Precisamos falar sobre transtornos alimentares (e como ser "fitness" tem me ajudado a vencer a bulimia)

A Mirian Bottan contou toda a sua história com o intuito de abrir a conversa e ajudar a acolher outros casos

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Spoiler: o texto a seguir vai ser bem extenso, então vamos por partes:

Por que resolvi escrever esse post?

Em 4 meses completo 29 anos. Dessas quase 30 primaveras, passei 15 vomitando muito do que comia. Foram várias fases: em algumas vomitava de 3 a 6 vezes por dia, em outras, 1 ou 2. Em umas, vomitava todos os dias; em outras, em quase todos. Em Outubro de 2013 percebi, assustada, que em quase 14 anos eu nunca havia passado 20 dias sem um “episódio bulímico”

É assim que os médicos chamam. 

Meus pais chamavam de “estrago”. Eu chamo de inferno. Mas agora estou saindo dessa e decidi contar a minha história e como comecei a dar a volta por cima porque, bem, muitos de vocês por aí sofrem com a mesma coisa ou com coisas bem próximas. E se não é o seu caso, certamente você conhece algum (mesmo que você não saiba).

Primeiro, vamos dar uma passadela pela origem da palavra bulimia:

Bulimia: a etimologia desta palavra se origina do grego boulimia, que é composta dos étimos boûs (boi) + limós (fome), isto é, o significando de bulimia é “fome de boi”. O vocábulo bulimia indica o quadro clínico de um transtorno alimentar caracterizado por episódios recorrentes de voracidade, em que uma grande quantidade de alimentos calóricos é consumida em um curto espaço de tempo.

Essa ingestão voraz é seguida de uma purga, feita por meio de vômito autoprovocado. Outros comportamentos compensatórios incluem o uso indevido de laxantes e diuréticos após a ingestão alimentar.  

Ou seja: bulimia não é "só" vomitar comida. É se entupir com toda a comida que você conseguir, doce, salgado, doce, salgado, litros de líquido, até a barriga doer e ficar enorme, e aí se arrastar até o banheiro mais próximo e vomitar tudo. É feio, é sujo, é pesado… e por isso ninguém quer falar sobre, muito menos admitir que faz. Mas é muito possível que muitas pessoas que não se consideram bulímicas se identifiquem com a situação descrita acima, até antes da parte do banheiro.

Sim, dá pra ser bulímico sem vomitar. A compulsão alimentar é considerada igualmente vergonhosa e tem as mesmas raízes. Por isso, esse texto aqui também pode servir pra você, que não vomita, mas passa frequentemente pelo ciclo de perda de controle com a comida > ódio de si mesmo, do próprio corpo e da comida > descontrole compensatório com a comida.

Como começa um transtorno alimentar: um resumo da minha história

Eu fui bem magra durante toda a infância e agia de acordo com o que meu corpo pedia: comia quando sentia fome, se não tinha fome nem pensava em comida. Tudo poderia ter seguido lindo assim, se junto com a pré-adolescência não tivesse aparecido, para dividir o apê da minha mente, um roommate daqueles que te deixam sozinho com todas as contas: a senhora ansiedade.

Aos 13 anos (ano 2000), eu comecei a descobrir na comida um prazer que me distraía das minhas tensões adolescentes. Mas tão logo meu novo passatempo fez subir dois quilinhos na balança (de 44 para 46!), a ânsia juvenil por atender a expectativas alheias rapidamente me convenceu que aquela subidinha de ponteiro era ruim e precisava ser combatida.

E era nesse estado mental que eu me encontrava quando, numa cagada do universo, veio parar na minha mão uma revista contando a história de um menino que havia quase morrido por vomitar comida para tentar emagrecer. A matéria detalhava o sofrimento dele, da família, o tempo no hospital, a luta para continuar vivo, uma história pesada.

Sim, eu ainda tenho a revista. Talvez um dia eu a queime num ritual dahora.

Mas do alto da minha sabedoria pré-adolescente, tudo que eu concluí foi que podia comer tudo que quisesse sem engordar — bastava vomitar a comida depois!

Em pouco tempo eu já tinha aprendido todas as “técnicas” (sim, elas existem) possíveis e vomitava com a maior facilidade. Três anos depois, eu havia ido daqueles 46 para 39 quilos. Quase metade do meu cabelo caiu, minha pele ficou horrível, meu rosto vivia inchado pelas glândulas de saliva inflamadas (algumas pessoas na escola me chamavam de kiko), eu quase destruí meu esôfago (muitas vezes vomitava até sangrar) e fiquei dois anos sem menstruar (amenorreia). Reprovei na escola porque se comesse qualquer coisa voltava correndo pra casa pra "terminar o serviço". 

Na verdade, eu praticamente não tinha vida social porque estar em qualquer evento onde as pessoas comiam qualquer coisa era horrível pra mim (podia ser as amigas decidindo tomar sorvete), eu acabava comendo feito uma doida, porque tinha zero controle sobre isso, e aí precisava vomitar, então sempre tinha que ir embora rápido. Aí na maioria das vezes preferia ficar em casa mesmo. Nem ser ameaçada com internação pelo médico que acompanhava meu caso adiantou, mas quando comecei a ver que o que eu fazia para não engordar estava me deixando "feia", parti para o passo seguinte da doença: desenvolver um controle de danos. Só pra continuar vomitando tranquila, claro.

Lá pelos 17 já não vomitava 5 vezes por dia, mas uma ou duas, além de ter voltado a me alimentar um pouco melhor. Minha aparência melhorou e passei a ser de novo uma garota normal, que ninguém jamais desconfiaria que, sozinha em casa, comia um bolo inteiro com 1 litro de leite e vomitava tudo depois, para se sentir… aliviada? 

Eu nunca soube descrever muito bem o sentimento. Só sei que organizava meu dia em torno de ter esse momento, pensava nisso o tempo inteiro, era a minha hora de "lazer". Era também, obviamente, minha prisão. E eu vivi nela até muito pouco tempo atrás.

Sobre a cura: um dia de cada vez

Esse texto provavelmente também vai impactar muita gente que não tem nenhum contato com um transtorno alimentar, mas, como eu disse, minha intenção aqui é tentar ajudar quem pensa (como eu pensei por muito tempo) que nunca vai ser "normal" a enxergar uma luz. Para isso preciso ser sincera em cada detalhe, principalmente em um: eu não me considero curada ainda. 

Não estou escrevendo para contar como já consegui sair desse buraco onde muitos ainda estão, mas para contar como está sendo a minha dura mas possível escalada. Eu subo centímetro por centímetro a cada dia, mas sem parar — e faz todo o sentido que seja assim.

É injusto e bizarro exigir de pessoas que todos os dias sentem medo da comida que melhorem de um dia para o outro, e isso é algo que na maioria das vezes os amigos e familiares (e até muitos médicos e terapeutas) não entendem. Eu sei que é esmagador ver um filho, um irmão ou um amigo sofrendo com isso, mas fazer pressão por uma cura rápida (impossível) em cima de uma pessoa que sofre de bulimia/compulsão alimentar só causa mais ansiedade e dor

A gente não consegue, simplesmente não consegue. E aí se odeia porque não consegue e come de raiva da gente mesmo. E aí já “falhou” outra vez, então come de raiva de novo e esse ciclo não acaba nunca. Então eu penso que, compartilhando a minha verdade, por mais pesada que ela pareça, talvez eu consiga jogar uma corda pra quem ainda está lá no chão. 

Minha última recaída foi há menos de dois meses e elas ainda acontecem, a cada 2 ou 3 meses talvez, ou quando eu passo por algum momento de muita tensão e me desestabilizo emocionalmente. Mas essas recaídas não me abalam, porque se você voltar lá pro primeiro parágrafo, vai ver que isso significa ter retomado um controle que jamais tive depois que vomitei comida pela primeira vez. Significa diminuir os episódios de, no mínimo 1o por mês (nas fases menos piores), para 1 a cada dois meses (e olhe lá). E eu estou muito, mas muito feliz e orgulhosa com isso.

Antes de explicar a parte prática, de como escalei até aqui, resolvi compartilhar com vocês (além de tudo até agora, hehe) um e-mail que escrevi, naquele fatídico Outubro de 2013, para um grupo de meninas que descobri na internet, quando decidi que não podia mais viver assim e fui buscar ajuda pela primeira vez — por mim, não para tranquilizar outras pessoas. 

Elas se apoiam e trocam histórias e foram o estalo que eu precisava, porque foi quando descobri que não estava sozinha (incrivelmente, depois de tantos anos, mesmo depois de muita análise, eu ainda não sabia disso, assim como muita gente por aí ainda não sabe). 

Se você preferir, pode pular o trecho abaixo e ir direto para a parte mais legal da história, mas se quiser entender e se aprofundar mais ainda e, especialmente se chegou aqui em busca de apoio e ajuda, eu diria que pode ser legal essa imersão na cabeça da Mirian que estava desesperada e começando a olhar pra cima em busca da saída, porque, como eu senti na pele, a identificação pode fazer mágica. 

Dito isso, bem vindos às profundezas do meu coração:

Essa semana me caiu a ficha: eu faço 27 anos no começo de Novembro, ou seja… faz mais da metade da minha vida que eu ando com esse fantasma da bulimia no meu pé! Ontem escrevi um texto no meu blog, uma carta que eu queria ter recebido aos 12 anos, antes que tudo começasse, me alertando que não ia valer a pena (tá aqui, se quiserem ler!). Depois, na madrugada insone pensando nisso tudo e em como eu poderia virar a mesa, digitei “bulimia grupo de apoio” no google e caí no blog da Pri.

Li o blog inteiro em 3 horas.

Eu nunca tinha pesquisado sobre bulimia ou lido depoimentos, foi uma coisa que começou e simplesmente ia acontecendo na minha vida, de um jeito que eu achava que era “único”, “meu”, e de repente eu estava de frente com alguém falando EXATAMENTE tudo que acontece comigo! Todas as preocupações e alertas que eu coloquei na carta ao meu eu de 14 anos atrás, todos os mínimos sentimentos (até os paralelos, de transbordar a desorganização para a vida e para o amor), tudo descrito tão detalhadamente que eu fiquei super assustada… e empolgada!! Porque enxerguei uma luz que nenhum tratamento me deu até hoje.

Eu comecei aos 13, depois de ler uma reportagem alertando sobre os perigos, como muita gente. Como muitas também comecei devagar, não me lembro de muita coisa do comecinho, mas me lembro dos primeiros momentos de tentar forçar, de como era difícil. Depois, minhas lembranças são já das piores fases (imagina que 14 anos vomitando quase todo dia, apagou muita coisa da cabeça mesmo, ficam só os momentos mais marcantes, como toda rotina), pesando 38 quilos (tenho 1,55m), vomitando de 3 a cinco vezes por dia, rosto bizarramente inchado pelas glândulas de saliva, mãos machucadas, dois anos sem menstruar, cabelo e pele terríveis e por aí vai.

Foram uns 3 anos assim nessa fase, que não foi a pior. Digo isso porque, definitivamente,
a pior fase é quando você aprende a esconder.

Meninas, eu já fui capa da revista Trip, fiz fotos para a Playboy e Vip, já fui considerada "musinha" por alguns e até trabalhei na TV. Durante toda essa fase, que foi dos meus vinte e poucos até hoje, eu escondi muito bem por fora e fui me acabando por dentro. Ninguém podia imaginar, né, eu morava sozinha, não tinha ninguém pra ver nada, sempre controlava pra não vomitar todo dia seguido pro rosto não inchar muito, mas quando inchava fazia compressas de gelo até passar (até no trabalho! e sempre culpando minha disfunção no maxilar). E fora dos episódios sempre tentei controlar muito a alimentação, pra não ficar "feia e doente". Mas não importa, com todos os cuidados, só eu (e agora vocês) sei que, em 14 anos, nunca passei um mês sem vomitar.

E por isso me sinto uma farsa, me sinto uma casca vazia, que se esforça pra se encaixar nos padrões, mas com uma vida dupla, ridícula, gastando toda a minha energia e tempo em disfarçar os estragos dos episódios de bulimia. É patético, é revoltante, é frustrante… e eu não quero mais.

Esse ano acho que foi um dos piores desde os meus 16. No final do ano passado eu consegui ficar quase três semanas sem vomitar, pelo mesmo motivo que já tinha me ajudado a conseguir uma brecha de mesma duração no começo de 2012: a dieta da proteína. Só por isso. Ou seja, nem quando eu consigo ficar sem vomitar eu estou realmente me cuidando!

Mais ou menos em maio, eu resolvi começar a cuidar do meu estômago pelo menos, porque entre tantas coisas ruins, a bulimia me rendeu uma pangastrite, com direito a H Pylori, e então decidi tirar pelo menos esse treco de mim. Cortei tudo que era industrializado, açúcar, sal, leite e… óbvio que deu merda. No começo consegui seguir bem, umas duas semanas, depois já comecei a ter compulsão com as coisas que estava evitando, como sempre aconteceu. De qualquer jeito acabei matando a bactéria, porque o que "deixo no meu estômago" ao menos estava super voltado pra isso. Fiz uma endoscopia faz uma semana e meu estômago está ok!

Mas estou trabalhando como freelancer, trabalhando de casa e… imaginem. Moro com o meu namorado, então como e compro tudo de novo pra ele não perceber. E minto, minto, minto. Só admito quando ele percebe por algum motivo.

Enfim, andei pensando muito na vida que tô levando, tenho uma vontade enorme mudar de verdade, deixar isso pra trás e, mais que isso, de fazer algo pelos outros também. Mas não sei como e tenho medo de influenciar errado, como aconteceu comigo e a revista. Meu blog até tem público e mesmo lá eu nunca tive coragem de falar disso muito abertamente. É duro, ainda mais pra quem trabalha tanto com a imagem. Como é que eu posso falar que tenho bulimia e ganhar dinheiro com a minha imagem!?!? Eu sempre morri de medo de incentivar as meninas, não quero que ninguém pense que dá pra ficar bonita assim, é uma mentira!!

Enfim, quero ajudar, quero divulgar o trabalho de vocês (…) em troca só quero uma coisa: que vocês me acolham. Me ajudem, me guiem, eu já não sei muito bem pra onde ir, não sei onde procurar e algo me diz que esse encontro não foi à toa. Podemos?

A reviravolta: perdoando a comida

Depois das férias de 2013/14, resolvi começar a batalha admitindo de cara uma ignorância que não é exclusiva dos bulímicos: não sabemos nada sobre comida. A verdade é que tirando o pessoal que estuda nutrição (que eu já até ando considerando estudar só por hobby), a grande maioria da população mundial simplesmente come qualquer coisa, sem entender nem se importar com as consequências disso. 

Ninguém tá nem aí pra saber o quê deveria comer e por quê, mas quase todo mundo, em algum momento, em maior ou menor grau, sofre por isso. Seja com a imagem, seja com a glicose e o colesterol alterados, com algum grau de anemia, com gripes frequentes ou com os mais simples e "corriqueiros" cansaço e dores de cabeça.

O objetivo de comer não é só calar a boca do estômago resmungão, não é a gente se sentir menos triste, não é se enturmar, não é acalmar a ansiedade. Todo mundo aqui sabe que a ansiedade acalmada por uma porção de gordura ou açúcar desce até o estômago, bate, e volta. Como acontece com qualquer droga, com a tequila pós pé na bunda e até com as três taças de vinho que a gente acha que “merece” depois de um dia de merda. 

A verdade é que a gente se fode porque pensa em tudo que ingere como um prazer ou desprazer, quando deveria pensar no que a comida realmente é: NOSSO COMBUSTÍVEL. Cada mísero tecido do seu corpo é feito do que você coloca pra dentro, e se você seguir esse pensamento, uma pizza de queijo e bacon (que obviamente é gostosa, não estou colocando isso em questão) não é uma recompensa, é uma bomba-relógio.

No incrível documentário Muito Além do Peso (incrível mesmo, vejam!), tem uma fala maravilhosa da Ann Cooper, chef, educadora e diretora do School Food Project:

Eu me pergunto muito por que se aprende tanta coisa na escola e não existe uma disciplina de educação nutricional. (…) Nós temos que olhar para o que as crianças comem e o que eles sabem sobre a comida como parte da experiência educacional. Porque a única coisa que fazemos várias vezes ao dia, durante toda a nossa vida, é comer.

Podemos não ler várias vezes ao dia, certamente não usamos álgebra várias vezes ao dia, não usamos ciência várias vezes ao dia. Mas o que fazemos várias vezes ao dia, em cada dia de nossas vidas é comer. E isso deveria ser tão importante na educação de nossas crianças quanto a leitura, a escrita e a aritmética.

E é aí (finalmente, glória, aleluia!) que chegamos à minha mudança. Em Fevereiro de 2014, decidi parar de pegar os atalhos que nunca funcionaram. Apesar de toda essa pica lôca e sofrida que vocês agora conhecem, dessa relação conturbadíssima com a comida, de viver em função dela por quase metade da minha vida, eu continuava infeliz com o meu corpo, que a cada ano que se somava ficava mais e mais flácido, afinal, o resultado estético da bulimia e de qualquer outra dieta restritiva (inclusive das famosas dieta da proteína e detox) é esse: a destruição da massa magra (os músculos), que implica em flacidez

Apesar de eu nunca ter estado estar acima do peso, meu organismo se acostumou a estocar gordura para se proteger das constantes fases de escassez de comida.

Antes de seguir, é necessário frisar que as causas de um transtorno alimentar só podem ser descobertas e cuidadas com tratamento psicológico, isso é indiscutível. Mas meu ponto aqui é que, geralmente, o maior empecilho para uma pessoa que sofre de T.A. deixar isso tudo pra trás é o pensamento "o que vai acontecer com o meu corpo? Eu vou engordar!", e é inocente a gente achar que um bulímico ou anoréxico vai conseguir abandonar esse pânico de uma vida e começar a comer de tudo sem neuras apenas por descobrir as raízes desse mal na terapia.

É necessário criar uma nova forma de se relacionar com a comida, que possibilite à pessoa se cuidar de verdade, do jeito que ela sempre quis. Eu fiz anos de análise e só por isso consegui começar a querer mudar. Mas aí eu tive que aprender a lidar com a comida na prática e isso aconteceu fora do consultório do meu terapeuta.

O que nos leva à quinta e última parte do post: uma micro aula de nutrição. 

Na verdade, apenas o básico do básico sobre o processo metabólico, que me fez entender de uma vez por todas por que a bulimia não compensa e descobrir uma nova forma de olhar para a comida: objetivamente, funcionalmente, como aquilo que me nutre e me dá energia e bem-estar para de fato viver. E de quebra, pela primeira vez em todos esses anos nessa indústria vital, me permitiu moldar o meu corpo como eu queria, só que comendo tranquila e sendo feliz.

Por que ficar sem comer pode te fazer engordar?

Toda a comida pode ser dividida em dois grupos: os macronutrientes e os micronutrientes. 

Os macronutrientes são: carboidratos, proteínas e gorduras, que são responsáveis pela manutenção e formação dos músculos, ossos, sangue e órgãos, além de fornecer energia. 

Já os micronutrientes são vitaminas e minerais que são necessários para o nosso organismo em quantidades menores (de miligramas a microgramas), mas fundamentais porque contribuem para que o organismo funcione corretamente e se mantenha saudável. Por exemplo, as vitaminas do complexo B são necessárias para ajudar a transformar carboidratos, proteínas e gorduras em energia e assim usar estes compostos a fim de formar e reparar tecidos.

Mesmo quando eu comia, sempre tinha “medo” de carboidratos porque achava que o segredo para não engordar era consumir pouco desses alimentos que a gente, por falta de conhecimento, acaba considerando “calóricos”, logo, “proibidos”. Só que carboidratos são a nossa maior fonte de energia e numa dieta onde falta o mínimo de energia que seu corpo precisa para funcionar, ele vai começar a consumir seus músculos. 

Infelizmente (ou felizmente) peso é relativo, dietas privativas baixam o ponteiro da balança mas o que vc está perdendo é líquido e músculo, não gordura. A queima de gordura é um processo metabólico complexo, ela só é usada como fonte de energia numa situação de equilíbrio. Quando o corpo é privado de macronutrientes, o resultado é inverso: o organismo desacelera seu metabolismo para estocar gordura como um mecanismo de defesa, porque seu corpo não sabe que você está se privando de comer, ele acha que você não está numa ilha deserta sem comida e precisa ficar vivo!

Nos seis primeiros meses de reeducação alimentar, combinada com treinamento de força (musculação), eu ganhei dois quilos de músculos e meu percentual de gordura foi de 23 pra 17, algo que jamais havia acontecido na minha vida com nenhuma dieta extrema — e aconteceu comendo muito mais do que já me permiti comer. Meu peso na balança, no último ano e meio, foi de 46 para 51 mas minhas pernas, meus braços e minha barriga secaram! 

Como assim? 

É que músculos pesam mais que gordura!

O gasto de energia com exercícios aeróbicos, somado à musculação (que também gasta energia, mas cujo maior objetivo é "construir músculos") e a uma alimentação balanceada, rica em alimentos com fibras e proteínas, aumenta sua massa muscular, o que acelera seu metabolismo, principalmente devido à necessidade dos músculos de energia. 

Quanto mais tecido muscular você tem, mais energia (calorias) o seu corpo gasta, inclusive parado! Não tem essa de metabolismo lento, o metabolismo acelera de várias formas, principalmente quando você garante para o corpo que não vai faltar comida.

Eu hoje ando me divertindo brincando de construir músculos e bancando a alquimista na cozinha. Pesquiso muito sobre os alimentos e suas funções no organismo, faço sucos bizarros para maximizar a ingestão de micronutrientes, malho com peso igual "gente grande" (como diz o meu treinador), superando os meus limites físicos e psicológicos; bebo 2 litros e meio de água por dia e como religiosamente de três em três horas, deixando bem claro pro meu corpinho que os dias de privação acabaram e ele pode se sentir livre pra gastar toda a energia que quiser.

E eu posso, finalmente, me sentir viva.

Se você quiser continuar acompanhando a minha história, pode dar um follow aqui e lá no meu Instagram, onde eu às vezes também posto receitinhas mirabolantes e funcionais!

Update:

Pessoal, eu até tinha imaginado que compartilhar a minha história poderia tocar várias pessoas, mas o que eu não esperava é que tanta gente me escreveria tão rápido para compartilhar suas próprias dores e em busca de apoio!

Agora, mais do que nunca, eu sinto que o que eu fiz foi muito acertado e que tudo que passei pode ter um propósito bem maior do que eu imaginei inicialmente escrevendo o relato.

Sei bem como é estar nessa e não ter com quem falar, então decidi abrir um canal específico pra isso, que quem sabe possa até virar um projeto maior, para acolher e conectar quem está em busca de colocar um fim nesse sofrimento, afinal, a última coisa que ajuda é se sentir sozinho.

Daí, pra começar, criei um email → precisamosfalarr@gmail.com
(é com RR no final mesmo porque com um R não estava disponível e eu queria que ficasse fácil de lembrar!)

Quem quiser pode ficar à vontade pra me escrever nesse endereço e contar sua história, fazer perguntas, vou ficar super feliz por ajudar como puder, seja falando com mais detalhes do meu processo ou simplesmente escutando vocês. E o e-mail também tem a vantagem da discrição, assim vocês não precisam dizer nada publicamente se não estiverem preparados para isso.

Tô super empolgada e acho que podemos ir muito além, podem contar comigo! Vamos falar!

Nota do editor: esse texto foi originalmente publicado pela Mirian no Medium essa última semana.


publicado em 03 de Agosto de 2015, 15:36
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Mirian Bottan

"Even though I’m a world unto myself, I’m just a speck of dust in the avalanche of events. But nothing will ever force me to think like a speck of dust."


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