O primeiro show

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— Senhor?

— Pois não?

— Adão na linha sete.

— Pode passar.

— Sim, Senhor. Só um instante.

— Alô?

— Oi, Adão. Tudo bem?
— Oi, Adão. Tudo bem?

— Tudo, e o Senhor?

— Tudo em paz. Onde você estava ontem que Eu não consegui falar com você?

— Então... Eu estava preso.

— Você estava o quê?

— Bem... Preso.

— Como assim? Não tem cadeia aí embaixo!

— Montaram uma pequenininha lá no lugar do show.

— No lugar do quê?

— Do show. O Senhor não ficou sabendo?

— Não, Adão. Eu fico ocupado aqui em cima.

— Mas o Senhor não é onisciente e...

— Adão?

— Sim?

— Nós não vamos falar sobre isso. Nós vamos falar sobre você ser preso em um show.

— Certo. O Senhor ficou sabendo que os macacos inventaram a música?

— Eu vi alguma movimentação ali na floresta. E ouvi alguns barulhos diferentes.

— Uns dias atrás, um macaco descobriu que se bater uma pedra na outra, ou num coco, faz um barulho legal. Assim, ele aprendeu uma técnica... Eu não sei explicar direito. É assim. Ele arremessa a pedra, e ela rola para bater na outra com mais força ainda. Não lembro como ele chamou isso. Acho que era Pedra Rolante, ou Pedra & Rola, algo assim.

— Entendi.

— Outro macaco viu isso e teve uma ideia. Amarrou uns cipós num pedaço de pau e descobriu como tirar som disso. Olhe, o Senhor precisa ouvir! O que aquele macaco faz com os cipós é um absurdo. Esse negócio de polegar opositor funciona mesmo, viu?

— Sim, Eu sei.

— E tem ainda outro macaco que descobriu como fazer sons assoprando dentro de um bambu. Olhe, eu falando, aqui, pode não parecer grande coisa, mas quando todos tocam juntos, fica sensacional. E eles ainda convenceram um canário a cantar enquanto eles tocam... É impossível não gostar! A floresta inteira só fala nisso!

— Bem, fico feliz que a música tenha sido criada. Mas isso ainda não explica você ser preso.

— Ah, sim. Bem, os macacos começaram a compor algumas músicas. Aliás, o Senhor iria gostar, muitas delas falam sobre a vida aqui embaixo. Monkey Business. Another Day in Paradise. Monkey Man. Almost Paradise. Tem uma que eu não consigo lembrar agora, o título é enorme. Everybody... Everybody has to Hide... Como era mesmo?

— Isso não importa agora.

— Poxa, está na ponta da língua...

— Eu quero saber que show foi esse. E porque você foi pres...

— Everybody has Something to Hide Except Me and My Monkey!

— Adão!

— Desculpe. Eu estava tentando lembrar aqui.

— Certo. Agora que você lembrou, Me fale do show.

— Certo. Para promover as músicas, eles decidiram fazer um show ali perto do lago. O Paraíso inteiro foi. Foi o evento do ano. Mas a confusão começou já na venda dos ingressos. Primeiro, os outros macacos... Os que não tocam, sabe?

— Sei.

— Eles compravam ingressos mais baratos, usando uma carteirinha de símio. Então, ao invés de pagarem cinquenta cocos pelo ingresso, eles pagavam apenas vinte e cinco.

— O ingresso custava cinquenta cocos?

— Sim. Quer dizer, esse era o preço da pista VIP.

— Pista o quê?

— Pista VIP. É um negócio que os macacos da banda inventaram. Você fica mais perto do palco, mas paga mais caro por isso. Quer dizer, não se você for macaco. Pois aí você usa sua carteirinha de símio para pagar menos.

— Eu nunca ouvi este termo. VIP. O que isso quer dizer?

— Eu perguntei também, mas não me recordo ao certo. Acho que é “Vantagens sobre os Inferiores do Paraíso”. Ou “Vagas para os Insuportáveis do Paraíso”. Algo assim.

— E você foi nessa pista VIP?

— Não. Olhe, eu confesso que tentei. Como não tinha cinquenta cocos, eu tentei fazer uma carteirinha na minha caverna...

— Você o quê?!

— Bem, eu tentei fazer uma. Usando uma folha de bananeira e um pedaço de carvão.

— Adão, você falsificou um documento?

— Bem... Sim. Mas não Se preocupe, não deu certo. Não me deixaram usar a carteirinha. Falaram que eu não sou símio. Tentei explicar que sou primata como os macacos, e que era o meu direito, mas acabaram confiscando minha carteirinha e me mandaram embora. Aí tive que comprar o ingresso comum.

— E quanto custou isso?

— Trinta cocos.

— Quer dizer que a pista VIP com carteirinha de símio custa menos que um ingresso normal?

— Isso! Os macacos podem ficar mais perto do palco pagando menos que os outros animais! É um absurdo!

— Sim. Concordo.

— Enfim, acabei comprando o ingresso normal, mesmo. Eu e todos os outros animais. Menos a serpente. Aliás, a serpente não comprou ingresso algum, ela fica nos bastidores junto com a banda.

— Como assim?

— Parece que ela consegue arrumar algumas coisas proibidas para os macac...

— Que coisas proibidas?

— Não é a maçã. Não sei direito o que é, mas não tem nada a ver com maçã. Pode ficar tranquilo.

— Entendi.

— Mas eu e os outros animais ficamos ali, atrás de todos os macacos da pista VIP. Chegamos horas antes do show, e ficamos a tarde inteira ali, de pé e passando calor. De vez em quando alguns macacos passavam ali vendendo água, mas cada coco com água custava vinte cocos.

— Vinte cocos? Isso é quase o preço do ingresso!

— Justamente. Os animais começaram a ficar nervosos com isso, mas um dos macacos explicou que os preços eram determinados pela própria banda. E, pior você não podia entrar com seus próprios cocos com água. Ou comprava lá dentro, ou passava sede. Assim, gastei todos meus cocos.

— Certo.

— E quando o show começou eu percebi que estava no pior do mundo. Não dava para ver nada. Era muito longe do palco! E isso sem falar que na minha frente tinha uma girafa, então eu não conseguia ver nada!

— E por que você não mudou de lugar?

— Eu fiz isso. Fui para outro lado e consegui um lugar melhorzinho atrás de um leão. Mas como a esposa dele não conseguia ver direito, subiu nos ombros dele. Aí eu não via nada de novo. Os outros animais atrás de mim também não. Começaram a gritar palavrões e arremessar cocos na cabeça da leoa.

— Você não impediu isso?

— Bem, o leão olhou para trás e achou que tinha sido eu. E veio para cima de mim. Tive que sair correndo dali e voltei para trás da girafa.

— Mas, afinal, como você foi preso?

— Bem, como ninguém conseguia ver nada, os animais começaram a ficar irritados, e acabaram decidindo invadir a pista VIP, pulando a cerca de bambu que separava a pista normal da VIP. Todo mundo pulou. Só o coelho que não pulou. Ele cavou um túnel por baixo da cerca. Mas invadiu também.

— E você ali no meio, pulando a cerca.

— Bem... Sim.

— E aí você foi preso.

— Não, eu consegui ficar lá no meio da pista VIP, vendo o show. O problema começou mesmo quando os animais que estavam perto do palco junto com os macacos começaram a desenhar a banda.

— Como assim? Desenhar a banda?

— Para todos os lados que você olhava, era um mar de patas de animais segurando folhas de bananeiras e desenhando a banda como recordação. Eu não entendo. Porque uma pessoa vai a um show e não está assiste nada, fica apenas desenhando o show?

— Concordo que não faz muito sentido.

— Eu sei que quando o canário viu aquilo... Ele estava tocando Paradise City. Enfim, o canário viu todo mundo desenhando o show e interrompeu a música. Mandou a banda parar de tocar e chamou os seguranças.

— Que seguranças?

— Uns gorilas. Chamou os seguranças e começou a apontar para os animais desenhando, e mandou a segurança confiscar as folhas de bananeira de todo mundo. Aí começou o empurra-empurra. Todos os animais gritando. Foi um caos.

— E aí?

— O canário viu que os seguranças não iriam conseguir recolher todas as folhas de bananeira, gritou um palavrão e foi embora do palco. Acabou o show ali mesmo, na terceira música. Aí o tempo fechou de vez.

— O que aconteceu?

— Todo mundo começou a brigar e a quebrar tudo. Destruíram uns dois ou três coqueiros. Eu comecei a gritar para que parassem com aquilo, porque eu quem teria que arrumar tudo no dia seguinte. Mas de repente, adivinha quem aparece na minha frente?

— Quem?

— O leão. Ele ainda achava que eu tinha arremessado os cocos na cabeça da leoa, e veio para cima de mim.

— E como você escapou?

— Saí correndo e subi nos ombros do primeiro segurança que vi, pedindo para ele me ajudar. Só que os outros seguranças acharam que eu estava agredindo o gorila e vieram para cima de mim. Me cobriram de pancadas e me levaram para uma salinha. Fiquei lá até hoje de manhã.

— E nessa confusão toda prenderam apenas você?

— Prenderam o coelho também. Mas ele escapou logo em seguida, cavando um buraco no chão. Eu tentei fazer o mesmo, mas o buraco era pequeno demais, então quase entalei ali. Fui solto só agora.

— Bem, agora você está solto. E tudo terminou bem.

— Sim.

— E você pode voltar a cuidar do Paraíso.

— Na verdade, eu queria aproveitar e saber se o Senhor não pode me emprestar seu cartão de crédito.

— Oi?

— Os macacos anunciaram hoje que vão fazer uma turnê pelo Paraíso inteiro. Vão tocar na floresta. Na montanha. No deserto. E semana que vem eles vão tocar naquela campina ao lado da minha caverna, eu queria ir. E parece que eles vão fazer uma pré-venda especial para cartões de crédito. O cartão do Senhor é platina, certo?

— Adão?

— Pois não?

— O primeiro show foi uma catástrofe. Eu não vou permitir uma turnê inteira.

— Mas eles já estão com as datas confirmadas. Parece que os ingressos da floresta e da montanha já estão vendendo. Custam oitenta cocos.

— Oitenta?

— Quer dizer, se você tiver a carteirinha de símio, você paga metade.

— Adão, esta turnê não vai acontecer. Eu não vou permitir isso. Esqueça esse show. Você precisa ir cuidar do meu Paraíso.

— Sim.

— Especialmente perto do lago. Olhe a lama que está ali. E tudo quebrado. Parece que vocês ficaram três dias acampados ali.

— Mas se o Senhor me emprestar seu cartão, eu posso limpar tudo antes do show.

— Olhe, se você realmente quiser ir a um show, eu posso montar uma banda de anjos e pedir para que eles façam um show particular para você. A banda se chamará Gabriel e Seus Guerreiros Celestiais.

— É... Não precisa.

— Tem certeza? Eles têm uma música muito boa, chamada Espadas de Fogo na Cabeça de Adão.

— Não. Não precisa. Eu já entendi.

— Eu imaginei. Que bom. Então esqueça isso vá limpar o lago.

— Sim, Senhor.

— Adeus.

Deus desligou o telefone e ficou pensando.

Estava diante de um problema. Não podia sumir com a música. Desde que criou o Paraíso, sabia que a música apareceria mais cedo ou mais tarde. Na verdade, queria isso. Dentre todas suas ideias, a música era uma das que mais se orgulhava. Mas não podia permitir que outro show desses acontecesse no paraíso. Esse tal de Pedra que Rola, ou Rola & Pedra, teria que esperar mais um tempo. O Paraíso não estava pronto para isso.

Assim, mandou alguns anjos descerem até o Paraíso na calada da noite e confiscarem todos os instrumentos musicais da banda. Mas sem coragem de destruí-los, decidiu escondê-los numa terra ao norte, colocando-os dentro de um saco pintado com a cor da terra, para que não chamasse a atenção dos animais.

Proibidos de mencionar os instrumentos, os anjos passaram a chamar aquela região de “lugar do saco igual à terra”. Mas com o passar do tempo, o nome se tornou apenas “igual à terra”. Era mais curto, mais prático e soava bem.

Passaram-se muitos e muitos anos até que os instrumentos fossem descobertos pelo homem. Mas, a esta altura, Deus já estava atarefado demais com outras coisas – como guerras e fome – para dar atenção a isso. Aliás, estava tão ocupado que nem mesmo havia reparado que há séculos o nome “igual a Terra” havia mudado mais uma vez.

Agora, chamavam aquele lugar de Inglaterra.


publicado em 03 de Maio de 2013, 21:12
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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