Pra que servem "clubes da luta"?

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Nota do editor: após lermos a matéria "O clube da luta real de Moscou é insano", a enviamos para nosso amigo Gil Eanes Vivekanada – um praticante muito experiente de artes marciais, e professor de Wing Chun e Eskrima – para escutar sua visão sobre o tema. Achamos a sua resposta tão interessante, que decidimos transformá-lo em texto e abrir a conversa por aqui. Escrito com a ajuda de Guilherme Valadares e Fabio Rodrigues.

Recomendamos ler o artigo da Vice antes de seguir. Clique na imagem acima
Recomendamos ler o artigo da Vice antes de seguir. Clique na imagem acima

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Tenho participado de grupos de sparring com alunos e amigos já há alguns anos.

Recentemente comecei a conduzir sparrings com grupos envolvidos também com treinamento da mente e atenção, sendo uns mais e outros menos experientes. Em um desses experimentos, praticamos meditação durante sete horas e silêncio ao longo de todo um dia, e somente então, já de noite, nos engajamos em sparring, mantendo o silêncio durante todo o período. Ao final de 1h30, após todos terem participado, abrimos para conversa.

Eu tenho notado desdobramentos bem distintos nesses grupos.

Nos grupos que se sentem interessados apenas no aspecto mais grosseiro das artes marciais, o foco se restringe ao desempenho na luta, na habilidade física e técnica. Aí há uma dificuldade bem grande para trabalhar com o aspecto mais sutil que as artes marciais podem nos ajudar a acessar, que envolve contemplar e trabalhar com o surgimento das emoções e nossas inclinações internas. Há quem nem saiba identificar e relatar as sensações surgidas em combate, talvez nem pensem que isso seja possível ou interessante. Nesses casos, as chances são grandes de que, com o tempo, a pessoa acabe treinando uma mente ainda mais responsiva, competitiva, e até raivosa e orgulhosa.

Às vezes me parece que essa situação é a mais corriqueira no mundo das artes marciais hoje. Não é comum termos a visão de que nosso bem-estar depende de termos um bom equilíbrio emocional e mental. Se surge medo, raiva, orgulho... apenas olham para isso como:

"Preciso treinar mais e ficar melhor, me sinto envergonhado, sou um fraco, preciso ser mais agressivo, mais forte, ter mais raiva, ser menos covarde etc..."

Reagir assim é como tapar um buraco abrindo outro, penso. Resolvemos um problema, e outro vem. O ciclo se repete indefinidamente.

Ainda que a ideia de usar as lutas como um catalisador para as nossas emoções e obstáculos seja boa e  realmente funcione, ainda vem a questão:

"O que fazer com essas emoções, obstáculos e impulsos após eles surgirem?"

Se é que conseguimos olhar para elas, percebê-las surgindo e influenciando nossa mente, energia e comportamento.

Alguém traumatizado pode ficar ainda mais traumatizado ou pode transformar o medo em agressividade, machucando  a si mesmo ou a outros.

Se tornar mais agressivo é ter coragem? Como isso pode influenciar a minha vida e relações para além das lutas e treinos?

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Sparrings na casa do Si-Hing Gil, após um dia inteiro de meditação e silêncio

E se a instrução fosse diferente, algo como: perceba como o seu ânimo e seu corpo são afetados pelo medo, raiva ou orgulho, perceba como é possível diminuir a influência destas emoções e agir mais livre delas, faça o que tem de ser feito sem perder a lucidez e o relaxamento. Veja como essa habilidade pode ser aprendida e transportada para outros momentos na vida.

Pode até soar contraditório, parecer que essas coisas não tem nada a ver com treino forte, suor, contusões, cortes, fraturas e tudo que envolve a prática de lutas e artes marciais, como se o caminho fosse óbvio e envolvesse necessariamente brutalidade, tensão, agressividade e competição.

Chögyam Trungpa diz que:

Podemos entender “guerreiro” como uma tradução da palavra Tibetana “pawo”. Pa significa “bravo”, e wo a transforma em “a pessoa que é brava”. A tradição de guerreiros que estamos falando aqui é uma tradução de bravura. Você pode ter uma idéia sobre um guerreiro como alguém que incita a guerra. Mas nesse caso, não estamos falando de guerreiros como aqueles que vão pra guerra. A guerra aqui se refere à bravura e destemores fundamentais.
A bravura é baseada na superação da covardia e de nosso senso de ser machucados.
A abordagem do guerreiro é encarar todas essas situações de medo e covardia. O objetivo geral da guerra é não ter medo. Mas o fundo da guerra é o próprio medo. Para ser destemido, primeiro temos que encontrar onde o medo está.
O medo é o nervosismo, o medo é a ansiedade, o medo é o senso de inadequação, um sentimento que não somos capazes de lidar com os desafios da vida diária.

E lama Padma Samten diz que:

É muito difícil a habilidade de se mover pelo meio do mundo, e até mesmo lutar, mas livre. Esta é a prática nas artes marciais. Você luta, vai até o fim, aos limites, e não se engana, não se identifica com os obstáculos que surgem e faz o que precisa ser feito. Este é o princípio da ação lúcida no mundo.”

E para fazer isso nós precisamos de métodos, dedicação e também de professores e amigos de prática. Enxergar e manejar nosso mundo interno, nossas emoções, impulsos, nossa energia, essas são coisas que temos de aprender, gradualmente, igual é no aprendizado das técnicas de corpo nas lutas. Não vamos desenvolver estas qualidades e capacidades apenas lutando – se fosse assim, todos os grandes lutadores seriam sábios e equilibrados, naturalmente...

Então, me parece que é boa a ideia de usar as lutas como meio de acessar nosso mundo interno, obstáculos e emoções. Mas se não houver junto um treinamento sobre como fazer isso, um método para contextualizar e direcionar tais experiências, aí eu fico um pouco desconfiado do quanto isso realmente funciona e pode nos beneficiar.


publicado em 13 de Setembro de 2013, 21:01
File

Gil Eanes Vivekananda

Pratica artes marciais desde os 14 anos, é instrutor (Dai Si Hing) de Wing Chun e Eskrima pela proWES – instituição fundada por seu professor, Sifu Cemil Uylukçu. Oferece aulas em Joinville/SC e viaja regularmente pelo Brasil para treinar grupos de alunos e instrutores.


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