startups fracassam porque seus fundadores perdem o foco, 9% fracassam porque os fundadores perderam o entusiasmo, e 9% fracassam porque os fundadores caíram em burnout. Isso significa que 30% das startups fracassam devido ao estado emocional do fundador.

Qual é a vantagem de trabalhar tanto de forma que isso pode levar ao burnout?

Imagine quantas startups seriam bem sucedidas se elas de fato priorizassem os cuidados pessoais.

Poucas startups são compradas no seu primeiro ano, mas talvez você mesmo não dure muito mais do que isso se estiver negligenciando sua saúde mental ou emocional.

Como criar uma cultura de cuidados consigo mesmo

É ótimo que, enquanto comunidade, estejamos começando a falar sobre questões que já foram tabus. Mas agora precisamos agir. Sabemos que a depressão pode ser piorada ou até induzida por uma cultura que valoriza as horas de trabalho acima da saúde, e, portanto, se as startups criarem uma cultura de cuidados consigo mesmo desde o princípio, elas mais provavelmente serão capazes de prevenir a depressão e seus sintomas.

Aqui temos outras formas simples de criar uma cultura de cuidados pessoas em sua empresa.

  • Foque-se em resultados, não em horas trabalhadas. Nas palavras de Abraham Lincoln, “Dê-me seis horas para cortar uma árvore e passarei as primeiras quatro afiando o machado”. Trabalhar de forma mais inteligente é sempre melhor do que ralar mais.
  • Permita que membros de sua equipe se desconectem. Eles não precisam ou devem estar sempre disponíveis para você e suas ligações.
  • Recompense as pessoas pelas folgas. Os norte-americanos são conhecidos por não usarem suas férias, então é preciso encorajar sua equipe para que use as folgas.
  • Encorage hobbies. Seus funcionários precisam ter uma vida fora do escritório. Sentir-se bem-sucedido em áreas não relacionadas com o trabalho é importante para a saúde, de acordo com Michael Freeman.
  • Mantenha os altos e baixos da vida de startup em perspectiva. É preciso aceitar que as coisas nem sempre vão ser perfeitas.
  • Seja aberto e honesto com seus sentimentos para com alguém. Procure um grupo de CEOs como você, para sua família ou amigos, ou a um terapeuta. Você precisa de um sistema de apoio.

* * * 

Como quase tudo numa startup, isso começa com o fundador ou fundadores. Se as pessoas responsáveis não derem bons exemplos de cuidados com si mesmos, os funcionários não serão motivados a fazer o mesmo.

Num post em seu blog Brad Feld relatou a luta com a depressão. Ele detalhou como conseguiu sair de um ciclo de depressão ao simplificar sua vida:

“Parei de colocar o alarme para as 5 da cmanhã, e dormi até acordar naturalmente. Tomei folgas digitais em que parei de verificar o email, e de me manter atualizado com as notícias online, e usar o Foursquare. Viajo menos. Leio mais e corro.
Em outras palavras, faço todas as coisas que a cultura atual das startup tenta eliminar da minha vida. E como resultado disso, sou muito mais produtivo na empreitada de construir e investir em empresas.”

publicado em 07 de Março de 2015, 13:40
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Danielle Small

Contadora de histórias. Interessada em social media, cultura de startups e literatura. Leia os seus textos no @thinkapps e no I Am Comma.


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