Acabaram os nus na Playboy. Qual o futuro das revistas masculinas?

A lendária revista masculina não vai mais ter mulheres nuas. O que isso nos diz?

Me lembro da primeira Playboy que comprei, a da Tiazinha. Era um adolescente magreloespinhudotímido com feições óbvias de quem ainda não tem 18 primaveras completas.

Furtivo, andei por bancas de revista no centro de BH durante horas, procurando o vendedor ideal, o mais camarada. Após algumas negativas (que me deixaram suando de vergonha), me venderam a tal revista. Escondi bem escondida na mochila, temendo ser pego no flagra ao chegar em casa. Tranquei o quarto e fui admirar as páginas como quem tem um tesouro em mãos.

Eu era dos que lia as entrevistas e reportagens. Maravilhado, achava aquela a revista dentre as revistas. Queria ser editor-chefe dela e cheguei a dizer isso a um de seus diretores de redação quando estivei na sede da Abril, muitos anos atrás, quase em vidas passadas.

Mais do que nus, a Playboy representou um estilo de vida. A glorificação e objetificação do nu feminino, estilo, sucesso, elegância, literatura, rebeldia, "tudo de melhor que a vida podia oferecer a um homem", supostamente, ali estaria.

Ler, comentar, admirar e colecionar suas edições era ser homem, também supostamente.

Pois que os tempos mudam

A Playboy não vai mais ter mulheres nuas estampadas em suas revistas, ficamos sabendo há sete dias.

Ao invés disso, elas estarão lá em poses provocantes apenas, talvez usando lingeries ou roupas de banho. A sugestão foi feita por Cory Jones, chefe de conteúdo, ao fundador e ainda editor-chefe, Hugh Hefner.

Ser homem não passa mais pela coleção de Playboys escondida no seu armário.

* * *

Hugh, velhinho

Publicada em 1953, a primeira edição da Playboy foi um marco na revolução que fez com que o nu deixasse de ser algo furtivo e se tornasse onipresente. O nu feminino, importante dizer – o masculino segue causando arrepios, como podemos ver aqui, aqui e aqui. E não deixa de ser fascinante observar como a própria onda iniciada pelo império do coelhinho hoje retorna como um avassalador tsunami capaz de destruí-lo.

O nu está a um click, gratuito.

A estética da Playboy se empobreceu, a web oferece mais variedade, tanto hardcore, como artística, para todas as orientações sexuais possíveis.

A objetificação do corpo feminino tem seu espaço cada vez mais reduzido. Essa sendo apenas uma das conquistas do feminismo, um movimento bastante heterogêneo e, pelo pouco que me consta, bastante admirável em tudo que alcançou em apenas um século, de modo pacífico. 

As mulheres, que não podiam votar ou trabalhar sem autorização dos maridos, que podiam ser mortas por seus cônjuges caso a honra dos mesmos estivesse em jogo, que eram coadjuvantes sociais, hoje são presidentes de países e empresas, provedoras de lares, ocupantes do espaço público – seguindo firme em sua caminhada (ainda com muito a alcançar) em busca de autonomia, igualdade e respeito.

E os homens... bem, os homens precisam de espaço pra dialogar sobre mais do que mulheres nuas, peitos, bundas, estilo, carros, viagens, sucesso, dinheiro, brinquedos de adultos, acessórios, boa literatura, boa música e piadas.

Posar de foda e ser foda, a aparente agenda oculta de quase toda revista masculina, não dá mais conta do recado.

Em algum lugar no meio do caminho, a Playboy resolveu descansar nos próprios louros e se distraiu da cultura. 

A reportagem feita em 1963, por Gloria Steinem, como coelhinha infiltrada num dos clubes Playboy foi um marco de sua carreira como ativista feminista. Foi também um excelente alerta, sumariamente ignorado, de uma cultura em transformação. Você pode ler suas duas partes, na íntegra, aqui e aqui.

Se eu fosse Hugh Hefner, teria chamado Gloria para um café, pra entender por que meus clubes e minha visão de mundo eram tão problemáticas – calha de ser o que fiz há cinco anos, quando o PdH foi achincalhado a primeira vez por blogs feministas (e com razão).

Hoje, cinquenta anos depois da reportagem de Gloria Steinem, as mudanças estão fortes demais pra continuarem sendo ignoradas. Hefner está com 89 anos e ainda assina como editor-chefe, não faz sentido algum. A circulação caiu de 5 milhões para 800.000 .

A Playboy perdeu a conexão com os homens de seu tempo.

Talvez o mais forte testemunho desse fato tenha sido a triste "Constituição do Homem Livre", um conjunto de sessenta mandamentos lançados por eles no final de 2013, pra comemorar seus sessenta anos de história.

Mais pareceu uma lápide do que uma celebração

A sinuca de verdade não é editorial, é existencial.

O que resta à Playboy fazer sem as mais desejadas mulheres nuas para capitanear suas vendas?

O que ela tem a dizer aos homens agora? O que ela tem a dizer aos homens que não se identificam apenas como hetero? O que ela tem a dizer às mulheres? 

O "dilema da inovação", conceito apresentado pelo pesquisador Clayton Christensen, propõe que empresas pioneiras tendem a ser devoradas por tecnologias de ruptura criadas por novatos que não têm compromisso com legados das antigas.

Acredito que a Playboy está sendo engolida não só por tecnologias, mas principalmente por mudanças culturais de ruptura.

Homens e mulheres são muitíssimo diferentes do que eram há sessenta anos, assim como o mundo que habitam.

Se eu trabalhasse lá, me atentaria a isso: o que os homens de hoje realmente precisam? Ah, e com absoluta certeza não chamaria uma agência de publicidade ou consultoria de marca pra me ajudar a responder essa pergunta.

Sonhando as revistas masculinas do futuro

Sonho com revistas que enxerguem pessoas, não só leitores ou consumidores. Publicações que aspirem nos ajudar a florescer nos mais diversos campos: profissional, afetivo, amoroso, familiar, esportivo, relacional, físico, artístico. Nesses locais, o diretor de negócios não é a voz de comando (como costuma se estabelecer), ele é parceiro real do diretor de redação e do diretor de cultura (se não entende esse cargo, leia esse livro).

Que essas revistas não sejam tão dependentes da publicidade, que as próprias pessoas que as acompanham estejam dispostas a ser co-criadoras do conteúdo e do percurso. Ao sair da posicão passiva-crítica de consumidor, nos apropriamos do que é oferecido com mais intenção, o próprio conteúdo ganha mais brilho, deixa de ser mero entretenimento.

O futuro editorial, a meu ver, passa por mudanças do lado dos publishers e editoras, mas também por mudanças em quem lê e absorve o conteúdo. 

Em suma, passa por estar com os pés fincados em nosso tempo.

E pra vocês, há futuro para a Playboy? Se fossem sugerir algo aos seus editores, o que seria? Digam nos comentários.

A pergunta é sincera, não desejo o fim deles. Quanto mais revistas lúcidas e benéficas puderem surgir – ainda que por conta da morte de visões anteriores – melhor.

Um abraço, Hugh. Obrigado por ser um dos que me inspirou a colocar o pé no mundo editorial, ainda que hoje estejamos em caminhos tão diferentes.


publicado em 19 de Outubro de 2015, 18:25
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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