A conversa sobre paternidade é uma das mais importantes do nosso tempo. Venha para o PAI: Os desafios da paternidade atual, discutir e colocar em prática o tema.
Compre já o seu ingresso!

Pânico de segunda-feira

As noites de domingo costumavam me dar ânsia. Ao pensar em cinco dias seguidos e inescapáveis de tormento no trabalho, me entortava por dentro.

Do cair do sol em diante, se iniciava o processo.

Amaciava os músculos sozinho em meu quarto, perdendo tempo entre filmes e séries e vídeos quaisquer. Com alguma sorte, eles seriam capazes de me entreter e levar à exaustão necessária para dormir antes que a ânsia me engolisse.

Consigo me recordar do nó na garganta, precedido por um característico desconforto na altura da nuca, que aos poucos descia para o estômago e então subia de volta como uma serpente até se instalar na altura da traquéia, como uma bola de pelos engolida à força. Sentia meu ânimo indo embora pelas beiradas, as juntas se retraindo lenta e decididamente, acumulando pequenos câncros de tensão a cada bocado de ar inspirado, num processo de recolhimento da alma.

Acordar era uma guerra. Nos bons dias despertava quixotesco, enxergando como uma grande conquista minha capacidade de trabalhar apesar da falência de espírito. Nos dias ruins, me arrastava da cama para o banho para o carro para o trânsito para a tela do computador para as tarefas para o final do dia, num transe.

Às vezes tinha a nítida impressão de viver entre jornadas sem fim de supressão, rituais histéricos e variados de exageros e raríssimos momentos de alívio.

Anteontem tomei um susto ao ver uma foto antiga. A expressão em minha face carregava um peso estranho, como se eu estivesse tentando dizer que estava tudo bem e sob controle e progredindo, mas obviamente não. E pior, a prisão era consentida.

Link Vimeo | Tela cheia, claro

São 23:10 de domingo. Esse é meu depoimento e há quatro anos estou limpo do pânico de segunda-feira.


publicado em 25 de Maio de 2014, 20:10
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura