Quer dar um tapa no visual mas não sabe por onde começar? Fizemos um curso online de estilo pra isso, o “Mas você vai de chinelo?”. Inscreva-se agora! É gratuito!

Sobre ser deficiente sem simbolizar a deficiência

"A dificuldade com a identidade de deficiente é que ela é muito presente, muito 'sólida'. Parece impossível não se acreditar sendo isso mesmo."

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Logo havaianas 130x50 png
  • 47 nh 1 png

Ser deficiente físico e, consequentemente, fora-dos-padrões em uma sociedade que valoriza tanto as aparências externas, o estilo, o look, a forma de se portar e a linguagem corporal, pode ser uma fonte inesgotável de medo, vergonha, autojulgamento, baixa autoestima e de uma sensação de desconexão e não-pertencimento.

A deficiência física é apenas mais uma das muitas identidades que carregamos e que nos descrevem sem nem percebermos, como, por exemplo, a identidade do trabalho (“sou o João, do Banco”), do bairro (“sou o fulano, lá do centro”), de pai, irmão, marido, ou de alguma habilidade nossa (“Sou o Antônio, o corredor”), etc.

A dificuldade com a identidade de deficiente é que ela é muito presente, muito “sólida”, muito aparente, difícil de mudar e reforçada por muitas pessoas, até mesmo pela sociedade e pela cultura. Parece ser impossível não se acreditar sendo isso mesmo, ou até mesmo nos enxergar de outra forma.

Mas a gente não precisa negar o “defeito de fabricação” ou o fato de que temos um corpo fora do padrão estabelecido, fora do que se convencionou chamar de “normal”. O que podemos — e devemos — fazer é mudar o olhar sobre nós mesmos e sobre nossa condição.

Se esse é o seu caso, em maior ou menor grau, gostaria de te dizer algumas coisas que andei aprendendo, observando e contemplando nesses 37 anos de muletas.

  • Só o fato de conseguir viver e se virar, com a malemolência e jogo de cintura que a deficiência exige de nós, já deveria ser motivo de orgulho e dignidade para uma pessoa com necessidades especiais. Muitas vezes, tarefas simples e corriqueiras para uma pessoa “normal” — como vestir as meias ou tomar banho — podem ser trabalhos complexos e que só são ultrapassados com muita criatividade e originalidade. Pensar ‘fora da caixa’ é o cotidiano para todos nós que precisamos nos adaptar constantemente às mais variadas situações;
  • Você pode ser um exemplo para todos, do jeito que você é, neste exato instante. E não estou nem falando do famigerado “exemplo de superação” que tanto gostam de nos apontar. Nosso exemplo pode ser o da alegria, dignidade, postura, altivez, brio, de se reconhecer como é e estar bem com isso. O nosso exemplo pode ser ainda mais impactante se conseguirmos enxergar o valor infinito das nossas vidas e dos outros, apesar das aparências;
  • Até porque, vale lembrar, a elegância, dignidade, confiança, postura e altivez são características que tem muito mais a ver com qualidades internas, de mente ou coração, do que com as aparências externas;
  • Ah, humor! Tem uma frase de um livro que eu sempre carrego comigo: “If life doesn’t make you laugh, you didn’t get the joke” (se a vida não te fizer rir você não entendeu a piada, em tradução livre), ou seja, a piada está sempre lá, cabe à gente rir dela ou não. A vida é cheia de ironias, coincidências, possibilidades, desencontros, brincadeiras e malandrices. Aprenda a rir da sua situação e das coisas que acontecem contigo. Isso alivia, isso energiza, isso anima, isso cura.
  • Tente ver o que temos em comum com todos. Não, não me refiro a esses slogans nova era que andam pipocando por aí. Basta ver que até mesmo aquela pessoa que você acha tão bonita, elegante, confiante, empoderada, forte, sarada, etc também tem, lá no fundo, as mesmas inseguranças e travas que todos nós temos. Ande pela multidão e observe que até mesmo aquela mulher tão bonita ou aquele homem tão confiante vão ficar checando se está tudo ok com eles, o tempo todo. O que é isso senão uma insegurança e ansiedade por aceitação ou aprovação?

No fundo, no fundo, todos nós, todas as pessoas do mundo, tem em si a vontade de não ter que sustentar nada, de não precisar sustentar a imagem que criaram pra si mesmas e de não precisar seguir a coerência e as normas que vêm junto com a identidade que foi cultivada.

Somos deficientes, sim, mas não precisamos nos sentir deficientes. Podemos nos sentir bem com nossas diferenças, nosso jeito peculiar de fazer as coisas, nossa “customização de fábrica”, sem precisar cair em julgamentos e comparações com os padrões impostos.

Afinal, não seria refrescante deixar de sustentar a imagem de deficiente e interagir com a vida de uma forma mais leve e menos pautada pelos nossos receios e pelo quê os outros esperam de nós?

Depois de ler tudo isso, é bem capaz que você me pergunte: “Mas, se eu for deixar de lado aquilo que mais me caracteriza, aquilo que me define, o que eu vou ser?”.

Eu não sei, mas sei que essa é a pergunta de uma vida inteira. Essa, na verdade, é a única pergunta que realmente vale a pena responder, porque a resposta depende inteiramente de você e é bem capaz que você se surpreenda com o que vai encontrar.


publicado em 09 de Outubro de 2019, 13:15
Fd1af135a54533dd4c276d7f8f35b1d6?s=130

Marcos Bauch

Nascido na Bahia, criado pelo mundo e, atualmente, candango. Burocrata ambiental além de protótipo de atleta. Tem como meta conhecer o mundo inteiro e escreve de vez em quando no seu blog, o De muletas pelo mundo.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: